Entrevista: Bernardo Vilhena

por Bruno Capelas

Ele é o homem por trás de algumas das letras mais marcantes do rock nacional, como “Menina Veneno”, “Vida Louca Vida” e “Corações Psicodélicos”, mas pouca gente sabe como é sua cara ou sua voz. No momento em que um de seus maiores sucessos completa 30 anos de idade e um de seus maiores parceiros dá uma guinada à direita, mostrando para que servem seus olhos grandes, sua boca grande e confundindo antigos fãs e chapeuzinhos vermelhos, o letrista e poeta Bernardo Vilhena bate um papo franco com o Scream & Yell.

Na conversa, o carioca relembra como entrou no mundo das palavras, conta a história de como conheceu Lulu Santos, Lobão e Ritchie e participou ativamente da cena roqueira da cidade na virada dos anos 1970 para os 1980. Além disso, ele desmistifica a origem do famoso “abajur cor-de-carne” da letra de “Menina Veneno”: “O abajur cor-de-carne veio da Marlene Dietrich, que adorava os abajures do Copacabana Palace, que tinham uma cor de pergaminho”.

A canção, escrita ao lado do inglês Ritchie, foi o maior sucesso de 1983, desbancando até o rei Roberto Carlos em vendas e fazendo Bernardo Vilhena enjoar da cria. “Eu cansei tanto dela que resolvi fazer uma viagem pra Amazônia. Chegando numa comunidade ribeirinha, vi umas lavadeiras com uns rádios enormes. E o que elas estavam ouvindo? ‘Menina Veneno’, claro!”, relembra o compositor.

Trinta anos depois, Bernardo aproveita a oportunidade para falar sobre direitos autorais e o ECAD hoje em dia, além de revelar que não fala com Lobão há anos. “Há certa babaquice em tentar reescrever e modificar o passado. Ele prega uma amizade com o Cazuza e o Júlio Barroso que ele não teve. O dia que ele parar de cantar as minhas letras no show dele, eu passo a respeitá-lo de novo”.

O poeta também comenta o nível da música brasileira atualmente, e diz que é “preciso ficar de olho nas rádios e nas TVs, mas cabe aos artistas a responsabilidade de ajudar quem quer fazer algo diferente e não tem meios para isso”. Com a palavra, Bernardo Vilhena.

Antes de tudo, Bernardo, eu queria saber como foi a sua entrada no mundo das palavras. Como você se interessou pela escrita?
Confesso que essa entrada foi natural, porque aprendi a ler sozinho, vendo o meu pai lendo o jornal. Aos cinco anos de idade, eu sentava do lado dele e ficava tentando decifrar as manchetes, especialmente do caderno de esportes. Além disso, sempre gostei de escrever cartas para os primos que moravam longe, fazia poesia para as namoradas, sempre me dei bem na escola com as dissertações. Escrever era comigo, mas nunca pensei nisso, simplesmente fui escrevendo. A surpresa foi quando eu percebi que as pessoas se interessavam pelo que eu escrevia – e eu não tinha máquina de escrever, fazia tudo à mão até os 22 anos. Mas acho que só comecei a escrever de verdade quando comprei uma máquina, uma Swissa Piccola portátil, muito bonitinha, que tenho até hoje.

E como foi que você conheceu os teus dois parceiros mais, digamos, conhecidos, que são o Lobão e o Ritchie?
Eu já tinha encontrado o Ritchie em algumas festas (no meio dos anos 70), nós nos víamos sempre nas rodinhas de baseado, mas nunca tínhamos conversado. Na época havia uns eventos no MAM (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro), com música, e quem organizava tudo isso era o Sidney Miller. Uma vez, teve um show com três bandas de rock: os Mutantes, O Terço e uma terceira banda chamada Soma, na qual o Ritchie tocava (se eu não me engano, 1975). O Sidney Miller me chamou para fazer o programa, e eu fiz uma revistinha com algumas citações sobre o rock. Coloquei frases de John Lennon, de Jimi Hendrix, do The Who e de alguns críticos e escrevi um texto sobre o que eu achava de tudo aquilo. Dois dias depois do festival, eu estava em casa, morava perto do Jardim Botânico. Toca a campainha, eu fui atender e era o Ritchie, com a revistinha na mão. “Foi você que escreveu isso?”. “Foi”. “Pô, cara, é o melhor texto que eu li sobre rock no Brasil”. Ele me contou que tinha montado um grupo novo e perguntou se eu não estava a fim de fazer algumas letras, fazer uma grana. Marquei de ir ao ensaio deles na Lapa, e conheci o Lulu Santos, o Lobão, o Luiz Paulo Simas e o Fernando Gama. Era o Vímana. Acabei fazendo umas letras para eles, naquele esquema de acabar um poema quando o seu amigo chega com uma música pronta, sabe? Mas, na verdade, cara, eu não gostava do som do Vímana.

Por quê?
Eu não gosto de rock progressivo. Adoro o Pink Floyd, que dizem que é rock progressivo, mas é mais jazzístico que propriamente progressivo. Seja como for, eu fiquei muito amigo deles, adorava estar com os caras, fazia a luz para os shows deles. Passou um tempo e o Lulu Santos foi mandado embora da banda, quando o Patrick Moraz [tecladista do Yes] tentou fazer com que o Vímana se tornasse a banda de apoio dele. O Moraz já tinha um guitarrista e o Lulu acabou chutado. Ele foi lá pra casa chorando, “Pô, o cara roubou minha banda”, e nessas nós começamos a fazer umas canções bem brasileiras. Dessa safra, só uma delas foi gravada, “Ouça Essa Canção”, pelo Edson Cordeiro – a Gal gravou a mesma música antes, mas quando eu fui ouvir, o Lulu tinha passado a letra errada para ela. “Cara, mas tem esse erro aqui!”. Foi uma coisa meio intransigente, e o problema era que era um erro chato, e pedi pra música não sair. Enfim: fiz essas canções com o Lulu, e depois ele fez uma banda chamada Uns e Outros, com o Antonio Pedro, que depois viria a ser baixista da Blitz, e o Arnaldo Baptista. Era uma banda ótima, mas que não foi pra frente. Aí o Lulu foi gravar seu primeiro compacto, e ele resolveu cantar uma música minha com o Antonio Pedro, aquela “Gosto de Batom”, que é uma música legal… mas não é uma música legal!

Mas por que não era legal?
A “Gosto de Batom” era uma música que nós fizemos meio de sacanagem. Ele era casado com uma menina, e a gente estava esperando ela acabar de se arrumar para nós sairmos pra algum lugar, e toda hora ela ia na sala e dizia: “O que vocês acham disso?”. Enquanto a gente esperava, bebendo umas, fumando um baseado, o Antonio Pedro pegou o violão, começamos a brincar e acabou saindo essa canção, que fala de uma mulher se arrumando pra sair. E o Lulu acabou gravando.

E onde entra o Lobão nessa história?
(Voltando ao Vímana) Acabou que o Lobão roubou a mulher do Patrick Moraz, a Liane Monteiro, irmã da Liége, que tinha estudado comigo no Colégio Pedro II. Aí tinha o Ignácio Machado, que estudou com o Lobão no Colégio S. Vicente de Paulo, e era meio que um empresário do Vimana, mas trabalhava como diretor no IBOPE. O Vímana acabou, o Lobão queria começar a escrever as coisas dele e o Ignácio falou que ajudava a bancar um compacto pro Lobão. Coisa de um mês depois, ele apareceu com dez músicas (Nota: letras de Bernardo). O Ignácio pediu para ele falar os títulos, e ali tinha “Cena de Cinema”, “Robô, Roboa”, “Amor de Retrovisor”. Ele mandou a gente parar e falou: “cara, isso dá um LP”. Alugamos um estúdio em Botafogo, o técnico de som era o Marcelo Sussekind. Juntamos os amigos: Lulu, Antonio Pedro, Ricardo Barreto, Marina, e o disco ficou pronto, mas estava com uma mixagem meio caótica. Deu aquele medo, mas um dia, a minha mulher na época, a Isabela, tinha uma fita demo meio esquecida, e no final da fita tinha um cara cantando, e era um cara que tinha estudado com ela. Era o Carlão, que depois a gente descobriu que era técnico de som na Som Livre. Levamos o “Cena” pra ele e ele arrumou todas as vozes em duas horas. Depois disso teve a peregrinação pelas gravadoras, e o “Cena de Cinema” acabou saindo pela RCA. Quando ficou pronto tudo, o Ignácio Machado me perguntou: “Quem é o próximo?”.

E quem era o próximo? O Ritchie?
O Ritchie! Foi aí que nós fizemos o “Voo de Coração”, um disco que já estava praticamente pronto. O Carlão produziu junto com o Mayrton Bahia. Foi aí que a coisa pegou fogo mesmo. Por incrível que pareça, “Voo de coração”, a música, que é bastante cultuada, nunca foi um sucesso, ficou num cantinho. Ela tem aquele solo absurdo do Steve Hackett, e ele gravou três guitarras absurdamente iguais, deu um corpo para a gravação. Foi uma demo que a gente fez para levar para as gravadoras, e o próprio Liminha ficou chocado. Foi impressionante, em técnica, havia um sentimento, uma melodia naquele solo.

Mas o carro chefe do “Voo de Coração” foi “Menina Veneno”. Como é que essa música nasceu?
Quando eu estava trabalhando com o Vímana, eles me deram um livro do [Carl Gustav] Jung no meu aniversário, “O Homem e Seus Símbolos”. Eu adorava esse livro, pesquisava bastante o tema. Comecei a fazer psicanálise com 18 anos de idade, por conta própria, logo depois de ganhar meu primeiro salário. Na época, eu estava num ritmo de composições tão forte que eu brincava que começaria a fazer música até com para-choque de caminhão. Tinha várias músicas que tentavam isso, e um dia eu estava dirigindo e veio essa coisa na cabeça, a “menina veneno”. Quando veio, achei do caralho, e contei pro Ritchie. Na mesma hora ele falou que tinha feito uma melodia que achava que casava com o tema. Fui para casa dele, começamos a fazer a letra. Foi engraçado na hora que a gente escreveu o verso “meia noite no meu quarto, ela vai surgir”, porque a filha do Ritchie começou a subir a escada, a gente ouviu os passinhos e “ouço passos nas escadas…”.

E o famoso abajur cor-de-carne, de onde veio?
O abajur cor-de-carne veio da Marlene Dietrich, que adorava os abajures do Copacabana Palace, que tinham uma cor de pergaminho, mas que na expressão em alemão, quando traduzida literalmente, virava cor-de-carne. Na minha cabeça de letrista, o cor-de-carne com o lençol azul e as cortinas de seda montavam todo um cenário interessante. O refrão, por sua vez, tem uma ligação forte com as artes plásticas, uma área à qual eu sempre fui muito ligado. Eu tinha uma amiga, a Regina Vater, que tinha um trabalho de retratos das camas de hotel que ela dormia, e mandava isso como cartões postais. “Toda cama que eu durmo só dá você” era um verso dela. Era uma gíria da época, o “só dá o fulano”. São as coisas fundamentais dessa letra, dessa canção.

E como foi ouvir essa música tocando nas rádios direto?
Cara, foi o meu segundo sucesso, porque eu já tinha feito o “Geme Geme”, com a Blitz. Mas a “Menina Veneno” tem aquele solo de sax do Zé Luís que é muito inspirado. Tem desespero, tem tesão, tem melodia. As coisas que mais gosto no rock’n roll são os solos. É a coisa que mais me atraiu para o rock’n roll, uma herança do jazz que eu ouvia quando era menino. Sempre dei muito valor ao solo. “Menina Veneno” é uma canção que quebrou um paradigma no rádio, que era o tempo das canções. É uma música muito grande (4m40s). O que mais me entusiasmou é que as rádios a tocavam até o final, sem editar. Ela ia até o fim do fim do fim, a última nota daquela gravação. E eu não acreditava nessa música como um hit, achava ela difícil, tinha essa coisa do arquétipo do Jung, é meio hermética. O “Voo de Coração” tem músicas muito mais abertas. Mas o título da música dava uma discussão, as pessoas perguntavam o que era menina veneno, o que significava, qual era o sentido oculto da canção. Uma vez, o DJ Pelé, o Dom Pepe, disse que estava ouvindo na casa do Caetano e que era a única música que falava de heroína, então outro dizia que era uma homenagem à punheta. Cada um tinha a sua versão.

Mas não teve um momento que você cansou de escutar “Menina Veneno” por aí?
Claro, claro que cansou. Até fiz uma viagem para a Amazônia. Eu não aguentava mais ouvir “Menina Veneno” e aluguei um barco em Manaus para ir até Santarém. Durante a viagem, a gente descia do barco para ir até uns povoados, ver as comunidades ribeirinhas. Um dia a gente desceu num riachinho, tinha umas lavadeiras, e perto delas vinha um som alto, com uns rádios enormes. Chegando perto, o que os rádios tocavam? “Menina Veneno”! Porra, até aqui?

E hoje, qual é a sua sensação quando alguém fala da música?
Fui numa festa um tempo atrás, tinha intelectuais aqui do Rio de Janeiro e eu fiquei conversando com a mulher de um intelectual sério. Ela disse: “Pô, foi você que fez Menina Veneno”. Eu confirmei, ao que ela fez uma cara envergonhada e disse: “Era assim que meu pai me chamava quando eu era criança”. Outro dia fui à casa de um amigo e a empregada dele abriu a porta pra mim. Enquanto ele se arrumava, a empregada chegou para mim e disse assim: “Foi o senhor que fez aquela música, ‘Menina Veneno’? Essa música era a música da minha juventude! Eu chegava nos bailes na Rocinha dizendo “Toca ‘Menina Veneno’!””. Isso é o Brasil, e tocar o coração do Brasil é muito gratificante. É um absurdo.

Como você se sente tendo escrito algo que está na boca das pessoas, mas sem ter uma voz ou um rosto conhecido?
É uma sensação maravilhosa. Tem um poema meu atual que diz: “A vida contemplativa é minha maior conquista / meu exercício é a solidão”. Adoro ficar sozinho, detesto feiras. O Maracanã é o meu lugar preferido, e eu posso ir lá torcer em paz. Quando eu tinha 17, 18 anos, me chamaram para cantar em banda de rock. Eu não aguentava os ensaios, aquela coisa de ficar repetindo. O grande prazer que tenho é chegar num lugar absolutamente anônimo, num bar de beira de estrada e a menina do caixa está cantando uma música sua, como “Vida Louca Vida”. Isso não tem preço.

Já que a gente tá falando dela, qual é a história por trás de “Vida Louca Vida”.
Assim como “Menina Veneno”, o que inspirou “Vida Louca Vida” foi a leitura de um livro, a biografia de Lou Andreas Salomé. A epígrafe dele dizia algo como: “Não sou eu quem leva a vida, a vida é quem me leva”, que é quase o refrão da música. Certamente veio daí, mas o bacana é que veio de uma forma inconsciente. Sonhei com esse refrão, e sonhei que era o Cazuza quem cantava ele. Acordei com isso na cabeça e escrevi a letra inteira. O Lobão gravou, e um dia eu encontrei o Cazuza no Canecão, ali bem na entrada, onde tinha umas colunas enormes, redondas. O Cazuza encostou em uma das colunas, botou os braços para trás e disse: “Bernardo, eu fui ao estúdio e amei”. Ele foi cantando a música, era um acontecimento, uma música que ninguém sabia qual era. Ele cantou “Vida Louca Vida” ao vivo, e eu chorei pra caralho, porque ele já estava na fase final da doença. As pessoas confundem, dizem que a música é do Cazuza. E daí? Isso que é bacana, ele cantou com uma entrega tão grande, o filme da vida dele termina com essa música, fiquei emocionadíssimo.

A vaidade não conta nessas horas?
Não. São os momentos mágicos que a música nos oferece. Tem que curtir. Amo a gravação do Zezé de Camargo e Luciano para “Menina Veneno”. Amo. Foi a minha música sendo mostrada para outra geração. O Zezé di Camargo ligou pro Ritchie uma vez só pra dizer o seguinte: “Eu sou um cara que já escrevi muitos sucessos, mas essa música tem um negócio, não sei o que é. A gente começa a tocar e é uma euforia coletiva”. Não sei, a gente alcança determinados momentos com a música que só dá para agradecer mesmo. Eu sou um cara extremamente vaidoso, mas vaidoso nas internas. Não dá para sair por aí como um otário, querendo méritos por tudo.

Você ainda recebe muita grana de direitos autorais? Ou a distribuição mudou muito nos últimos anos?
Não tenho mais aqueles hits todos dos anos 1980, e eu me retirei do mercado, por isso recebo menos. Acho que hoje em dia se recebe mais, e acho muito estranho esse movimento que está rolando agora, com a intervenção do governo no ECAD. O Ronaldo Bôscoli, que era meu amigo, dizia que não se pode atirar para dentro. A quem interessa falar mal da polícia? Só o bandido. Falar mal do ECAD só interessa ao sonegador.

Então você apoia o ECAD do jeito que ele é hoje?
Não. A crítica que faço ao ECAD é que ele deveria ser mais transparente. O sistema não é ruim: ele tem um sistema de arrecadação muito parecido com o da Europa, e o deles funciona. O problema é a administração errada. Os problemas que estavam errados com a sociedade arrecadadora deveriam ter sido resolvidos de maneira interna. Colocar o Ministério da Cultura no meio é uma barbaridade. O ECAD é uma sociedade privada que não deve ter interferência de qualquer político. Vejo pessoas que eu admiro lutando pelos músicos, mas acho triste que elas estejam indo fazer negócio com o Renan Calheiros. Não é confiável, especialmente no momento que o nosso país atravessa. É preciso uma fiscalização enorme no Congresso Nacional, o Tribunal de Contas deveria ter um órgão específico só para o Congresso. Não dá. E aí a classe artística vai lá e entrega sua renda na mão do Congresso. Acho que o que foi resolvido na PEC da Música não vai dar em porra nenhuma. Tão enrolando, enrolando, fica aquele negócio morno. Quem não paga vai ter razões pra não pagar porque nada está decidido. É preciso cobrar.

Mas você consegue se sustentar com o que o direito autoral te paga hoje?
Não, cara, ganho pouquíssimo. Não me sustento com direito autoral, mas acho absolutamente certo o que eu ganho. Sei que poderia ser mais se os sonegadores pagassem. Não me aprofundei na discussão sobre o ECAD agora, mas acho absolutamente errado a maneira como tudo foi negociado. Detesto quando artista começa a se meter em política de forma rigorosamente amadora. Não venha falar para mim de internet, eu fiz o primeiro curso da IBM em 1966. Acompanho o mundo virtual desde os anos 60, não é de hoje, não vem com essa conversinha. Botar a culpa de que há pouca grana por culpa da internet é o cacete. O primeiro computador foi desenvolvido em um destroyer da marinha americana. Esse discurso de liberdade é o cacete. Pra cima de mim, não. Eu tenho um poema que chama “Adeus à música /A deus, a música”. É a minha contribuição.

Você se despediu da música, então?
Não é bem assim. Eu só parei de viver as coisas como antigamente. Esse ano fiz uma música com o Vespas Mandarinas (a música “Santa Sampa”), estou fazendo um disco com o Max de Castro, mas estou muito mais voltado para os livros e à poesia do que à composição… Pô, eu produzo um festival de música instrumental, para você ter uma ideia. Em casa mesmo agora rolou um som esses dias, com o Arthur Maia, o Tomás Improta, o Zé Luís, foi um negócio. Ninguém cantando. Foi genial.

Há algum tempo atrás, o João Barone deu uma entrevista para o Scream & Yell falando que nunca a música brasileira tinha estado tão ‘popularesca’. Ao mesmo tempo, o Wado deu outra entrevista para nós falando que a música de hoje era muito imatura, é uma música que veio das classes D e E e foi comprada pelas camadas mais abastadas da sociedade. O que você pensa sobre isso?
Se há algum problema, esse problema está muito mais nas rádios e na TV do que na música. A música continua sendo produzida da mesma forma, como sempre foi. É preciso se preocupar com a maneira como as rádios e as TVs são administradas. É claro que existe um interesse de inserção social de uma camada da população que jamais teve acesso a porra nenhuma. É preciso abrir acesso a essas pessoas. Mas, por outro lado, é preciso ter a responsabilidade de reivindicar e mostrar, para essas pessoas, uma cultura musical brasileira que precisa ser conhecida. Não faz sentido tratar o músico como um débil mental. A música brasileira é reconhecida internacionalmente por três motivos: pelo ritmo, pela harmonia e pela melodia. O ritmo é o terceiro, é um ritmo nosso. Mas a harmonia vem de um estudo muito sério de música, que vem de vários séculos, em Minas, no Rio e na Bahia, os três lugares onde a música brasileira teve uma formação importante pelo dinheiro que corria. Ali chegaram grandes músicas, ali a coisa aconteceu de uma forma muito rica. O choro, ou o samba da Estácio, são coisas que foram feitas por pessoas que tinham uma formação musical intensa. Foi feito por gente que pensou novas formas de tocar o samba. O Noel Rosa e o Cartola tinham uma formação poética incrível. O Cartola dizia pro Elton Medeiros: “Tem que entrar nas igrejas, tem que ouvir Haendel”. Tem que ouvir Debussy, tem que ouvir Tom Jobim.

Há medo da influência do que vem de fora, ou do que chega rápido demais?
Já fiz ópera encenada com 70 pessoas no Teatro Municipal do RJ e em nenhum momento, quando eu fiz essa ópera, deixei de fazer referências a autores internacionais. O tempo inteiro tinha referências internacionais, de artistas e de críticos. No cinema, todos falam do cinema internacional. Só na música que existe um preconceito ridículo de “estarem invadindo”. A música é nossa maior manifestação artística, tem que ser a grande esponja da nossa cultura, para poder absorver tudo o que vem e transformar. Nós temos essa capacidade transformadora. Tem que preservar o samba, o pagode, o frevo, o rancho… Claro, não tem a menor dúvida disso! Mas tem que ouvir o Haendel, o Villa Lobos, o Debussy, e tem que ouvir o Tom Jobim, o Ivan Lins, o Gilberto Gil. Não pode ter essa maluquice desse preconceito. Nossa responsabilidade é mostrar para quem está chegando agora essas referências. Por exemplo: tem uma coisa no sertanejo de hoje que é uma influência do pop internacional, que eu acho de um mau gosto tremendo. Mas há duplas que estão mudando isso: o Jorge e Mateus, por exemplo, estão buscando as raízes da música brasileira.

E as gravadoras, onde entram nisso?
As gravadoras não têm mais a força que tem. Quem tem a força são as rádios e as TVs. Não vem falar mal de artista, os meninos estão fazendo o que sabem. Tem que cobrar as TVs, as rádios, e tem que mostrar as referências. Participo de um projeto chamado FLUPP, a Feira Literária das UPPs. Nós vamos ao encontro dos jovens escritores das comunidades das UPPs. Eu me sinto na obrigação de falar às vezes para eles: “Cara, isso tá mal escrito. Vamos melhorar esse negócio, vamos ter o prazer de reescrever”. Eu me sinto no direito de alterar a pontuação. Não sabe usar pontuação, não usa pontuação nenhuma. É preciso ter essa liberdade de ir lá e mostrar. É o primeiro degrau. Com as pessoas que estão ganhando dinheiro com isso, é mais fácil ter essa liberdade. O funk carioca tem todo direito de fazer o que quiser. Já influenciaram essa coisa que está vindo no pop internacional. Eles podem fazer o que quiserem. Não tenho nada contra pegar uma guitarra do U2 para samplear. Mas tem que fazer sentido, não adianta juntar um riff de uma música de guerra com a letra da ‘gostosa vem pra cá’. Os produtores e os editores são os grandes responsáveis, pela cultura que vem da Internet ser trabalhada, filtrada e mapeada, para pessoas que tenham um real interesse em cultura saibam navegar. Acho uma covardia deixar os garotos entrarem na Internet ao deus dará, porque o universo é muito vasto.

Mas quando você fala em “nós”, a quem exatamente você se refere?
Nós, os mais velhos. Acho que todo artista tem que ter essa responsabilidade. Todo artista tem que saber que antes dele existiu alguma coisa, e depois dele vai vir outra coisa. É preciso ser responsável por isso. Eu vivo na minha solidão, mas eu vou lá e convivo, sento com seis, sete, e debato sobre poesia. É o momento de eu me expor e doar um pouco do que eu aprendi. Todo artista tem essa responsabilidade porque recebeu muito ao longo da sua carreira. E tem que saber doar, sobretudo porque a gente vive no Brasil um momento especial. A gente vê nos jornais: “Poupança bate recorde”. As pessoas tão poupando porque elas foram ensinadas a poupar, não tem a ver com a alta do dólar. Tudo errado, tá uma esquizofrenia sem fim. Mas, na economia, em marketing, está todo mundo preocupado em falar com essa nova classe média. São essas pessoas, a juventude na rua pedindo transporte, saúde e educação. Acho que tem que haver um esforço, mapear, ajudar quem tá vindo. Para você formar uma orquestra numa comunidade, não basta só chegar lá e mostrar os instrumentos. Tem que ter alguém que pegar os valores que se encontrarem ali e possa dizer: “Poxa, esse cara pode viver disso”. Não tem jeito. Os melhores vão ser músicos, os outros vão ser melhores ouvintes que os seus pais, vão ter um instrumento como um momento de lazer, vão ser melhores cidadãos. A música ajuda a pessoa a aprender matemática, é uma coisa fundamental. Enfim: essa responsabilidade tem que existir, nós temos que ser chamados para ajudar quem precisa e quer aprender.

Para encerrar, eu queria saber como é a sua relação hoje com os seus parceiros mais célebres – o Ritchie, o Mário Adnet, o Cláudio Zoli e o Lobão.
A única pessoa com quem eu não falo mais, não tenho mais nenhum tipo de relação é o Lobão. Falo sempre com o Ritchie, o Cláudio Zoli é uma pessoa que eu adoro, e o Mário Adnet estava aqui em casa esses dias. Com o Lobão, na hora que ele resolveu agir de uma forma desonesta comigo, eu não quis mais. Tenho certo receio do convívio com pessoas desonestas.

Mas é uma coisa do hoje, não é uma coisa que você olha para o passado com rancor?
Não é rancor, cara, só acho que há certa babaquice em tentar reescrever e modificar o passado. Acho isso uma coisa muito babaca. Ele prega uma amizade com o Cazuza e o Júlio Barroso que ele não teve. Depois que o Júlio se mudou para São Paulo e o Lobão começou a namorar a Alice [Pink Pank, ex-mulher do líder da Gang 90], foi uma amizade muito desconfiada. Ele fala que ele, o Júlio e o Cazuza iam fazer uma grande revolução na música brasileira, e isso é uma mentira enorme. Se você for ver, eu tive muito mais convívio com os dois do que ele, e o Júlio e o Cazuza, em todos os momentos que nós conversamos seriamente sobre música, demonstravam um amor profundo pela música brasileira, um amor sem fim mesmo. Esses caras que o Lobão vive falando mal, Chico, Caetano, eles amavam. Era muito legal destruir os ídolos em 1983, mas hoje eu acho ridículo. Isso é uma invenção ridícula, assim como muitas outras. Eu não li a biografia, porque não quero ficar lendo versões ridículas da minha própria vida. Foi um pedaço pequeno da minha vida, nós convivemos durante cinco ou seis anos. Mas é o que eu sempre digo: o dia que ele parar de cantar as minhas letras no show dele, eu passo a respeitar. Hoje? Eu não preciso disso.

Queria saber como você vê o momento dele hoje, lançando um livro que fala, entre outras coisas, que os Racionais MCs são um braço armado do PT, e se aproximando de um ícone da direita como o Olavo de Carvalho.
O último livro dele eu não vou nem querer ler, porque quem apresentou o modernismo brasileiro para ele fui eu, e não vou permitir que ele tenha visões ridículas sobre isso. O Olavo de Carvalho é uma pessoa desprezível, e é isso o que o Lobão está se tornando. Vi o vídeo da conversa entre eles outro dia, só o começo, aquela coisa esquisita, do Lobão todo subserviente a um mestre de merda. Uma babaquice sem fim. Não tem porque achar aquilo engraçado e interessante. Eu odeio a direita. Odeio. A direita é extremamente ligada à indústria armamentista norte-americana, são vassalos da indústria armamentista norte-americana, a mesma indústria que armou a máfia italiana, os rebeldes da América do Sul, a mesma indústria que arma os traficantes das Américas, os revoltosos do Oriente Médio. Se é a direita que está do lado disso, não tem nem início de papo. Nem vem que não tem.

E a notícia de que o Lobão vai ser colunista da Veja, o que você tem a dizer sobre isso?
Eu não leio a Veja há anos. Ponto.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista, escreve para o Scream & Yell desde 2010 e assina o blog Pergunte ao Pop.

Leia também:
– Talvez Lobão exagere ao lembrar de certos fatos em “50 Anos a Mil” (aqui)
– Lobão: “A cena independente vai escrever a história da música brasileira” (aqui)

25 thoughts on “Entrevista: Bernardo Vilhena

  1. Bernardo Vilhena é um frustrado. “Menina Veneno” é uma música cafona. A importância de Lobão, Vilhena e “Menina Veneno” para a Música Popular Brasileira é 0,01% de uma substância tomada por Cartola, Noel Rosa, Chico, Caetano, Raul, Roberto, Ary Barroso, etc. Não existe espaço para esses amadores. E achei a entrevista muito longa. Perdi meu tempo. Quanto a opinião política de Vilhena, sobre direita, o homem é mesmo velho: totalitário. E deveria ter explicado o motivo dos problemas com Lobão, se são financeiros ou estéticos. Vida longa a Slayer e Villa Lobos. Vilhena desponta…para o anonimato.

    1. Ele deixou claro que Lobão foi desonesto com ele. Não cabe a ninguém julgar isso. Se ele não quer papo, não quer relação com o cara , problema e direito dele. Em relação a “Menina Veneno”, ela pode até ser “brega” , mas faz parte do repertório imaterial musical brasileiro, assim como outras canções como “Perigo” da Zizi Possi ou ” Me dê motivo” do Tim maia, entre outras tantas E , como até foi comentando na entrevista, ” um negócio,” “uma euforia coletiva” que está mais ligado a relação pessoal que cada um tem com a música. Se ela será lembrava daqui a 100 anos na História da música brasileira, pouco importa. O certo é que pessoas lembrarão.

  2. Gostei da entrevista. É bom conhecer figuras sobre as quais apenas conhecemos pelas palavras dos outros. Foi a primeira vez que eu, que leio sobre rock há um bom tempo, leio falas do Vilhena.

    Só acho que ficou faltando instigar mais com relação ao Lobão. O lobo diz que Vida Louca é dele, em parceria, e fala inclusive sobre o processo de composição da mesma. Vilhena diz que escreveu a letra inteira. E aí? Por que pararam de se falar? Essas questões ficaram no ar.

    Um caso que poderia ser citado foi aquela “homenagem” que fizeram para Cazuza, quando começaram o show com Vida Louca e o LObão escreveu manifesto e tudo mais.

  3. Ótima entrevista! Esclarecedora em relação da tríade Lobão-Cazuza-Barroso, sempre levada a banho maria, já que quem só conta vantagem dela é o Lobão. Adoro as letras do Bernado, muito bom saber que está por aí.

  4. Patético o enfoque sobre o discurso político do Lobão, coisa de menino que divide as pessoas entre quem é pró ou contra o PT. Sobre o Lobão como músico, as palavras do Bernardo Vilhena são ótimas e vão no sentido da impressão que já tinha tido de que o Lobão inventa muita mentira sobre o passado. Aquela auto-biografia dele deve ser composta em 50% de invenções da cabeça dele.

  5. O Lobão é como Pelé – só que bemmmm mais inteligente.
    Ou seja, só vê o ponto de vista que lhe interessa e dá a resposta de acordo com o interlocutor.
    Mas mesmo com todas as cagadas que anda cometendo(o homem tá com diarreia verbal) sua música não pode perder o lugar de destaque que sempre teve no Brock.
    Ele não foi o Pelé da geração 80, mas, digamos, foi um Neymar.
    Outra coisa, nunca entendi essa entronização do Júlio Barroso.
    Pela minha lembrança, a Gang 90 era um Dr.Silvana melhorado.
    Já Cazuza era da pesada.
    Aliás, tinha muita curiosidade de saber como estaria, pra ficar numa palavra que lhe era cara, ideologicamente e artisticamente o autor de O Tempo Não Pára.
    Viraria um bundão, como Arnaldo Antunes, ou teria despirocado como o Velho Lobo?

    PS: Wellinton Carlos é leitor da Veja. rsrrsrsrrsrs
    Ahh, acho que o que o Vilhena gostou mesmo, em relação a regravação de Zezé di Camargo, foi o dinheiro que cai na conta.
    Ninguém com o perfil minimamente roqueiro pode gostar desse cara.

  6. Um camarada aí em cima minimizou a questão da visão do Lobão como se fosse tudo uma questão de pró ou contra o PT. A dicotomia esquerda x direita está muito além disso – essa divisão transcende a política partidária. Lobão anda querendo aparecer como um polemista ultra-direitista. O cara chegou a declarar apoio a ditadura civil-militar brasileira e diz que ela só “arrancou umas unhazinhas”… Posso discordar de várias coisas que um Caetano Veloso fala (por ele não assumir uma visão político-econômica muito clara), mas, que eu saiba, ele nunca se rebaixou desta forma, como o Lobão se inclinando para o lado proto-fascista.

  7. Zé Henrique, vc é um cara inteligente. Resumir obras em palavras é muito fácil. Destrui-las é de uma soberba narcísica. O debut da Gang são toneladas de poesia, referência niueivi, estética e louvação beatnik, além de pragmatismo pós-punk. Dr. Silvana = Cheque Especial. Prefiro acreditar que tenha enganado. Abraço!

  8. Lobão está terminando igual ao Ted Nugent, grande músico mas que prefere perder tempo fazendo média com suas idéias duvidosas escanteando cada vez mais sua obra.

  9. Muito bacana a entrevista. Sempre procurei saber mais sobre o Vilhena e aqui encontrei o cara sendo ele mesmo, mostrando suas ideias e suas convicções. Só acho que poderia ter rolado uma lista mais abrangente de suas composições. No mais, está ótimo. Parabéns!

  10. Até esclarecedora a entrevista, mas esse lance de ficar cutucando o cara pra que ele sente a lenha no antigo parceiro foi meio desprezível.

  11. “O dia que ele parar de cantar as minhas letras no show dele, eu passo a respeitar. Hoje? Eu não preciso disso.”

    O dia que o Bernardo parar de recolher o direito autoral sobre as músicas compostas em parecia comigo, eu passo a respeitar. Hoje? Eu não preciso disso. (diria, talvez, Lobão)

  12. Não pensava que o compositor de músicas que marcaram uma geração, seria um sujeito tão babaca. A direita é isso, é aquilo… Olavo é isso e aquilo… Que visão canhestra, medíocre, imbecilizada. Um cara que vivia no baseado dizer que a direita financia traficantes… todo mundo sabe que a esquerda é que mexe com o bagulho, afinal estão desconstruindo o sistema… Pô, decepcionada…

  13. Wellington Carlos, quem é você? Qual a sua trajetória na cultura nacional?
    Como rotular alguém por uma entrevista? Você deveria aprender a ler para interpretar melhor o que é dito nas linha e entrelinhas. Fora isso é pura frustração de quem já nasceu com a vocação para o anonimato. Muito bobo…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *