Ficção científica movimentando 2015

por Mateus Ribeirete

Pense no seguinte cenário: você, fã incondicional de ficção científica, caminha tranquilamente por ruas futuristas de uma megalópole cyberpunk mal iluminada, quando, distraído com um ciborgue violinista do outro lado da quadra, tropeça em algum entulho — por razões estéticas, trata­se de uma cidade cheia de entulhos agradáveis para quem nela não vive. Esse entulho específico, no entanto, apresenta uma característica bastante peculiar, pois se trata de nada menos que uma lâmpada mágica. O alinhamento da sua íris digital com a ponta da lâmpada subitamente desperta um holograma parecidíssimo com o estereótipo de um gênio

Ainda um tanto assustado – e se sentindo estúpido por ter gastado minutos esfregando o objeto –, você procura fazer contato. “Boa noite…”, diz, hesitante, ao que ele, ou isso, responde em tom calmo o suficiente para te animar: “Boa noite, senhor? tudo bem com você? Tudo está ótimo por aqui!”. Passados alguns parágrafos em que o elemento da lâmpada, dotado de inteligência artificial extraordinária, explica seu funcionamento (em detalhes técnicos que certamente se fazem irrelevantes, por ora), a conversa atinge seu clímax. Você, o fã incondicional de ficção científica, tem a chance de realizar três pedidos — mais ou menos.

Eis que seu primeiro desejo, independentemente do que seja, é recusado? o segundo também? e o terceiro, olha só, também. “Por favor!!!”, você exclama, e o gênio claramente observa mais de um ponto de exclamação em sua fala. A réplica, contudo, não passa de um “Sinto muito, Dave, mas temo não poder fazer isso”. O diálogo que se segue é um tanto estranho, e você, sem nem perceber que ele te chamou de Dave, pergunta por que, afinal, ele não pode atender aos seus pedidos.

Monolito algum jamais revelaria a resposta dessa pergunta. Entretanto, o gênio – que por anos havia trabalhado como gerente de uma rede de fast food no fim do universo – aguarda seus últimos soluços de insatisfação para propor uma oferta. “Façamos o seguinte… Eu lhe entrego uma sequência para ‘Blade Runner’, e nós fingimos que essa conversa nunca aconteceu”. Ainda estupefato pela falta de sentido de tudo isso, você não sabe como responder. Impaciente, o gênio logo complementa: “Ok, ok? eu também adapto ‘Fundação’, ’12 Macacos’, ‘O Fim da Infância’, ‘O Homem do Castelo Alto’ e ‘3001’ para a televisão”. Antes de qualquer reação sua, o gênio desaparece, ao passo que o som do ciborgue violinista volta a tomar conta de sua atenção auditiva.

Horas depois, notícias confirmam todas as promessas proclamadas pelo gênio, e você opta por ser considerar vitorioso.

***


Como uma equipe de futebol adquirida por investidores bilionários, a ficção científica tem feito os fãs sonharem com grandes reforços no cinema e na televisão. Muito além do sétimo filme de “Star Wars”, há um bombardeio de novidades que, entre a expectativa e a relutância em criar qualquer tipo de expectativa, despertam no mínimo inegável curiosidade. Nem tudo ficará pronto em 2015, e há sempre o risco de algum projeto ser cancelado. Ainda assim, vale a pena acompanhar o que podem ser grandes adições ao cânone audiovisual do gênero. Se forem fiascos – e é estatisticamente difícil a chance de todos os projetos anunciados até o momento serem grandes produtos –, não foi por falta de torcida.

Comecemos por “Blade Runner” (1982)… Eis um filme sem a menor necessidade de continuação. Ainda assim, é difícil ser fã da consagrada adaptação de “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, de Philip K. Dick, e se manter indiferente diante da extensão da película. “O melhor que já li”, foi a reação de Harrison Ford ao roteiro da sequência. Embora isso não indique absolutamente nada – Ford provavelmente reprisará seu papel de Rick Deckard, e nada o impede de promover o filme –, o que custa sonhar (com ovelhas elétricas), não é mesmo? Ridley Scott, ocupado com a continuação de “Prometheus” (ah, sim), deve se contentar com a produção da obra, que segue sem título confirmado. Filmagens começam esse ano (é o que dizem).

Scott, por sinal, não para por aí: ele produzirá, ao lado de David W. Zucker e Stuart Beattie, uma minissérie com base em “3001: A Odisseia Final” (1997), de Arthur C. Clarke. Apesar de não ter relação nenhuma com Stanley Kubrick, a série certamente será comparada com a obra máxima de ficção científica, e talvez isso mereça algum reconhecimento por coragem. O projeto verá a luz por meio do canal a cabo SyFy, que volta a fazer jus a seu nome. Ainda não há datas concretas, e sabemos apenas que Beattie (“Piratas do Caribe”, “Colateral”) ficou responsável por escrever a adaptação, que só deve ser finalizada em 2016.

Antes disso, no entanto, o SyFy tem outra carta na manga para os fãs de Arthur C. Clarke. “O Fim da Infância”, romance de 1953 que narra uma ocupação alienígena supostamente pacífica na Terra, será adaptado também como minissérie. Com duração de seis horas, o seriado será exibido ainda em 2015. Por se tratar de um enredo dividido cronologicamente em duas partes distantes, a ideia pode funcionar de forma bem mais eficaz do que em um filme, naturalmente mais limitado em termos de tempo. “O Fim da Infância” terá seus três episódios dirigidos por Nick Hurran, cuja experiência na televisão engloba os adorados “Doctor Who” e “Sherlock”.

Ainda na tela menor, o lugar das grandes narrativas contemporâneas, “Fundação”, consagrada saga de Isaac Asimov, será adaptada por Jonathan Nolan, co­roteirista de boa parte da filmografia de seu irmão Christopher (“O Grande Truque”? “O Cavaleiro das Trevas”? “Interestelar”). Envolvido em múltiplas funções em séries como “Person of Interest” e “Westworld”, Nolan será responsável por transpor a obra de Asimov à emissora HBO. Material não falta: “Fundação” consiste em uma saga de sete livros, cabendo aos produtores uma “boa dor de cabeça” sobre o ponto de partida escolhido.

Entre os romances de “Fundação”, personagens vem e vão, dado que a narrativa geral segue um período bastante extenso, sem se ater a um núcleo especifico. Até a ordem de leitura dos livros é discutida, e tudo isso oferece inúmeras possibilidades para uma série de televisão. Grosso modo, o enredo cobre o destino da humanidade após o desenvolvimento da psicohistória, uma ciência capaz de prever o futuro da civilização. Pelo número de ‘fucks’ na breve fala de Nolan sobre “Fundação”, pode-se concluir que ele idolatra as obras de Asimov (ou está na pré-adolescência).

Como não poderia deixar de ser, Philip K. Dick foi novamente trazido ao audiovisual. Dessa vez, “O Homem do Castelo Alto” (1962), romance que imagina um universo onde o Eixo venceu a Segunda Guerra Mundial (e um escritor ­ prepare-se para a metalinguagem ­ imagina um universo onde o Eixo perdeu a Segunda Guerra Mundial), teve um episódio piloto de uma hora produzido pela Amazon, que almeja seu lugar ao Sol nos serviços de streaming (porta que “Transparent” parece ter aberto para a empresa). “The Man In The High Castle” foi ao ar no dia 15 de janeiro, e agora aguarda a confirmação de que será desenvolvida no formato seriado – o que parece provável, diante da excelente recepção do episódio piloto. Entre os produtores executivos, veja só, está Ridley Scott.

Nem só da literatura provém o texto­fonte dos próximos grandes investimentos de ficção científica. O filme “12 Monkeys” (1995), de Terry Gilliam (“Monty Python”, “Brazil”), foi transformado em minissérie por Terry Matalas e Travis Fickett. A produção ficou novamente por conta do SyFy, e estreou em 16 de janeiro. Como a película estrelada por Bruce Willis e Brad Pitt, a série de 10 episódios acompanha um viajante no tempo em busca de uma cura para uma praga que devastou a humanidade. O primeiro episódio foi bem recebido, talvez um pouco menos que “The Man In The High Castle”, mas, aparentemente, há futuro para a série.

Fora isso, “O Exterminador do Futuro: Gênesis” promete matar saudades de Arnold Schwarzenegger em um de seus papeis mais emblemáticos. Como “RoboCop”, trata­se de mais um reboot desnecessário para outra franquia que por si só já teve sequências desnecessárias. “Star Wars: O Despertar da Força” está confirmado para 17 de dezembro, enquanto “Prometheus 2”, continuação do melhor filme ruim do mundo, só será exibido em março de 2016. Para finalizar esse mol de informações, vale o registro de que o terceiro filme de “Star Trek”, com Justin Lin na direção (“True Detective”? “Community”? alguns “Velozes & Furiosos”), irá às salas de cinema em julho de 2016, celebrando os 50 anos da série original.

Aos interessados, a Aleph, editora brasileira que já publicou “2001: Uma Odisseia no Espaço”, a Trilogia “Sprawl” e a série “Duna”, lançou boa parte das obras mencionadas aqui em português, como “O Fim da Infância”, de Arthur C. Clarke; “Trilogia Fundação? Fundação: Declínio e Ascensão” (4 livros), de Isaac Asimov; “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, “O Homem do Castelo Alto” e “Realidades Adaptadas”, de Philip K. Dick. O que nos resta, agora, é esperar, ou, quem sabe, fazer uma banca de apostas: qual dessas adaptações deve render material de qualidade. E qual delas corre o risco de fracassar miseravelmente? Opiniões nos comentários.

Mateus Ribeirete escreveu sobre o livro “Ascensão e Queda do Britpop” para o Scream & Yell e integra a equipe do recomendadíssimo Defenestrando -> http://www.defenestrando.com

Leia também:
– “THX 138”: conheça o primeiro filme de George Lucas (aqui)
– “Stars Wars, O Ataque dos Clones”: mitologia e inteligência (aqui)
– Livro: “Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood (aqui)
– “3%”: ficção científica que fala português (aqui)
– Os 65 anos de “A Cidade Perdida”, de Jerônymo Monteiro (aqui)

2 thoughts on “Ficção científica movimentando 2015

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