Boteco: Três autênticas witbiers belgas

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por Marcelo Costa

A Huyghe Brewery foi fundada em 1906 na cidade de Melle, próxima a Gent. A estrela da casa é a linha da Delirium Tremens, mas eles também produzem outras cervejas, como a linha Floris, a St. Idesbald e a Blanche de Neiges (Branca de Neve), esta última uma witbier tradicional belga, cerveja levíssima fabricada com malte de cevada e trigo cru, e temperada (dos tempos em que as potencialidades do lúpulo ainda não haviam sido descobertas) com semente de coentro e casca de laranja. A estrela do estilo é a Hoegaarden, mas há várias outras no mercado, como a Blanche de Neiges, uma cerveja de coloração amarelo palha e creme branco de média formação e permanência, que destaca no aroma o azedinho cítrico tradicional do estilo, remetendo a casca de limão e laranja. Há ainda leves notas florais advindas do trigo mais um picante que sugere semente de coentro, provavelmente proveniente da levedura. O paladar é levíssimo, e acompanha o aroma: o azedinho domina ao lado de um leve amargor, mas a sugestão herbal (ervas), floral e cítrica (casca de laranja e limão) batem ponto em uma cerveja altamente refrescante. O final é levemente amargo e azedo enquanto o retrogosto traz trigo, banana e limão.

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Já a Grisette Blanche é responsabilidade do pessoal da St. Feuillien Brewery, de Le Roeulx, no território valão belga, cervejaria que adiciona vitamina C em suas receitas (inclusive nas St. Feuillien). De coloração amarelo palha (mais próximo da Hoegaarden do que da Blanche de Neiges) e creme branco de média formação e permanência, a Grisette Blanche traz um aroma mais intenso de frutas cítricas (casca de laranja e limão), dispersando o azedinho característico e apaixonante do estilo. Aqui também é perceptível notas florais, trigo e condimentação. A história muda no paladar, de corpo leve e textura frisante. O primeiro toque traz junto com o azedinho cítrico tradicional (laranja e limão) e sugestão interessante de amargor, um salgado surpreendente, provavelmente derivado da efervescência da vitamina C. Há ainda notas frutadas derivadas do trigo (banana). O final traz trigo e doçura, reforçados no retrogosto.

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Fechando o trio, de Watou surge a St. Bernardus, cervejaria dos monges que produziram durante 46 anos a melhor cerveja do mundo, Westvleteren, e que não brincaram quando decidiram produzir uma witbier, e foram na fonte, pois a St. Bernardus Wit é uma parceria dos monges da St. Bernardus com nada menos que o mestre cervejeiro Pierre Celis, leiteiro que em 1966 comprou uma cervejaria falida na cidade de… Hoegaarden (aplausos), e começou a produzir aquela que é a witbier mais famosa do mundo. A parceria de Pierre Celis com os monges de Watou rendeu a St. Bernardus Wit, cerveja de coloração amarelo palha, mais turva que as concorrentes, mas com creme semelhante em formação e permanência. No aroma, o cítrico não se destaca tanto quanto nas concorrentes, mas as notas clássicas (cítrico com remissão a casca de laranja e limão, condimentado sugerindo semente de cravo e azedinho) estão todas presentes, ainda que tímidas. No paladar, uma interessante provocação: amargor cítrico (mais acentuado que em outras wits) e azedume surgem juntos, refrescando, e na sequencia vem o dulçor do trigo (remetendo a banana) e um toque salgado. O final é levíssimo, com sugestão de limão e cravo enquanto o retrogosto traz o azedinho clássico e limão. Diferente e interessante.

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Balanço:
Tendo a Hoegaarden como benchmarking do estilo, a Blanche de Neiges, em comparação, não tem uma pegada cítrica tão forte (embora esteja nitidamente presente), mas se diferencia pelo amargor mais pronunciado, ainda que bastante leve. Para o meu paladar, fã de Hoegaarden, o corpo pareceu mais leve e o conjunto menos reluzente. Mas vale experimentar. Já a Grisette Blanche traz uma textura frisante, derivada da adição de vitamina C na receita (expediente tradicional nas cervejas da St. Feuillien Brewery), que me agrada muito mais, porque realça as notas cítricas, tornando a cerveja mais robusta – ainda que leve e refrescante. Fechando o trio, a St. Bernardus Wit é uma deliciosa provocação com dedo do criador da Hoegaarden, o que torna tudo mais interessante. O conjunto preza pelo equilíbrio, que coloca amargor e azedume se destacando apenas no momento certo, o do primeiro toque. O resto é… prazer. Uma grande surpresa.

Blanche de Neiges
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 4,9%
– Nota: 3,05/5

Grisette Blanche
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 5,5%
– Nota: 3,65/5

St. Bernardus Wit
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 5,5%
– Nota: 3,88/5

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– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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