Boteco: do Chile, três cervejas da Kunstmann

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por Marcelo Costa

De volta ao território chileno da Kunstmann, cervejaria de Valdivia, na Região dos Lagos, que acaba de aportar no Brasil com importação da Obra Prima, a Kunstmann Heidelbeere Cerveza Arandano é uma fruit beer que recebe arándano, um tipo de blueberry bastante comum na Rússia, Canadá e em alguns estados norte-americanos, além de crescer também no sul da Argentina e do Chile. O primeiro destaque da Heidelbeere Arandano é sua cor, um âmbar translucido que remete a guaraná madeira e também traz tons avermelhados. O creme é levemente bege, de ótima formação e média permanência. No aroma, notas frutadas e adocicadas remetem a mirtilo, framboesa e levemente a morango chiclete. Há percepção da levedura também, mas o conjunto é essencialmente dominado pelas frutas vermelhas. No paladar, reforço da sensação do aroma: o primeiro ataque é bastante adocicado frutado (remetendo a guaraná novamente), mas lúpulo e levedura respondem com leve acidez e amargor, ampliados pela carbonatação, tornando o conjunto refrescante e, ao mesmo tempo, saboroso. O final, porém, é essencialmente frutado, com o arándano grudando no céu da boca e deixando um traço de frutas vermelhas garganta abaixo, com leve acidez. No retrogosto, mais framboesa. Uma bela fruit beer.

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A Kunstmann Weissbier é a releitura da tradicional escola de cervejas de trigo alemãs pelo pessoal de Valdivia. Não espere fidelidade, mas sim reinvenção. De coloração âmbar e tonalidade turva, pela não filtragem, a Kunstmann Weissbier exibe um creme bege de boa formação e média permanência. No aroma, a boa carga de maltes se desprende em notas adocicadas que remetem tanto a caramelo quanto mel de laranjeira. Há percepção das notas clássicas do estilo (pão, banana e leve cravo), mas o conjunto surpreende no aroma pelas notas adocicadas e robustas influenciadas pela força da levedura num conjunto que, de certa forma, premedita um líquido licoroso, promessa cumprida no paladar, de corpo médio e textura viscosa. No primeiro araque, a acidez da levedura envolve a doçura do malte de trigo deixando a sugestão de banana, ainda que presente e indissociável, na retaguarda. Em primeiro plano, presença rara de lúpulo no estilo, que junto a levedura proporcionam amargor e acidez moderados (com um q de cítrico e picante), mas que já bastam para se sobrepujar ao malte de caramelo. O adocicado retorna no trecho final, ainda que acompanhado por resíduos da levedura, e os últimos segundos são quase pastosos, mastigáveis. No retrogosto, acidez e sugestão de frutas (acerola, banana e mamão). Uma cerveja meio maluca, mas interessante.

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Fechando o trio, a Kunstmann Sin Alcohol é, como o nome adianta, sem álcool. Porém, os chilenos se apressam a informar no site oficial: “Elaborada com os quatro ingredientes prescritos na Lei da Pureza Alemã: malte de cevada, lúpulo, levedura e água”. De coloração dourada e cristalina, a Kunstmann Sin Alcohol apresenta um creme branquíssimo, de longa permanência. No aroma, as notas derivadas do malte de cevada são tão intensas que faz parecer que o bebedor está enrolado em um monte de feno. Há ainda sugestão de pão e biscoito e uma leve percepção de notas herbais. No paladar, a cevada novamente dá as cartas distribuindo um dulçor excessivo, pois a lupulagem parece não conseguir equilibrar o conjunto e a sensação é de que o bebedor está diante de um chá de ervas gelado. É possível sentir uma leve acidez acompanhada de uma picância que remete a especiarias, e segue até o final da taça, marcando do céu da boca ao final da garganta. O retrogosto é… feno. Estranha.

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Balanço
Deve ser comemorada a chegada de nove cervejas da Kunstmann ao Brasil, e que essa primeira investida chilena abra as portas para outras cervejarias (Quimera, Kross e Szot na fila) do país. Do cardápio da Kunstmann gosto muito da Kunstmann Honig Ale Miel (com mel), da Kunstmann Gran Torobayo e também da Kunstmann Lager Unfiltriert, minhas três preferidas até então. Porém, a Kunstmann Heidelbeere Cerveza Arandano surgiu como uma boa surpresa por ser uma fruit beer bastante equilibrada, pois, ainda que as notas de frutas vermelhas sejam intensas, não são enjoativas, talvez numa segunda garrafa em sequencia, mas para abrir um serviço combinando com uma salada ou encerrando na companhia de uma sobremesa, soa perfeita. Aprovada (e até vou deixar algumas em casa para testar com pratos, vale). A Kunstmann Weissbier pode ser apontada como uma fiel representante da escola cervejeira artesanal chilena, que aposta em leveduras ácidas de forte impacto, que não deixam o bebedor em paz: ou você gosta, ou você não gosta. Remete, um pouco, ao catálogo da Szot, e, na minha opinião, é muito destaque para a levedura, embora a recriação de estilo seja louvável. Fechando o trio, a Kunstmann Sin Alcohol não me agradou muito, e não é pela ausência de álcool, mas sim pelo desiquilíbrio da receita, que valoriza em excesso o malte de cevada, e deixa a função de contraponto para a levedura. O resultado é um chazinho de cevada gelado. Não me convenceu.

Kunstmann Heidelbeere Cerveza Arandano
– Produto: Fruit Beer
– Nacionalidade: Chile
– Graduação alcoólica: 4,8%
– Nota: 2,94/5

Kunstmann Weissbier
– Produto: Weissbier
– Nacionalidade: Chile
– Graduação alcoólica: 4,5%
– Nota: 2,83/5

Kunstmann Sin Alcohol
– Produto: Sem Álcool
– Nacionalidade: Chile
– Graduação alcoólica: 0%
– Nota: 1,92/5

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Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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