6º In-Edit~Brasil: Um filme por dia

por Marcelo Costa

01/05/2014
“Twenty Feet from Stardom” (2013)
***

O documentário vencedor do Oscar 2013 lança luz sobre as vozes de um grupo de cantoras que em boa parte do tempo permaneceu no canto do palco: as backing vocals. O diretor Morgan Neville já havia sido indicado ao Grammy por outros três documentários musicais (“Muddy Waters: Can’t Be Satisfied”, “Respect Yourself: The Stax Records Story” e “Johnny Cash’s America”) e conduz muito bem a história de “Twenty Feet from Stardom” (frase cravada por Bruce Springsteen no longa), embora algumas vezes a edição confunda o espectador sobre quem é o foco da cena. Ainda assim, educativo para neófitos em cultura pop, “Twenty Feet from Stardom” apresenta vozes idolatradas de rostos pouco conhecidos (principalmente no Brasil) como Darlene Love, a musa que Phil Spector criou e quase destruiu segurando-a em contrato por 20 anos, Merry Clayton (responsável pelo backing de “Gimme Shelter”, o momento para se levantar e aplaudir de pé na sala de cinema, ainda mais depois de Mick Jagger contar que ela chegou – grávida – de roupa de dormir e bobs no estúdio para gravar o vocal icônico), Lisa Fischer (que chegou a ganhar um Grammy como cantora solo, mas sua carreira não deslanchou e ela teve que se “contentar” em ser a backing vocal dos Stones – de 1989 até hoje) e Judith Hill, que deveria ir ao estrelado ao participar do show que marcaria o retorno de Michael Jackson aos palcos – se ele não tivesse ido visitar Elvis Presley. Embora não abrace todo o universo das backing vocals, optando por deixar de lado as europeias (ignorar o vocal de Clare Torry em “The Great Gig in the Sky”, do Pink Floyd, faz o longa perder pontos), o filme cumpre seu papel de revelar rostos e emocionar, e ainda conta com declarações de Sting, Stevie Wonder e Sheryl Crow além de belas imagens de Ray Charles, Luther Vandross e outros.

02/05/2014
“Pulp: A Film About Life, Death and Supermarkets” (2013)
****½

“Sinto que as coisas não acabaram bem quando a banda terminou em 2002, e merecíamos um final feliz”, avalia a certa altura Jarvis Cocker, que conheceu o cineasta neozelandês Florian Habicht através de “Love Story”, filme de 2009, e convidou-o para não só contar a história do Pulp, que retornou aos palcos em 2011, mas relaciona-la com Sheffield, cidade inglesa que viu a banda nascer em 1978, passar os anos 80 sendo solemente ignorada até fazer sucesso em 1995 quando o álbum “Different Class” alcançou o 1° lugar da parada britânica, e o single “Common People” chegou ao número 2. Todas essas informações são jogadas aleatoriamente no documentário, que não se prende a contar em detalhes a carreira da banda, mas o faz de forma delicada. O foco é a relação apaixonada da banda por sua cidade natal e, por conseguinte, por seus fãs tendo como fundo o último show do grupo no Reino Unido, em 08 de dezembro de 2012, em Sheffield, num ginásio para 14 mil pessoas (o show exatamente anterior havia sido no Via Funchal, em São Paulo). A senhora da foto acima, num banco de praça, disserta que prefere Pulp a Blur, “porque eles fazem melhor uso da palavra”. Um rapaz (que conheceu sua namorada em um hospício) conta como foi ouvir Pulp após uma experiência traumática em Londres (“Sheffield não é como Londres: aqui as pessoas te levam para o bar quando você não tem dinheiro e colocam Pulp para você ouvir”). O baterista da banda, Nick Banks, decidiu patrocinar o time de futebol feminino em que a filha joga com o logo do Pulp na camiseta. “As amigas perguntaram: o que é isso? E ela respondeu: É a porcaria da banda do meu pai”. Há ainda um clone do Mestre dos Magos, uma jovem enfermeira de Atlanta, nos EUA, que fez um bate volta apenas para este show, Jarvis sendo uma pessoa comum, entrevistas curtas com todos os integrantes e um momento magnífico com um grupo de idosos cantando “Help The Aged” em um documentário absolutamente exemplar.

03/05/2014
“Muscle Shoals” (2013)
**½

Muscle Shoals é uma cidadezinha de pouco mais de 12 mil habitantes localizada na margem sul do rio Tennessee, no Alabama, que abriga dois importantes estúdios de gravação de música: FAME Studios e, derivado dele, o Muscle Shoals Sound Studio. Por estes dois pequenos galpões passaram Aretha Franklin, Wilson Pickett, Otis Redding, Bob Dylan, Paul Simon e Rolling Stones, entre muitos outros. O diretor Greg ‘Freddy’ Camalier se atrapalha com um roteiro que tenta abraçar o mundo e 1) contar a história pessoal e melodramática de Rick Hall, dono do FAME, com trechos absolutamente piegas que reconstroem suas tragédias pessoais, 2) falar sobre o misticismo com tendência hippie da região regido pela força da água do rio Tennessee, que seria responsável pela magia do lugar, 3) falar sobre a cidade, 4) apresentar a seção rítmica dos The Swampers, quinteto branquelo do FAME que gravou grandes hits da música negra norte-americana (como “Respect”, de Aretha – eles mereciam um documentário só deles), 5) e, por fim, o que deveria ser o principal, contar a história dos dois estúdios entremeada por aspas imperdíveis de gente como Mick Jagger e Keith Richards (relembrando a sessão no Muscle Shoals Sound Studio que rendeu “Wild Horses” e “Brown Sugar”), Bono, Alicia Keys, Gregg Allman, Jimmy Cliff e Steve Winwood além de belas imagens de arquivo de Stones, Aretha e Etta James gravando em Muscle Shoals. O resultado é um documentário repleto de altos e baixos, que faz bocejar nos momentos hippies e piegas tanto quanto se torna clássico quando músicos que passaram por lá pescam lembranças na memória.

03/05/2014
“The Punk Singer” (2013)
****

Quando se tem uma boa história só é preciso focar nela e deixar que as imagens (arquivo e entrevistas) a contem, resume o manual do documentarista feliz, e a diretora Sini Anderson segue a risca esse mandamento em “The Punk Singer”, filme que não só conta a história de Kathleen Hanna, mas investiga o motivo de seu sumiço do cenário pop desde 2005. Poderosa vocalista e letrista das bandas Bikini Kill (1990/1997) e Le Tigre (1998/2011) e uma das figuras centrais do movimento feminista riot grrrl, Kathleen é um dos exemplos mais recentes da força da música pop como transformadora da sociedade. Suas letras críticas, sua performance eletrizante e suas entrevistas provocativas abriram (junto a dezenas de outras batalhadoras do cenário underground, não só na música, mas em fanzines, cinema e artes em geral – uma clareira feminista na sociedade exatamente no momento em que revistas como a Time Magazine sentenciavam a morte do movimento. Sini Anderson é educativa em sua reconstrução do personagem indo das raízes de Kathleen, passando pela cena musical de Portland (uma pena a opção de não citarem a Kill Rock Stars e ouvirem o menos de homens possível para o filme, deixando de fora gente como Thurston Moore, Ian MacKaye e Calvin Johnson – a parceira Tobi Vail preferiu não participar), sua amizade com Kurt Cobain, sua passagem pelas bandas e sua intensa ligação com o movimento feminista. Joan Jett acrescenta pouco ao filme, mas Kim Gordon é uma das figuras centrais ao lado do marido de Hanna, Adam Horovitz (dos Beastie Boys), de Billy Karren (guitarrista do Bikini Kill), e Corin Tucker e Carrie Brownstein (do Sleater-Kinney) em um filme que começa celebratório e termina deixando um gosto intensamente amargo na alma. A mensagem, no entanto, sobrevive.

04/05/2014
“Mistaken for Strangers” (2013)
****

É extremamente elogiável que uma banda que sempre posou de séria como o National tenha tamanho senso de humor para protagonizar um documentário montypythiano como “Mistaken for Strangers”, comandado por Tom Berninger, irmão do vocalista Matt, e sósia em maluquices de Alan, o personagem de Zach Galifianakis na trilogia “Hangover”. O ponto de partida é simples: The National está em turnê divulgando o álbum “High Violet” e o vocalista Matt Berninger convida o irmão metaleiro, que mora em Cincinatti com os pais, para trabalhar como roadie na tour. A função de Tom é cuidar da comida no camarim em cada show além de pequenas tarefas como assegurar que a lista de convidados esteja na porta, mas ele tem uma ideia na cabeça: fazer um documentário sobre o National na estrada, e o que poderia se transformar em um retrato de um grupo de rock n’ roll no auge acaba virando uma deliciosa bobagem amparada nas gafes de Tom e amplificada pela diferenças entre os irmãos. Ou seja, se você quer ver um documentário sério sobre o National é melhor focar em “A Skin, A Night”, de Vincent Moon, que registra as gravações de “Boxer”, de 2008, porque “Mistaken for Strangers” é impagavelmente cômico (e indicado até para quem não conhece a banda), com Matt abrindo o “documentário” dando um esporro no irmão, que quer entrevista-lo, mas não sabe fazer nenhuma pergunta (ele passará todo o filme não sabendo fazer perguntas para todos os integrantes da banda). Hilário e até comovente, “Mistaken for Strangers” só escorrega no trecho final, longo demais, mas após tantas risadas você não irá se importar com isso. Palmas para Tom Berninger e, principalmente, para a banda. Não se levar à sério também deveria render discos de ouro…

Ps. Segundo o documentarista Michael Moore, “Mistaken For Strangers” é “um dos melhores documentários sobre uma banda que eu já vi”…

05/05/2014
“Harry Dean Stanton: Partly Fiction” (2012)
***

Ele já atuou em mais de 250 filmes (segundo o próprio) desde que colocou seu rosto nas telas em “Tomahawk Trail” (1957), incluindo passagens icônicas por “Pat Garrett & Billy the Kid” (de 1973, quando “estragou” uma tomada de pôr-do-sol por atravessar a filmagem correndo atrás de Bob Dylan), “O Poderoso Chefão II” (de 1974, que o aproximou de Marlon Brando, que ficaria ainda mais próximo em seus últimos anos de vida: “Conversávamos horas sobre tudo: poesia, religião…”), “Alien” (1979), “Paris, Texas” (1984, Win Wenders explica que Harry queria um fim mais esperançoso para seu personagem), “Repo Man” (1984), “Twin Peacks” (1992) e “Medo e Delírio em Los Angeles” (1998), entre muitos outros. Em certo momento, alguém pergunta: “Você está filmando algo agora?”. E ele: “Sim, o novo filme de Sean Penn. Interpreto o cara que inventou a mala de rodinhas… (“Aqui é Meu Lugar”, dirigido por Paolo Sorrentino)”. Extremamente lacônico, Harry Dean Stanton tenta sempre encerrar o assunto na primeira oportunidade, mesmo quando quem pergunta é David Lynch. Solitário aos 87 anos, o ator carrega uma melancolia no olhar e na voz, que interpreta diversas canções durante o longa de Sophie Huber, e tende mais a Tom Waits do que a Roy Orbison (embora, mesmo assim, ele cante “Blue Bayou”). Devoto do ditado que diz que “o que está feito, está feito”, Harry Dean relembra sua fase “womanizer”, quando só se interessava por bebidas e mulheres, conta que morou com Jack Nicholson durante dois anos (imagina a farra) e se arrepende de não ter tentando ser cantor num documentário que capta a essência de um dos atores que mais trabalhou em Hollywood, e soa como o crepúsculo de um Deus que sempre optou pelo silêncio.

06/05/2014
“Good Ol’ Freda” (2013)
**½

“Os Beatles duraram 10 anos. Freda esteve com eles durante 11 anos. Ela estava lá no começo e ficou até depois que tudo acabou”, conta Billy Kinsley, do Merseybeats, em certo momento do documentário que repassa a vida de Freda Kelly, a secretária pessoal da banda, que, convidada por um amigo, se viu no Cavern Club no começo dos anos 60 e, como ela mesma diz, foi “fisgada”. Fã da banda, mas não fanática, Freda foi convidada por Brian Epstein para ser a secretária dos Beatles, e sua função primordial era organizar o correio dos fãs (colhendo autógrafos, pedaços de camiseta e, em certo momento, mechas de cabelo para atender aos pedidos cada vez mais inusitados que chegavam por carta), além de levar pagamentos para os músicos, entre outras pequenas coisas. Não espere grandes novidades, fofocas, entrevistados famosos ou fatos inusitados neste documentário de Ryan White, pois apesar de ficar calada durante 50 anos, Freda mantém um compromisso raro de lealdade apaixonada para com os integrantes da banda, e para com o grupo do qual foi presidente do fã clube se correspondendo com cerca de 70 mil fãs mundo afora. A secretária decidiu fazer o filme para que seu neto, então com 3 anos, soubesse que ela teve uma adolescência bastante movimentada, e esse delicado registro familiar permite acompanhar o olhar de uma pessoa bastante próxima da banda que observou, dia a dia, Paul, John, Pete (depois Ringo) e George perderem a inocência e se transformarem em deuses do Olimpo pop enquanto boa parte das pessoas ao seu redor, Freda inclusa, continuaram sendo reles mortais. Para se pensar.

07/05/2014
“Jimi Hendrix: Hear My Train a Comin’” (2013)
***

Muito já se falou sobre Jimi Hendrix, mas raríssimas vezes com a benção da família, o que na grande maioria das vezes é tanto uma vantagem quanto uma desvantagem para o público: se por um lado há um olhar próximo do documentado, o que inclui imagens (muitas vezes raras) e declarações de familiares, por outro, a tendência a ser chapa branca eliminando assuntos polêmicos prejudica o resultado final. “Jimi Hendrix: Hear My Train a Comin’” é um exemplo perfeito dessa equação. “Não quisemos falar das drogas porque outros documentários sobre Jimi já falaram e queríamos focar na música”, desculpou-se o diretor Bob Smeaton na sessão do In-Edit São Paulo, mas se esse é o “documentário definitivo” sobre o músico (como a família tenta vender), ficaram faltando muitas peças para entender o quebra-cabeças Jimi Hendrix (a morte por overdose nem é citada). Ainda assim, “Jimi Hendrix: Hear My Train a Comin’” é rico em imagens ao vivo de Jimi Hendrix que, mais de 40 anos depois, ainda impressionam e o colocam uns cinco níveis acima de todos os guitarristas que já existiram (a apresentação em Monterey, em que ele simula sexo com a guitarra apoiado nas caixas de som, e depois incendeia a pobrezinha, é absurdamente sensacional) e traz Paul McCartney num dia de reles mortal, como nós, babando em Jimi Hendrix como um fã. Não é o documentário definitivo, mas preenche uma lacuna histórica importante (principalmente no que tange a família) deste que é um dos maiores guitarristas (senão o maior) que já pisou nessa pobre terra abandonada.

 

08/05/2014
“Geração Baré Cola” (2014)
**½

Após Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude serem conhecidos nacionalmente na metade dos anos 80, Brasília viu multiplicar o número de grupos de rock por metro quadrado na cidade. “Geração Baré Cola”, documentário recém-lançado de Patrick Grosner, não faz essa ligação – até porque entre a geração dos anos 90 retratada no filme e o triunvirato que colocou o DF no cenário nacional houve um segundo levante com Finis Africae, Detrito Federal e Arte No Escuro assinando com majors, mas sem repetir o sucesso inicial das bandas da cidade – se concentrando primeiramente no underground brasiliense e focando na cena hardcore, thrash e metal para, no meio, citar nomes como Little Quail and Mad Birds, Mascavo Roots, Pravda e, a mais famosa delas, Raimundos. O trabalho de resgate de fitas de bandas da época merece aplausos por registrar para a posteridade uma cena vasta e variada, embora isso pareça mais valoroso para quem viveu a cena ou vive em Brasília. Desta forma, o que destaca o documentário para “estrangeiros” são as declarações de um grande número de personagens, como Gabriel Thomaz, o quarteto original do Raimundos (incluindo o convertido Rodolfo, relembrando os primeiros anos da banda), o pessoal da Maskavo e do Pravda, bandas que chegaram a ter lançamentos nacionais e quase entraram no redemoinho formado pelo sucesso dos Raimundos (Maskavo e Pravda também era do Banguela, selo de Carlos Eduardo Miranda com os Titãs). Repleto de bons momentos, “Geração Baré Cola” peca por duas coisas: não ouvir ninguém da Legião, Capital e Plebe (até para contraponto) e não fechar o ciclo das principais bandas citadas, algo que uma foto e um texto resolveriam (Quantas pessoas sabem que o grande D.F.C. completou 30 anos em 2013 e continua firme, na ativa?). Ainda assim, é um retrato interessante de uma juventude movida a fitas k7, guitarras toscas e muita diversão.

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