Entrevista: Camila Garófalo

Entrevista por Izabela Costa
Introdução por Juliana Torres

De tempos em tempos, o conceito daquela frase de Marvin Gaye, “you’re alone, all the time. Does it ever puzzle you? Have you asked why?”, assombra as nossas cabeças. É um sentimento que surge quando somos tocados pelo blues, quando nos emocionamos, quando compartilhamos felicidades seguindo os passos de Alexander Supertramp, ou até mesmo quando acordamos de ressaca em um domingo de manhã.

Durante o próximo verão, esses questionamentos poderão surgir cada vez que ouvirmos “Sombras e Sobras”, disco de estreia de Camila Garófalo. Ribeiro-pretana de 24 anos, publicitária de formação e jornalista de coração, a cantora que já interpretou outras vozes em bandas covers, dando cara para pensamentos de outros poetas, dessa vez coloca pra fora uma reflexão particular e filosófica, vestida de post-rock, jazz, blues e groove.

Ainda naquela mesma composição, Gaye diz que de tempos em tempos devemos abrir nossos corações, sangrar esses sentimentos e parar de fingir que nada nos aflige. E são aflições, inquietudes e quebra de conceitos que munem as letras de Camila. Porque são as únicas pessoas que importam, as loucas, as vivas e as que queimam e se deixam queimar. As que sentem, as que não são mecânicas. As que assumem cada sombra e cada sobra de cada eu que possui dentro de si. E é assim que nos tornamos diferentes.

Para conhecer a alma inquieta, inconformada com suas sobras e sombras, conversamos com Camila via e-mail. Duas semanas atrás, de pé quebrado e em pleno repouso médico, ela nos contou sobre o processo criativo, a concepção do álbum e os planos para o futuro.

Camila, você está começando a soltar suas músicas agora e acredito que cada vez mais teremos novidades suas. Por que só agora?
O momento agora é de criar bastante material antes do lançamento do disco, em abril de 2014. Seja através de shows, fotos, clipes e todo o tipo de conteúdo que puder agregar ao projeto “Sombras e Sobras”. Em relação às músicas, a história é mais antiga…

Mais antiga como?
Antes de me mudar para São Paulo, aos 17 anos, eu já havia tentado gravar algumas coisas e o desejo pelo álbum já existia. Além de não me sentir segura o suficiente, em Ribeirão Preto eu não conhecia quem pudesse gravar meu material como imaginava. Aí, cheguei em São Paulo e rasguei tudo. Comecei do zero. Precisei educar meu ouvido primeiro. Joguei “Jazz” no Wikipédia, haha, e a partir daí comecei a ouvir tudo aquilo que não estava acostumada a ouvir. Com a minha família só escutava moda de viola. Lá, em 2008, iniciei leituras de Filosofia, a resposta para engrandecer minhas letras estava ali. No ano seguinte, com mais dois amigos, gravei três canções (destas, apenas “O Velho” está no disco) e fui embora para Londres, onde permaneci por todo o ano de 2010. Continuei com a caneta na mão e a solidão desses dias me fez crescer como compositora. “Valsa Vermelha” e “Sombras” nasceram aí. Quando voltei para São Paulo, comecei a trabalhar no site Catraca Livre e fui formando minha rede de contatos, ficando mais perto da agenda cultural da cidade.

Acredito que nesse momento sua criação já estava evoluindo, não?
A essa altura, minhas músicas já estavam mais maduras e eu tinha começado a entender a linguagem que estava criando. Conheci o Danilo (Prates) durante um curso de Live Cinema no Sesc Pompeia. Ele foi muito importante na fase de pré produção do disco e me ajudou a exteriorizar algumas texturas que estavam na minha cabeça. Depois de uma conversa com o Duda Vieira (produtor de artistas como CéU, Otto e Lucas Santtana), pude enxergar que eu poderia ter os músicos que eu quisesse no meu álbum, bastava eu estar na hora e no local certo. Fui atrás do Bruno Buarque e do Dustan Gallas (ambos da banda da CéU) durante um show em Ribeirão Preto. Fomos todos para a casa de uma amiga após o show e lá eu pude contar a ideia do meu projeto. Deu certo! Aí foi fácil convencer o Thiago França que o negócio era sério e ele também topou. Em quatro dias gravamos “Sombras e Sobras” no Estúdio Minduca, onde foram gravados os discos da Karina Buhr e Anelis Assumpção, por exemplo.

O que você tem de material pronto até agora?
Pretendo lançar o disco em abril de 2014. Ele está pronto – não fisicamente, ainda – e tem oito músicas. Mas até lá muita coisa tem para acontecer. Eu preciso primeiro me aproximar do meu público, que ainda nem existe, criar uma identidade através de outros materiais que ainda tem de ser feitos. Como disse acima, a linguagem do cinema sempre me apaixonou. Quero ainda aproveitar outras linguagens antes de entregar o disco , acredito que seja um momento de flerte com a plateia. Eu preciso subir no palco, criar histórias e também me sentir segura como cantora, afinal eu sempre toquei violão mas nunca fui de tocar covers em barzinhos. A música autoral sempre falou mais alto no meu ouvido.

Como foi o processo de gravação dessas faixas? Acredita ter aprendido muito durante esse tempo em estúdio?
O Danilo Prates teve importância fundamental no processo de pré-produção, e depois o Dustan, o Bruno e o Thiago para dar vida e arranjo àquela matéria prima toda. Não tive muito tempo de estúdio com eles. Em apenas quatro dias os caras fizeram os arranjos das 8 músicas e gravaram tudo ali mesmo, no calor do momento. Não sei dizer que experiência maluca foi essa. Minha boca não fechava um segundo, hahaha. Eu que demorei tanto tempo pra cozinhar tudo aquilo, vi tudo ser desenvolvido por caras realmente talentosos e doidos de pedra! Foi incrível.

Uma vez você disse que o disco estava lindo, mas que ao vivo as músicas seriam complicadas de executar. Por outro lado, sei que sua banda de apoio já está formada e que, inclusive, alguns ensaios já rolaram. Quem é esse pessoal, onde você os encontrou e afinal, continua achando que as músicas serão complicadas de reproduzir ao vivo?
É verdade, as músicas realmente são difíceis de executar. Confesso que não componho para saciar minha voz, e sim para saciar minha alma. Eu canto bem mesmo o rock ‘n’ roll, Janis, Kurt, Cazuza. Adoro berrar. Só que quando a gente escreve, a gente não pensa nisso, pensa apenas em escrever o que sente. Aí, a morbidez e o português dificultaram um pouco a minha interpretação. Sobre a banda, eu já havia trabalhado com o Caio Costa (teclados), que faz parte do grupo Primos Distantes. A partir dele, também juntei a bateria do Juliano Costa, que é da mesma banda. O Fabiano Boldo, baixista do Rafael Castro, eu tinha no Facebook não sei por quê diabos e quando mostrei o som, ele topou na hora. Aí, depois de ter juntado os três, o próprio Rafael não resistiu. Tive sorte de encontrá-los.

Sobre as composições: de onde vem a inspiração? Você senta para escrever e vem ou cada música, um processo diferente? O que vem antes: letra ou melodia?
Depende muito. “O Velho” nasceu de uma experiência muito particular e esquisita após fumar Salvia, que na época era legalizada. Fiquei tão impressionada que sentei e fiz a música em duas horas. Já “Sombras”, que eu também escrevi em Londres, demorei todo o ano de 2010 para finalizar. Já tentei fazer em outra ordem mas a letra sempre veio junto com a melodia. Eu procuro uma nota no violão, gosto dela e penso numa palavra que combina com aquela sonoridade, só depois que formulo uma frase. É estranho, pois eu deveria ser mais escrava do conteúdo já que uso a filosofia, no entanto é a forma que me conduz.

Essas músicas gravadas foram escritas especialmente pra esse momento ou existem composições antigas aí no meio também?
Apenas duas são mais antigas. Joguei muita coisa fora. Me revoltei com várias palavras que já escrevi e, portanto, a maioria das composições são mais recentes. “Sobras” – a primeira música que lancei – e “Downstairs” são as mais recentes de todas elas. Todas tem um mesmo assunto em comum: o egoísmo, o inconformismo e – claro – as “sombras e sobras”.

O Brasil sempre forneceu grandes cantoras. Em quais você mais se inspira?
Eu não sei se posso chamar a CéU, a Tulipa [Ruiz] ou a Karina Buhr de inspiração. Eu as admiro em sua originalidade mas não acho que eu seja parecida com elas. Eu adoro a Janis Joplin com todo o coração (e estômago) e, no entanto, minha voz não tem nada a ver com a dela, nem com a da Björk. Agora se você me perguntar com quem eu acho que pareço, posso citar a PJ Harvey a Cássia Eller, ou até mesmo a Ana Carolina, pelo timbre, que seja. Mas isso nunca foi proposital.

E alguma vez te passou pela cabeça evitar essa paixão pela música?
Nunca. Por mais que não tenha sido “corajosa” o suficiente pra ter começado com ela, no fundo eu sabia que chegaria até ela de alguma maneira. Primeiro me aproximando da linguagem do cinema, fiz três cursos na área. Depois me aproximei do universo cultural por meio do jornalismo, ao ponto de escrever sobre música no Catraca Livre, trabalho que faço até hoje. O contato com os músicos e artistas nesse momento foi muito importante, colhi informações e me aproximei deles não como uma cantora desesperada para fazer seu disco, mas sim como uma jornalista interessada no universo musical paulistano como um todo.

Dia 10 de dezembro você se apresenta no Puxadinho da Vila Madalena. Qual é a desse show? Quem for pode esperar exatamente o que?
Olha, sinceramente, não esperem nada de mim… Eu nunca fiz isso, pelo menos não com a banda perfeita para tocar os arranjos ideais. Sempre foi somente eu, meu violão e minhas ideias enrustidas. Subir no palco para fazer o meu rock do jeito que eu sempre sonhei é algo realmente inédito até para mim. Esperem, no mínimo, um ataque cardíaco…

– Izabela Costa (@izarcosta) é editora do programa Perdidos no Ar. Entrevista publicada originalmente no site do programa: http://www.perdidosnoar.com.br/.

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