Três cervejas: 1/2 Ale, Fix e Paceña

por Marcelo Costa

A lei sobre consumo de álcool é seríssima na Suécia a ponto de, em supermercados, Seven Elevens e vendinhas só serem encontradas versões de 3.5% de álcool – incluindo rótulos famosos como Heineken e Guinness, entre dezenas de outras. Produzida pelos nova-iorquinos especialmente para este mercado, a Brooklyn 1/2 Ale é uma Sweet Saison caprichada da turma de Garrett Oliver. De coloração amarelo palha e creme branco de boa formação e longa permanência (com direito a rendas belgas ao redor da taça), a Brooklyn 1/2 Ale exibe o aroma tradicional das Farmhouse Ale belgas, com toques cítricos (limão) e frutados (pêssegos) envolventes, condimentação, forte presença herbal, sugestão de trigo mais a acidez característica da levedura. A boca reitera a impressão pela opção do lúpulo japonês Sorachi Ace (usado na Saison de mesmo nome da casa nova-iorquina) sentida pelo nariz e bate forte na sugestão de ervas (sálvia) ao lado de cítrico apaixonante (casca de limão), frutado (novamente pêssego), leve doçura e acidez intensa. O amargor é moderado, mas poderá surpreender alguns. O final traz acidez e cítrico disputando a atenção do bebedor. No retrogosto, fazendas. Uma cerveja levíssima que surpreende.

Da Grécia, a Fix carrega o nome da cervejaria fundada em 1864 em Atenas, e que dominou o mercado grego durante 100 anos até começar um período de declínio com a chegada das concorrentes internacionais a partir de 1973, culminando em 1983, quando a empresa abriu falência. A marca Fix Hellas foi comprada em 1995 pela Olympic Brewery, que falhou em sua primeira tentativa de recolocar a Fix no mercado, mas atualmente conta com uma boa fatia do mercado grego apostando numa receita de Premium American Lager que não se diferencia muito de outras concorrentes no mercado mundial, embora pareça mais bem acabada: de coloração dourada tradicional e creme branco de boa formação e média baixa permanência, a Fix Hellas exibe um aroma característico do estilo, mas que valoriza a sugestão de malte e cereais, bastante perceptíveis no conjunto. Na boca, a entrada adocicada (caramelo) é rapidamente atropelada por um amargor assertivo, mais elevado que outras do estilo, limpando o palato e deixando o malte suave em destaque. O final é maltado e levemente amargo enquanto o retrogosto traz malte e refrescancia em uma bela representante do estilo.

De Cochabamba surge a Paceña, uma Standart American Lager de respeito produzida a 3.600 metros acima do nível do mar com agua da Cordilheira dos Andes pela Cerveceria Boliviana Nacional, que domina cerca de 80% do mercado cervejeiro da Bolívia e integra a Ambev. Já foi bastante premiada dentro de sua categoria em concursos em Paris (1979), Genebra (1986), Amsterdam (1992) e Bruxelas (2000 e 2009). De coloração dourada cristalina, tradicional do estilo, e creme branco de boa formação e média permanência, a Paceña segue a tradição com leve presença de malte e cereais e pouca percepção de lúpulo – além de leve oxidação. Na boca, a entrada traz a doçura do malte e, na sequencia, o amargor pontual do lúpulo. O conjunto segue a linha antecipada pelo aroma com leve aceno de malte e cereais, que não atrapalham o intuito primordial desta cerveja (e de qualquer Standard American Lager), que é refrescar o bebedor sem aguçar demasiadamente seus sentidos ao ponto de chamar a atenção. Ainda assim, faz o trabalho com bastante qualidade destacando no final um toque de cereais, que surge delicadamente no retrogosto.

Balanço
A receita produzida especialmente para o mercado escandinavo da Brooklyn 1/2 Ale soa ser uma versão moderada da especialíssima Brooklyn Sorachi Ace. O baixo teor alcoólico, necessário para que a cerveja seja encontrada nas gôndolas dos supermercados (e não apenas nos Systembolaget controlados pelo governo) não tira o brilho de uma receita encantadora, que cai como uma luva em dias quentes e no próprio conceito de Farmhouse Ales. Belíssima. Já a grega Fix Hellas foi uma bela surpresa para uma Premium American Lager, com malte bastante perceptível, amargor pontual e final caprichado. Na lista de 10 Pale Lagers do começo de 2014 ela ficaria atrás apenas de Heineken e Stella Artois, tomando o terceiro lugar da Estrella Galicia. Mantendo-se na lagers populares, a premiada Paceña domina o mercado boliviano apresentando um conjunto bastante próximo da Fix Hellas, e, as duas, melhores que as tradicionais do mercado nacional (ainda não escrevi sobre a Serra Malte, mas acredito que ela possa entrar na briga. Algo a ser avaliado em posts futuros).

Brooklyn 1/2 Ale
– Produto: Session Saison
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 3,4%
– Nota: 3,14/5
– Preço pago: R$ 6 em Oslo – 335 ml

Fix Hellas
– Produto: Standart American Lager
– Nacionalidade: Grécia
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,51/5
– Preço pago: 9,90 em São Paulo – 330 ml

Paceña
– Produto: Standart American Lager
– Nacionalidade: Bolívia
– Graduação alcoólica: 4,8%
– Nota: 2,50/5
– Preço pago: Presente de amigo

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– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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