“Please”, a dádiva de Sondre Lerche

por Gabriel Innocentini

Quem ouve apenas a música de trabalho de “Please”, o novo álbum de Sondre Lerche, pode se iludir. A guitarra funkeada e a batida dançante de “Bad Law” contagiam e empolgam. No entanto, não tarda a aparecer a insinuação de que nem tudo é dança: “I confess, it all sounds unlikely”. Improvável que este seja um disco de rompimento, improvável, mas verdadeiro (Lerche se separou da atriz Mona Fastvold após quase uma década de casamento). Na gringa não acreditaram muito na veracidade dos sentimentos: Sondre Lerche foi chamado até de hipócrita.

Queremos sangue, queremos apontar o dedo, queremos enredos rocambolescos do tipo “Garota Exemplar”, queremos canções que rebaixem o amante, que digam que foi tudo um desperdício de tempo, uma bobagem, queremos versos que mostrem como o outro é desprezível e como estamos melhores agora, sozinhos e de coração partido zerando as recomendações que a Netflix fez especialmente para nós baseada em nosso maravilhoso gosto cinematográfico.

Sondre Lerche não tem nada disso a nos oferecer. Em “Lucky Guy”, ele canta: “Baby, you broke me / I’m a lucky guy”. Não tem nem um “mas” ali entre os versos, nenhuma tentativa de afirmação à custa da antiga amada.

Por favor, sr. Sondre Lerche, você tá falando sério? Para com isso, cara!

Acreditar na compaixão exige uma abertura incomum num tempo em que o caminho mais fácil é detonar cínica e inconsequentemente na internet pessoas que nem te conhecem, nem nunca vão te conhecer, nem estão preocupadas com você, muito menos desconfiam da sua existência (“Hashtag, never forget, never regrets”). Gratidão é difícil de encontrar, mais difícil ainda é se sentir grato por uma relação que terminou mal. Em vez de ódio, raiva, mágoa, sarcasmo e cinismo, Sondre Lerche vem nos dizer que é um cara sortudo. Não é todo dia que uma canção pop apresenta um exemplar de maturidade desses.

Essas duas canções já bastariam para tornar “Please” um dos melhores discos da safra 2014, uma dádiva escondida entre zilhões de lançamentos que jamais temos tempo de ouvir (“galera, vazou o novo do…”). Porém há mais, há “Sentimentalist”, cujo minuto final é o buraco negro musical mais sinistro desde… bem, desde o arrepiante encerramento espectral de “Right Where Belongs”, do Nine Inch Nails. “Sentimentalist” traz também alguns dos versos mais lancinantes da temporada: “I’ll be damned if I fight / I’ll be damned if I don’t / In the end, would it count? / Don’t you know me, my love?”

O álbum do compositor norueguês de 32 anos tem ainda mais sete canções (exorcismo + Lucifer + grilos + duras verdades sobre o amor). “Please” pode ser “por favor” e dependendo do contexto também pode ser “prazer”. Para além do prazer quase mórbido de ouvir e perceber Sondre Lerche cavoucando o coração e catando os cacos na frente de todos, há outro prazer, mais sutil e mais exigente: o prazer de afirmar a vida de forma entusiástica no inesperado jazz final de “Logging off”. Após uma letra dolorosa sobre separação (com direito a metáfora de relação virtual: “Thought I saw a ghost / Looked for you in a mirror /But you were logging off”), um solo de saxofone entra rasgando feito uma boa notícia num dia ruim.

A Sondre Lerche, pela generosidade, nossa gratidão.

– Gabriel Innocentini (@eduardomarciano) é jornalista

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