Um tributo para Woody Guthrie

por Adriano Costa

Em 1995, o cantor e compositor inglês Billy Bragg recebeu um convite tentador: musicar poemas inéditos do cantor folk Woody Guthrie, falecido em 3 de outubro de 1967. Guthrie, um ícone da música de protesto nos Estados Unidos, influenciou nomes como Bob Dylan, Bruce Springsteen, Joe Strummer (The Clash) e o próprio Billy Bragg, que aceitou o pedido feito pela filha de Woody, Nora Guthrie. Bragg dividiu o trabalho com o Wilco, que serviu como banda de apoio, e 46 canções foram gravadas em 1998 (soma-se “The Jolly Bunker”, única recente, de 2009) resultando em três volumes: “Mermaid Avenue” (1998), “Vol. II” (2000) e “Vol. III” (2012).

Porém, antes do projeto ser oferecido a Billy Bragg, foi feito o mesmo convite para Jay Farrar e o seu Son Volt. É bom lembrar que Jay Farrar e Jeff Tweedy, do Wilco, faziam parte da mesma banda, a ótima Uncle Tupelo, que durou até 1994. Quando o trio Uncle Tupelo (que ainda contava com o baterista Mike Heidorn) encerrou as atividades, Tweedy montou o Wilco (cujo primeiro álbum, “A.M.”, seria lançado em 1995) e Farrar formou a Son Volt, que estreou com “Trace”, também de 1995, ano em que Nora procurava nomes de relevância do cenário musical para colocar melodia nos velhos poemas.

Billy Bragg e Wilco acabaram fazendo um grande sucesso com o projeto “Mermaid Avenue”, que foi nomeado ao Grammy de melhor álbum folk contemporâneo, rendeu um documentário (“Man In The Sand”, 1999), uma turnê conjunta e até uma reedição caprichada neste ano, com os dois álbuns originais mais um disco bônus de sobras das sessões e um DVD – chamada “Mermaid Avenue – The Complete Sessions”. E, em 2012, Jay Farrar (que ainda mantém o Son Volt e lança seus próprios discos solo) teve novamente a chance de visitar o baú do ídolo, e dessa vez não vacilou.

Convidado por Nora Lee Guthrie, que além de filha de Woody é irmã do também cantor e compositor Arlo Guthrie, Jay Farrar se pôs a fuçar os arquivos para organizar esse projeto, com o intuito de comemorar o centenário de nascimento do homenageado. Assim começou a nascer o álbum “New Multitudes”, lançado pela Rounder Records no começo do ano e feito em parceira com os velhos amigos Will Johnson (Centro-matic), Anders Parker (Varnaline e Gob Iron) e Yim Yames (My Morning Jacket e Monsters Of Folk).

“New Multitudes” oferece 12 canções na sua versão comum (existe também uma versão deluxe), forjadas tanto individualmente quanto em conjunto pelos envolvidos. Jay Farrar pesquisou mais de 3 mil textos de Woody e como inspiração usou de cadernos até revistas, desenhos e pinturas. Com produção de John Agnello (Sonic Youth, Dinosaur Jr.), temos um álbum que trilha estradas bem distantes do que poderia ser oportunismo e se consolida além da homenagem como um registro particular e independente.

Jay Farrar abre com “Hoping Machine”, uma canção sobre ser convicto e forte nos seus desejos e que tem o belo verso: “A música é a linguagem da mente que viaja”. Em “My Revolutionary Mind”, Jim James evoca os protestos de Guthrie e correlaciona isso com o desejo por uma “mulher progressista”. “No Fear” traz Will Johnson cantando sobre medo e morte, enquanto “Angel’s Blues” vem pesada, com guitarras densas e Anders Parker misturando saudade, orgulho e promessas.

O segundo disco que aparece na versão deluxe mostra 11 composições (uma 24ª música, “Let’s Multiply”, foi lançada como single em vinil apenas no Record Store Day), dessa vez somente com Jay Farrar e Anders Parker, mantém o nível elevado, se mostrando tão obrigatório quanto o primeiro. Nele, os temas explorados vão de guerra nuclear em “Word’s On Fire” até prostituição em “San Antone Meat House”. A sonoridade das faixas habita o mesmo universo explorado pelos criadores, indo do folk ao alt-country, com um pé no blues e no rock – sem medo de soar pop aqui ou acolá.

“New Multitudes” é o tipo de álbum que prende a atenção do ouvinte por completo. Seja pelo encanto das melodias ou pelas letras bem construídas. Uma elegante homenagem a Woody Guthrie que está no mesmo nível da já citada série “Mermaid Avenue”, só que com lados um pouco mais escuros. Com isso, o legado fundamental daquele que dizia que seu violão era “uma máquina de matar fascistas”, se prolonga e também se amplia para novos públicos, novas terras prometidas, novas multidões.

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– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

Leia também:
– “Mr. Love and Justice”, de Billy Bragg: mais amor do que política (aqui)
– “The Whole Love” tira o Wilco da monotonia dos discos anteriores (aqui)

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