Boteco: de Curitiba, as sour ales da Way

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por Marcelo Costa

O Brasil está avançando rapidamente no território cervejeiro, tanto que os curitibanos da Way colocam no mercado uma linha de sour ale frutada, que tem tudo para causar discussões acaloradas em mesas de bar devido ao ame ou odeio. Para entender é preciso mergulhar no universo das sour ales, que, como próprio nome adianta, são cervejas azedas. E bota azedume nisso. Tem bebedor de primeira viagem que costuma devolver a garrafa dizendo que a cerveja está estragada quando, na verdade, esse é seu diferencial. Azedume, acidez pronunciada e paladar salgado são algumas das características das sour ales, que chegam ao Brasil via Way “amaciadas” por frutas. O pessoal de Curitiba testou 15 frutas e optou por morango, graviola e acerola, e as três garrafas já podem ser encontradas em bons empórios com preços de R$ 15 cada, em média (garrafas de 310 ml). Vale a pena experimentar – e amar ou odiar.

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A Sour Me Not Morango é uma cerveja de coloração vermelho pálido, quase laranja, que exibe um creme de baixa formação e permanência (ainda que rala, a espuma continua presente na taça). No aroma, a intensa acidez se sobrepõe as notas frutadas (leve morango e mamão), que surgem alteradas pelo contato com os micro-organismos inseridos remetendo a iogurte de morango e a cheesecake, com a acidez se aproximando do queijo enquanto o morango cumpre o seu papel. No paladar, a acidez justifica o nome da cerveja com azedume e salgado intensos amenizados muito levemente pela inserção do morango, cuja presença parece destinada a distrair o bebedor, e não induzir a memória ao gosto da fruta (se for para remeter a uma fruta, a boca sente muito mais limão que morango). O final é azedo, salgado e, no finalzinho, frutado puxado para cheesecake. O retrogosto, por sua vez, lembra levemente kriek valorizando o morango que, após lutar tanto com o azedume, vence após o final. Interessante.

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A Sour Me Not Graviola é uma cerveja de coloração amarelo palha, com creme de baixa formação e permanência. No nariz, a fruta inserida é de fácil percepção chegando a esconder levemente as notas azedas que, não se engane, estão presentes. Há sugestão frutada de mamão (como na versão de morango) e um suave adocicado da fruta, que ameniza o aroma. Na boca, o primeiro toque repete a sensação de azedume, salgado e acidez da versão com morango, mas a graviola parece se sair melhor na combinação, principalmente para aqueles que preferem “uma sour azeda, mas nem tanto”, porque deixa vestígios na boca a cada gole, o que, devido ao acúmulo, torna o conjunto levemente frutado e adocicado conforme a taça esvazia. O final é azedo, ácido e salgado (com leve percepção da fruta) enquanto o retrogosto, longo, é pura Graviola. Se for começar por uma delas, vá com essa.

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Fechando o trio, a Sour Me Not Acerola parece ser a que consegue melhor combina a inserção da fruta com as características personalíssimas de uma sour ale. Na taça, a Sour Me Not Acerola é uma cerveja de coloração amarela com turbidez acentuada e creme branco de boa formação e baixa permanência. No nariz, a acidez e o azedume dão o primeiro bote, mas não consegue (felizmente) esconder a fruta, que surge de forma bastante distinguível em notas cítricas e levemente adocicadas. No paladar, o azedume pega pesado no primeiro toque riscando a garganta e deixando pelo caminho, inicialmente, acidez elevada (que sobe ao nariz) e, na sequencia, as notas cítricas e adocicadas da fruta, que conseguem amenizar o impacto das leveduras. O final é ácido, cítrico, frutado e azedo, azedume este que se prolonga até o retrogosto, com um leve adocicado da fruta fazendo um belo contraponto.

Balanço
A Way merece palmas pela coragem em investir num estilo tão diferenciado, que provoca o bebedor desde o primeiro gole. A versão com morango da linha Sour Me Not traz tudo aquilo que o estilo (e as lambics belgas) exibe com honra: azedume e salgados intensos levemente distraídos pela inserção da fruta, que não está presente para comandar a experiência sensorial, e sim para amaciar – ainda que delicadamente – uma cerveja radicalíssima para o público. O resultado, ainda que não tão provocador e profundo quanto uma lambic, é elogiável e deve funcionar muito bem com saladas e algumas sobremesas. A versão Graviola é a mais comportada das três. O adocicado da fruta se sobressai em alguns momentos, e amacia o conjunto conforme a garrafa esvazia, ou seja, a cerveja começa azeda e, mais para o final, estará mais adocicada. É a minha indicação para aqueles que querem se aventurar por estas três belezinhas, já que a Sour Me Not Acerola se aproxima da versão com morango por não tem um final tão intenso e adocicado (principalmente no retrogosto) quanto ao da versão com Graviola, mas soa mais complexa e completa que as duas primas. Soa a mais bem balanceada das três, e, por isso, a melhor.

Way Sour Me Not Morango
– Produto: Sour Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 3,5%
– Nota: 2,75/5

Way Sour Me Not Graviola
– Produto: Sour Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 3,5%
– Nota: 2,81/5

Way Sour Me Not Acerola
– Produto: Sour Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 3,5%
– Nota: 2,83/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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