Cinema: Argo, de Ben Affleck

por Otávio Augusto

Até o presente momento o filme “Argo” (2012), terceiro longa dirigido por Ben Affleck, não recebeu maiores atenções na temporada de premiações da crítica nos Estados Unidos. Porém, deve aparecer como um dos indicados ao Oscar de melhor filme do ano por todos os méritos de uma história genial conduzida por um talentoso diretor.

A história por trás de “Argo” tem como pano de fundo a revolução Iraniana que tirou o Irã de uma ditadura comandada pelo xá Reza Pahlavi, que tinha amplo apoio norte-americano em seu governo (ou, sendo mais claro, foi colocado no poder por EUA e Inglaterra após um Golpe de Estado arquitetado pelos dois países em 1953), para uma república islâmica comanda pelo aiatolá Ruhollah Khomeini.

Com a queda de Pahlavi após um governo que insistia em esmagar a oposição do clero xiita e os defensores da democracia, o ditador encontrou exilio nos Estados Unidos, deflagrando a crise política entre EUA e Irã em 1979 com a população iraniana indo às ruas e exigindo o retorno do xá para que pudesse ser julgado pelos anos de ditadura, crimes e torturas no país.

Pahlavi deixou o Irã em janeiro de 1979. O país era uma bomba relógio prestes a explodir. No dia 04 de novembro, a embaixada norte-americana em Teerã foi tomada por manifestantes iranianos e 52 funcionários feitos reféns. O episódio – conhecido como “crise dos reféns” pelo governo de Jimmy Carter – durou 444 dias até a libertação dos 52 presos políticos.

Durante a invasão da embaixada, seis funcionários norte-americanos fugiram sem conhecimento dos iranianos e conseguiram refúgio na casa do embaixador do Canadá. Cerca de dois meses depois, tem início a missão Argo, talvez o projeto mais mirabolante da história da CIA e dos Estados Unidos, visando salvar os seis norte-americanos.

O agente da CIA Tony Mendez (interpretado de forma regular por Ben Affleck) tem a ideia de pedir ajuda a John Chambers (John Goodman), premiado maquiador do filme “Planeta dos Macacos” (1973), para simular a produção um falso filme de ficção científica com locações no Irã e assim trazer de volta os seis funcionários escondidos na casa do embaixador.

O plano é simples, mas mirabolante. Com o sucesso de “Star Wars”, de George Lucas (1977), os filmes de ficção científica estavam em voga, e a ideia de Mendez era entrar no Irã sozinho, falsificar seis documentos de entrada no país, e trazer os seis funcionários da embaixada como se eles fossem de uma equipe de cinema e tivessem entrado no Irã para analisar locações.

Após convencer a alta patente da CIA (em dúvida sobre a viabilidade da missão) que essa era a única forma de retirar os reféns com vida, Tony Mendez parte para a Hollywood, onde vive um dos melhores diálogos do filme: “Você quer fazer um filme de mentira em uma semana. Quer mentir numa cidade onde todos vivem da mentira. Então você veio ao lugar certo”.

Affleck se esforça em criar tensão e suspense nas horas centrais do filme (e consegue), seja na exaustiva missão de fazer com o que os reféns decorassem todas as informações sobre suas falsas personalidades de equipe de cinema, seja na tensa sequência da feira, quando um cidadão iraniano se revolta com as fotografias tiradas pela falsa fotografa ocidental da equipe, ou na sequência final de tirar o fôlego.

Por outro lado, John Goodman e Alan Arkin (que interpreta o diretor de cinema Lester Siegel) rendem a parte cômica do filme, com suas atuações divertidas e tiradas impagáveis como “Se estou fazendo um filme se mentira, será um sucesso de mentira” ou o bordão (que o próprio espectador sai entoando do cinema) Argo Fuck Yourself!

Em seu livro, Tony Mendez releva que CIA e Hollywood trabalhavam juntos muitas vezes e não foi difícil convencer o maquiador John Chambers a ajudá-lo. A milionária indústria cinematográfica não atuava somente em entretenimento, mas também na política e – pelo que conta o agente secreto – foi o braço direito da CIA durante a Guerra Fria.

“Argo” ainda revela homenagens ao cinema norte-americano dos anos 70. O logotipo retrô da Warner logo no início e as cores do filme, como se fosse de uma película antiga, remetem a “Todos os Homens do Presidente” (1978), de Alan J. Pakula, “Sérpico” (1973) e “Um dia de Cão” (1979), os dois dirigidos por Sidney Lumet, entre outros.

A ótima trilha sonora joga na tela algumas pérolas como “Sultans of Swing”, single de estreia do Dire Straits em 1978, “Hip Hug-Her”, do álbum homônimo do Booker T. & the M.G.’s lançado em 1967, além de “Little T&A”, dos Rolling Stones e, principalmente, “When The Levee Breaks”, última música do clássico disco “IV”, do Led Zepellin, tocada num vinil.

Após “Medo da verdade” (2007) e “Atração Perigosa” (2010), Ben Affleck (que nunca entregou muito como ator) finalmente mostra suas credenciais de diretor no mínimo promissor nesta adaptação de uma história real, que foi escondida a sete chaves por quase 15 anos e revelada no primeiro mandado de Bill Clinton (1993), quando a missão deixou de ser confidencial (e se transformou em livro, reçem-lançado no Brasil pela Intrinseca).

“Argo” ainda traz como mérito o fato de apresentar aos norte-americanos desde o início (com a destruição dos documentos na embaixada) como os EUA manipularam nações e apoiaram regimes autoritários e torturadores. Um verdadeiro choque de realidade para o norte americano comum que, ainda hoje, enxerga o Oriente Médio como seu principal inimigo.

Reza Pahlavi morreu no exílio nos Estados Unidos, em julho de 1980. Os revolucionários iranianos acusaram os canadenses de traição pelo episódio Argo, mas, após serem invadidos pelo Iraque (sob comando do presidente Saddam Hussein) em setembro de 1980, começaram a negociar a libertação dos outros 52 reféns, que aconteceu em janeiro de 1981, 444 dias após a invasão da embaixada.

– Otávio Augusto (siga @otavioacunha) é historiador e fã de cultura pop

7 thoughts on “Cinema: Argo, de Ben Affleck

  1. Só não entendi o “finalmente mostra suas credenciais de diretor no mínimo promissor “. “Medo da Verdade” e “Atração Perigosa” são ótimos, principalmente o segundo.

  2. filme interessante já que mostrar bastidores da CIA virou moda na tv e cinema, mas as vezes passa a sensação de que se não fosse pelo bom elenco seria daqueles filmes do Supercine sobre a queda do avião em uma montanha no Chile e as pessoas precisam lutar pela sobrevivencia.

  3. Eu não achei o filme chato, ele é bom sim. Pelo menos o cara consegue passar a idéia e deixa bem claro a que veio. Quem sabe eu não o usarei nas minhas aulas.

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