A nova cena portuguesa: Anarchicks

 

por Pedro Salgado, de Lisboa

Na gênese das Anarchicks existem elementos libertadores surgidos da insatisfação que duas das suas integrantes sentiram ao tocar com homens. Helena (Synthetique), baixo, e Catarina (Katari), bateria, procuravam fazer canções com uma visão feminina, mas que fizessem sentido para a vida das pessoas. Com a chegada de Priscila (Playgirl), voz, e Ana (JD), guitarra e baixo, formava-se um grupo que, mais do que reclamar uma herança punk ou cimentar o universo riot grrrl, pretendia defender a sua identidade.

Adotaram o inglês como forma de expressão, justificando a opção pelo fato de “encaixar melhor na nossa música e evitar algumas formatações que ocorrem com outras bandas que cantam em português”. Estrearam com o EP “Look What You Made Me Do”, em 2012, de que o punk sintético “Rockstars” seria o mote para um maior destaque da banda, garantindo-lhe uma repleta agenda de concertos durante o ano passado. Por oposição, saudável, em Portugal havia apenas o duo feminino Pega Monstro.

O método espontâneo de composição que utilizam (nunca planejando a direção que a música vai tomar) alcançou um nível mais elevado com o lançamento do primeiro álbum. Em “Really?!”, o álbum (ouça aqui), o som tradicional abraça diferentes tendências musicais como o casamento do blues e do indie no single “Restraining Order”, no ska meets grindcore de “New Rave” ou numa canção hipnótica de livre interpretação: “Kinda Do, Kinda Don’t”.

Durante a festa de lançamento de “Really?!”, no dia 25 de Janeiro, na Musicbox, em Lisboa, as garotas apresentaram um show fisicamente exigente. Ao longo de uma hora, Catarina martelou a bateria como se o fim do mundo estivesse próximo, Helena balançou e jogou charme ao público, Ana esteve compenetrada e Priscila exibiu a sua voz gutural. Com a sala cheia, destacaram-se a versão rock pauleira de “Restraining Order” (com direito a repetição) e a estrondosa rendição de “Dance”, com a participação da cantora Da Chick.

Enquanto as Anarchicks trabalham em algumas covers e a hipótese de fazer uma canção em português não é descartada, a mensagem do quarteto (embora não seja pensada para ter uma função prática e objetiva), aproxima-se mais de uma ideia de desafio ao conformismo. Quando Helena apelou à “luta pelos nossos sonhos”, no final do show na Musicbox, percebe-se o alcance do seu grito de guerra. De Lisboa para o Brasil, as Anarchicks conversaram com o Scream & Yell. Confira:

No trajeto da banda, qual foi o momento em que sentiram ter asas para voar?

As asas surgiram logo no primeiro ensaio e quando as coisas encaixaram e fizeram sentido. Nesse momento, olhámos umas para as outras e percebemos que havia matéria para explorar. Depois, a música do grupo ficou mais robusta quando nos associamos ao selo A Chifre. Eles têm cornos mas, com o seu trabalho, fizeram nascer novas asas em nós (risos).

As apresentações da banda são animadas e enérgicas. É no palco que se encontram as verdadeiras Anarchicks?

Sem dúvida! É no palco que se encontram as verdadeiras Anarchicks. O que nos move é a música e a possibilidade de a partilhar com o público. Felizmente são cada vez mais as pessoas que gostam do nosso som e quando tocamos revela-se um espírito forte e positivo, ou seja, aquilo que queremos transmitir. A capacidade de contagiar o público dá-nos muito gozo e em palco não só interagimos conosco mas, principalmente, com os outros e isso funciona muito bem.

Quem são as maiores influências do grupo?

É uma pergunta difícil de responder. Cada uma de nós tem gostos diferentes e da mesma forma que existem pontos comuns também temos outras influências. Ainda assim, sentimos muita estima pelas bandas femininas, de 1977, que iniciaram tudo o que nos move. Mas, agradam-nos também novos grupos e algum som eletrônico contemporâneo, que nos influencia e, talvez por isso, dê ao som das Anarchicks um frescor. Toda a experiência de vida e a música que escutamos até agora, como o punk, rock e riot girrl marcou o nosso trajeto. Por isso, tudo nos moldou e o grupo, absorvendo essas ideias, soará diferente.

“Really?!” é o primeiro álbum que sempre sonharam fazer?

Completamente! É um ótimo disco, feito em boa companhia e identificamo-nos muito com ele. Na realidade, revemo-nos em “Really?!”, porque o álbum apresenta bem a música das Anarchicks e é mesmo o menino dos nossos olhos e ouvidos (risos).

O single “Restraining Order” começa como um blues rock, mas desenvolve um espírito indie. A que se deve este contraste?

Quando compusémos “Restraining Order” chegamos a uma parte em que queríamos uma passagem diferente do componente bluesy inicial. A canção desenvolve uma certa bipolaridade pelo meio e a mudança que introduzimos dá-lhe uma certa graça, ficando mais calma. Há um pico de emoção, mais dinâmico e, particularmente, o twist faz com que a faixa fique mais interessante e permita novas leituras por parte do público.

Pretendem incluir o Brasil nos vossos planos futuros?

Se for possível? Claro! E, já agora, atuando com o Cansei de Ser Sexy do qual somos grandes fãs. A partir do momento em que falamos consigo o Brasil já está nos nossos planos e fica mais próximo. Futuramente, esperamos receber propostas para fazer shows lá. Seria um marco importante na nossa carreira.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui

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