A nova cena portuguesa: Samuel Úria

Entrevista por Pedro Salgado, de Lisboa

“Gosto sempre de remontar a um passado simples e descomprometido, da adolescência, em que pegava numa guitarra e começava a escrever de uma forma natural”. A procura de um estado de inspiração assente numa grande disponibilidade emocional e define o percurso de Samuel Úria. Ligado ao advento do selo FlorCaveira, em 1999, Úria editou o seu primeiro trabalho, “O Caminho Ferroviário Estreito” (um disco de recolhas musicais), quatro anos mais tarde. O CD homónimo de Samuel Úria & As Velhas Glórias (2005), gravado com Tiago Cavaco, incorporou uma ideia de fúria punk e o regresso às suas origens mais roqueiras.

O EP “Samuel Úria em Bruto” (2008), incluindo algumas faixas perdidas e gravações ao vivo, despertou a atenção da imprensa. Mas, o álbum pop “Nem Lhe Tocava”, de 2009, numa parceria da FlorCaveira com a gravadora Valentim de Carvalho, conferiu ao músico de Tondela (norte de Portugal) a profissionalização e a possibilidade de se apresentar em salas maiores e festivais. Temas como a biografia melómana de “Teimoso”, “Água De Colónia Da Babilónia” ou “O Diabo” viriam a tornar-se musts de seus shows e criaram no artista um sentido de responsabilidade para não defraudar totalmente as expetativas dos seus seguidores.

A influência da música americana, patente na utilização do banjo ou da guitarra pedal-steel, domina o seu mais recente trabalho, “O Grande Medo Do Pequeno Mundo” (2013). Samuel justifica a opção pelo fato de crescer numa igreja baptista protestante: “A música com que lidamos desde pequenos é oriunda dos Estados Unidos da América, do século XIX, e deu origem a diversos estilos como os blues e o rock”, diz. O disco é caracterizado por um registo baladeiro e um forte sentido de comunidade. A envolvente “Eu Seguro” (em dueto com Márcia) e o épico “Lenço Enxuto” (com Manuel Cruz, do Diabo na Cruz) são faixas marcantes, mas a pop de “Forasteiro” sintetiza o humanismo do álbum.

No show de apresentação de “O Grande Medo Do Pequeno Mundo”, na sala TMN ao Vivo, em Lisboa, a 24 Maio de 2013, o autor de “Barbarella e Barba Rala” encorporou vários personagens (trovador, contador de histórias e roqueiro). Mas, Samuel Úria desmistifica o acontecido: “Quando subo no palco não procuro encenar nada” e acrescenta que “na interpretação das canções procuro encarnar os melhores concertos que assisti e dou às pessoas algo que me agradou e marcou a minha vida”. Outra marca do cantor é a limitação de ensaios prévios com seus músicos, com o objetivo de criar surpresas nas atuações e a preocupação global de coesão nos espetáculos.

Martin Scorcese disse certa vez que o artista é alguém que “chama a atenção do público para as suas obsessões”. No caso de Úria, as incursões seminais lo fi, a pegada punk inicial, as baladas e o pop mais recente inserem-se numa conjugação entre o gosto dos seus fãs e o descompromisso mental no processo de composição das músicas. A sua postura simples, a disponibilidade para abraçar vários projetos, tal como a capacidade própria de se recriar, fazem dele um dos nomes mais talentosos da nova geração musical portuguesa. De Lisboa para o Brasil, Samuel Úria conversou com o Scream & Yell. Confira:

No novo trabalho você procurou descolar da pop de “Nem Lhe Tocava”. O seu objetivo era não repetir a fórmula anterior?
Sim! Por vezes, gosto de não estar ligado a correntes, álbuns ou músicas, mesmo que sejam discos meus. Tenho sempre presente a ideia de que o próximo trabalho poderá ser igual ao anterior, se as pessoas estiverem esperando algo diferente, ou mais variado para o caso do público querer uma continuidade. No entanto, tudo isto se relaciona com estados de espírito. Muitas vezes, faço recair sobre mim uma intencionalidade que não existe quando componho os temas. Se calhar, o “Nem Lhe Tocava” funcionou mais como um disco de rebeldia, em face do meu passado imediato, do que propriamente o trabalho mais recente. O novo álbum tem mais baladas, não é tão patente esse lado pop e é difícil de promover, porque não tem compactos absolutos, mas é o disco que eu queria fazer agora. De fato, agrada-me ser rebelde com quem menos merecia a minha obstinação, ou seja, as pessoas atentas às minhas canções. Tenho também a ilusão de que essa atitude poderá fazer bem a quem me escuta. A minha disponibilidade para a música não deve estar ligada ao que escrevi, mas ao que ainda irei escrever.

A canção “Forasteiro”, pelo contrário, é mais imediata e apresenta um desafio. Podemos dizer que nela encontramos a mensagem central do disco?
Exatamente! É provavelmente a canção que tem a mensagem mais dura e quanto mais agreste é o recado mais tento açucarar o tema. É uma forma quase invariável na minha música. E “Forasteiro” passa por esse reconhecimento do mundo como um lugar que é por vezes tão mal, desagradando-me tanto, e a forma que encontro de pertencer a ele é não fazendo parte desse espaço. Acaba por ser um paradoxo onde se passam muitas coisas. Mas, por vezes, a forma de tentar fazer qualquer coisa pelo mundo é estender a mão do lado de fora e exteriorizarmos. O álbum fala um pouco de rasgar o meu passaporte não português, mas sim terrestre. E de achar que se a humanidade nos embaraça mais vale a pena dar um pontapé e começar de novo. No meu novo trabalho, falo também de procurar soluções exteriores à esfera das pessoas e ao medo que nos subjuga. A única solução é o pânico, para entendermos que o mundo não nos está a proteger e, pelo contrário, limita os indivíduos. Eu falo em esfera porque penso na figura paradigmática do humanismo: o homem de Vitrúvio, de Leonardo da Vinci (definindo o cânone das proporções). E às vezes a proporção humana é uma esfera que limita o homem à sua própria grandeza. O problema reside no fato da dimensão poder significar mesquinhez, pequenez e um conjunto de soluções, sem resolução, fora dessa classe. As alternativas aparecem em espaços no disco e não se trata de um álbum pessimista na medida em que faz homenagem a pessoas, e a atos dos indivíduos, quase acreditando que existem pessoas e sentimentos maiores do que a espécie humana no seu todo.

Como surgiu a colaboração com a Márcia em “Eu Seguro”?
Foi quase uma urgência. Conheço Márcia desde o final de 2008, quando ela começou a escrever canções. Ela assistiu a um show de lançamento do meu EP “Samuel Úria Em Bruto”, que promovi em conjunto com o B Fachada (na época ele tinha editado o álbum “Viola Braguesa”). E, como a Márcia queria dar os primeiros passos nas apresentações ao vivo, convidou-me para ser o “apoio” dela num concerto que deu depois no Cabaret Maxime, em Março de 2009. Houve uma grande sintonia quando nos conhecemos e em palco confirmou-se a ideia de afinidade (quando cantamos algumas canções juntos), ficamos muito amigos desde esse momento e fizemos várias colaborações depois do show. Por isso, era quase aviltante não existir nada registado em disco e quando escrevi as canções de “Grande Medo do Pequeno Mundo” compus um dueto e era óbvio que a Márcia tinha de interpretar a personagem feminina do tema. Embora não seja uma música que fosse suposto ela encarná-la, a doçura redentora da Márcia faz um contraponto com a minha figura mais agreste. Ainda bem que ela aceitou o convite e tem sido uma faixa bem recebida, com várias partilhas no Facebook e algum airplay radiofônico. Sendo uma balada, é também uma canção dura, de cinco minutos e meio, e as pessoas têm tido muita paciência para a escutar. Sinto-me feliz que a Márcia também tenha contribuído para isso.

As suas canções refletem um sentido de comunidade muito forte. Atribui esse fato à crise econômica em que vivemos em Portugal ou a uma característica do Samuel Úria?
Sinto que antes de ter a noção de crise eu já estava voltado para o coletivo. Adquiri esse sentido de comunidade quando eu próprio, como cidadão, fui chamado a participar em projetos de outras pessoas. Muitas vezes, em entrevistas na imprensa, rádio ou televisão perguntam-me quais são os artistas portugueses que eu considero mais relevantes. Sem qualquer espécie de falsidade, só me ocorrem pessoas que estão próximas, minhas amigas ou com quem já estabeleci encontros criativos. O sentido comunitário está muito enraizado na nova cena musical portuguesa, que surgiu na segunda metade dos anos 2000 com as net labels. Para além da qualidade da escrita de muita gente, a identidade desse segmento passa muito por querermos participar nos trabalhos ou shows dos outros colegas e vice-versa e de nos juntarmos depois dos espetáculos para confraternizarmos. Das velhas figuras (ligadas ao boom do rock português de 1980), apesar de muitos músicos se darem bem também existia o lado contrário. Nunca como agora se verificou um espírito de solidariedade que não se limita às pessoas congéneres com uma sonoridade semelhante a estabelecerem parcerias, mas também se dá o caso de artistas com públicos díspares colaborarem em discos de músicos diferenciados. Isso nunca aconteceu em Portugal e no Brasil é comum uma Daniela Mercury e a Maria Bethânia cantarem músicas de Chico César, por exemplo. Claro que temos um espectro mais limitado e não há tanta gente na música alternativa colaborando entre si, mas o que acontece agora seria impensável há 10 anos. O fato de alguns projetos, em Portugal, repescarem alguns ícones dos anos 80 representa um lado musical assumido nessas escolhas. Na realidade, não é só uma homenagem, mas também uma sensação de que poderá acontecer um enriquecimento no contato com essas gerações, aproximando-se de um período mais parecido com aquele que conhecemos.

Encontra algumas referências na nova cena musical brasileira?
A nova cena brasileira é muito respeitosa com o que aconteceu anteriormente e os grandes nomes, de há 20 ou 30 anos atrás, continuam a fazer música tão atual, que é indesmentível e impensável dizer que ela não me influencia. Apesar de eu ser um consumidor de música brasileira, enquanto escritor de canções o que sempre me fascinou nela é a elasticidade da língua e o descompromisso com fórmulas. É incrível a maneira como o português do Brasil se reinventa. Às vezes isso acontece de uma forma muito primária que não me agrada, mas a ideia de mexer no português como se fosse plasticina sem o corromper é muito interessante. Eu gosto bastante de Marcelo Camelo e do Los Hermanos por serem artistas da minha geração. Sempre os escutei não como uma influência, mas como algo que está acontecendo ao mesmo tempo que eu faço algo diferente. Não os ouço tanto como Chico Buarque, Caetano Veloso, Jorge Ben Jor, Tim Maia ou Raul Seixas. Se estes músicos tivessem aparecido agora, emprestar-lhes-ia os meus ouvidos, atenção, devoção e muito interesse musical. Mas, por estarem acontecendo no momento presente, nunca os iria identificar como referências.

Para onde pretende levar a sua música no futuro?
O maior favor que eu faço à minha música é não premeditá-la demasiado com projetos. Mas, uma das coisas que gostava de fazer é regressar ao lo fi, até para alternar um disco de estúdio com outro caseiro. Tenho funcionado mais ou menos assim. Depois do “Grande Medo do Pequeno Mundo”, agradava-me fazer um disco que não só fosse caseiro na sua gravação e na sua sonoridade, mas também familiar na repercussão que possa ter. É possível que não seja descoberto na altura, mas futuramente as pessoas acharão graça e deixará de estar nas minhas mãos o impacto do álbum. Para além disso, brevemente, gostava de voltar ao rock n´roll, porque ele não foi abundante no atual trabalho. Quero voltar a uma sonoridade mais crua, com guitarras sujas e regressar aos primeiros shows, um pouco mais adolescentes. Mas, não será um disco solo, porque pretendo incluir mais músicos no disco. Apetece-me ficar fatigado em palco e sentir o peso da idade (risos).

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui
– Fotos por Rita Carmo. Conheça o trabalho: http://ritacarmo.blogspot.com.br/

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