Entrevista: Tom Zé

entrevista por Marcelo Costa

Tom Zé não para. Aos 75 anos, com um novo álbum na bagagem (“Tropicália Lixo Lógico”) e, consequentemente, com um novo show, o músico baiano (mais paulista que muita gente nascida nessa cidade) é tão irrequieto que fotografa-lo durante uma entrevista é praticamente um desafio. “Meus dias estão tão loucos”, ele conta, após alguns minutos de bate papo, e solta gargalhadas hilárias que poderiam servir de trilha sonora para explicar o clima deste texto.

A alegria é de fácil compreensão. Após lançar seu primeiro álbum, “Grande Liquidação”, em 1968, e passar os anos 70 quase chegando lá (com discos hoje clássicos como “Se o Acaso é Chorar”, 1972; “Todos os Olhos”, 1973; e “Estudando o Samba”, 1976) Tom Zé ficou seis anos sem gravar (entre 1978 e 1984), mas ressurgiu e, no novo século, já tem uma discografia tão vasta em 12 anos que se equipara a toda sua produção nos 32 anos do século passado (sem contar DVDs e o livro “Tropicalista Lenta Luta”, de 2003).

E tudo isso evitando o caminho mais fácil. “É a reversão do meio superaquecido”, responde quando indagado sobre sua defesa dos odiados motoboys (em “O Motobói e Maria Clara”). “É quando você vê uma coisa que está sendo considerada muito chata, e você tenta olhar de outra maneira”, explica. Outro exemplo: bastou o Secretário da Cultura na Paraíba, Chico César, negar investimento para “forró matéria plástica” que Tom Zé se animou a pesquisar o estilo: “Miles Davis fazia isso”, justifica.

“Tropicália Lixo Lógico’ é o melhor disco de Tom Zé desde que ele renasceu artisticamente”, grifou Caetano em texto para O Globo. Talvez porque “as canções são cantáveis”, arrisca Tom Zé, que conta com a companhia de Mallu Magalhães (em “O Motobói e Maria Clara” e “Tropicalea Jacta Est”), Emicida (“Apocalipsom A”), Rodrigo Amarante (“NYC Subway Poetry Department”) e Pélico (“De-De-Dei Xá-Xá-Xá”), todos indicados pela produtora Milena Machado. “Ela adivinhou pessoas que eu já conhecia”, diz o compositor.

A conversa que segue abaixo é recheada de momentos inusitados, como Tom Zé animado com a sugestão de pedir às fãs de São Paulo que arremessem calcinhas no palco (tal qual aconteceu no Rio) durante os shows, tanto quanto surpreso ao saber que a moça da capa de “Todos os Olhos” assinou um recibo comprovando o pagamento pelo trabalho – posar com uma bola de gude no anus –, o que, segundo ele, é “como um diploma de batalhadora contra a ditadura”.

O mistério de “Todos os Olhos”, porém, não terminou . Em entrevista a Carta Capital em 2010, o fotógrafo Reinaldo Moraes, responsável pelos cliques, diz que chegou a fazer várias imagens da modelo com a bola de gude no cu, mas as fotos não ficaram boas a ponto de enganar a censura. Optou-se pela boca, diz ele (aqui). Porém, Chico Andrade, na época sócio de Décio Pignatari e um dos chefes de Reinaldo, mostrou uma das possíveis tentativas, e diz que a imagem foi ampliada e estourada “até ficar imperceptível”. É um cu, ele garante (aqui). A dúvida apenas reforça uma das capas mais emblemáticas da MPB.

Uma entrevista com Tom Zé é quase um evento. Ele sai para pegar um suco, e conversa com todo mundo no caminho. Ganha um CD, e garante que vai ouvir. Quando volta pra sala, pede para o jornalista ficar mais próximo, esquece nomes, mas gira a reflexão de forma interessante para fechar o encadeamento de um pensamento de maneira genial. E gargalha. No fim, pede uma foto e agradece por uma ideia, da qual nem ele e nem o jornalista se lembra. “Me esqueci, mas vou lembrar”, garante. Com vocês, o felizmente irrequieto Tom Zé.

Para onde vai esse lixo lógico? Como está o show?
Eu espero que vá para o céu (risos). Primeiro de tudo, vai para o palco do Sesc Vila Mariana. (O show) são as canções do disco, com uma certa experiência, já que fizemos um lançamento no Rio de Janeiro e outro em Ouro Preto. A gente foi aprendendo que é uma facilidade trabalhar com esse disco porque as canções são cantáveis (risos). O público entra na nossa…

Como foi trabalhar com o Daniel Maia?
Nunca um produtor foi mais salvador da pátria do que no caso dele, que foi chamado de última hora, se meteu num rolo sem saber o que era (Daniel gargalha), e dai quando ele viu a gente só trazia problema, problema, e ele trabalhando como um louco, dia e noite dentro daquele estúdio.

Vocês já tinham trabalhado juntos?
Sim, mas não nessa função de produtor. Várias músicas que a gente ia gravar eu pedia para ele fazer arranjo, e a gente ficava muito feliz. Que ele era bom eu já sabia. Tocando também comigo há muito tempo… e nós trabalhamos muito naquela sala, dia e noite, noite e dia. Os ratos quando saiam diziam boa noite…

Como foi trabalhar com esse pessoal novo?
Eu não tenho tanta aproximação (com esse pessoal novo), mas a Milena Machado, que deu a ideia desses artistas, adivinhou pessoas que eu já conhecia. Por exemplo, eu fui a alguns dos primeiros shows dos Los Hermanos, então eu conhecia o (Rodrigo) Amarante de alguma maneira, o Marcelo (Camelo) também, que agora está casado com a Mallu (Magalhães), que eu tinha ficado amigo desde a hora em que ela começou com aquele negócio dela na internet. Nós fizemos um programa da Rádio Cultura juntos. O Emicida eu pedi para baixarem para mim. Ouvi algumas palavras que ele canta e fiquei besta com o que ele fazia. Quando a Milena sugeriu o nome dele, eu falei: que maravilha. Já o Pélico aconteceu de uma maneira engraçada. O Zuza Homem de Mello, um dia, passou uma hora inteira falando sobre o Pélico para mim, mas eu não sabia como ele manejava a canção, porque eu não tinha ouvido nada. Antes de eu ouvir qualquer disco, ele me mostrou uma canção que tinha feito brincando com meu nome. Então eu vi o jeito dele de pensar a canção. Ficamos muito amigos, pensamos de fazer coisas juntos, mas até agora não tivemos tempo. Tanto ele quanto a Mallu e o Amarante.

A Mallu participa da música dos motoboys. Como é essa sua visão deles?
É a reversão do meio superaquecido (risos). É quando você vê uma coisa que está sendo considerada muito chata, e você tenta olhar de outra maneira: então os caras estão lá ganhando a vida desse jeito duro, e todos nós com ódios deles. Como serão as fantasias deles e do que está em volta deles? Porque foi uma saída de emprego. Aqui em São Paulo nem se fale. Só não compreendo como as outras cidades ainda não têm (motoboys). Mas você chega na Inglaterra, ouve o barulho, e pensa: “Olha um motoboy de São Paulo”. A mesma motoca, o mesmo capacete, a mesma roupa: é de São Paulo.

Você já colocou uma meta de quantas calcinhas vão ser arremessadas no palco?
Ahhh, não. As calcinhas são no Rio…

As meninas de São Paulo não usam calcinha???
Hahaha, não fiz meta nenhuma porque não sabia que poderia ter aqui. No Rio, é engraçado isso, a primeira moça que jogou a calcinha (ela depois se apresentou como a primeira jogadora), a calcinha tinha o nome dela, a ideia, então ela levou essa calcinha embrulhada pra jogar. Acho que ela entusiasmou as outras meninas, que de repente estavam ao lado de uma pessoa de confiança, e pensaram: “Eu também posso jogar. Não vai fazer falta, no Rio de Janeiro, com esse calor…”. Então incentivei, e elas jogaram uma porção de calcinhas, depois eu lavei, fiz aquele negócio todo (devidamente registrado no vídeo “A lavagem das calcinhas voadoras”)… será que (acontece) aqui em São Paulo?

Não sei. Vamos armar isso (risos). Voltando no tempo: como foi pra você o fim do mistério da capa de “Todos os Olhos”?
Sensacional. Eu não sabia dessa história que você falou que a menina tinha recebido um recibo… mas é uma capa muito bonita mesmo. A Neusa imprimiu essa página do Chico Andrade para eu ler, ele era sócio do Décio Pignatari, mas meus dias estão tão loucos que nem li isso. O Décio tirou a ideia de uma canção chamada “Todos os Olhos”. Parece uma coisa humilhante para a mulher, mas considerando que durante toda a ditadura militar, esse (disco com o) cu estava exposto em uma vitrine na Praça da República, e a gente dizia, como quem estava fazendo um desaforo ao militarismo: “Vamos visitar o cu na Praça da República”, esse recibo pode ser encarado como um diploma de batalhadora contra a ditadura.

Você estudou o samba, o pagode, a bossa, e esse agora pode até ser entendido como um estudo da Tropicália…
Não posso dizer que não, mas eu achava que estudos tinham que ser só três, porque três é um número mágico. Porém, (se a gente pensar assim), o “Defeito de Fabricação” também é um estudo dos defeitos..

Tudo é estudo (risos). Então não vai surgir um “Estudando o Forró” ou um “Estudando o Rock”?
Ah, não. Que pena, né (risos gerais). Mas outro dia uma coisa me chamou a atenção: o forró matéria plástica. O Chico César, Secretário da Cultura na Paraíba, falou: “Com dinheiro público eu não pago forró matéria plástica”. Porque é um tipo de coisa muito popular e tal. Mas dai me lembrei do Miles Davis, que todo tipo de som que aparecia, ele fazia um disco. Pensei: vou fazer como Miles Davis. Peguei umas músicas de fórro matéria plástica, e teve um negócio ali que fiquei com muita inveja, uma música espetacular do Calcinha Preta. Na época, mostrei para todo mundo que ia lá minha casa. Apareceu o Vicente Barreto, que tira tudo, tentou, e eu disse: “Está errado (risos). Forró matéria plástica não é assim não, é de outro jeito”. Quem sabe…

Obrigado, meu caro. Nos vemos no show…
Vamos fazer uma foto porque eu quero guardar e dizer aos outros que foi você que me deu a ideia…

Do “Estudando o Forró”?
Não! Outra coisa que você falou! Me esqueci, mas vou lembrar. Me passa teu telefone que eu ligo quando lembrar…

– Marcelo Costa é editor do Scream & Yell e assina o blog Calmantes com Champagne.

– Fotos: Tom Zé na Virada Cultural de São Paulo, por Marcelo Costa; Tom Zé e Mallu Magalhães, por Natura Musical; Daniel Maia, Tom Zé e Rodrigo Amarante, por Flickr de Tom Zé

19 thoughts on “Entrevista: Tom Zé

  1. Sou grande fã do Tom Zé.
    Mas se a gente malha os duetos meramente comerciais da galera do mainstream como não condenar, embora tenham a ver aqui e ali com o dono do disco, o modo como as participações desse disco se deram?
    Ora, Dodó, é que imparcialidade é que nem cabeça de bacalhau. Tudo depende de quem se fala.
    Também acho um baita, como diria Neto, pé no saco esse bom mocismo politicamente correto de alguns para com os “oprimidos” – engraçado, os oprimidos na música são, em geral, ricos.
    Uma pena o Tom Zé tb cair nessa esparrela.
    Essa defesa do que não presta fica bem na boca do Caetano. Mais como bandeira, amarelada pelo novos tempos em que o empobrecimento musical parece não ter limites, e menos como o que de fato ele pensa sobre tais artistas.
    Um Reginaldo Rossi, um Odair José, um Waldick Soriano é uma coisa, já um Cavaleiros do Forró é outra.

    PS: Calcinha preta só é bom em mulher mesmo. E se for branquinha ou lourinha melhor. Morena ou negra fica melhor branca. 🙂

  2. “A gente malha”? Fale por você, José Henrique. Há diferenças, e mesmo quando é comercial é possível ter um bom resultado. Exemplos aos montes estão por ai (para o bem e para o mal) Depende muito do tratamento dado pelo artista que convida. No caso do Tom Zé, estes duetos (que ele mesmo já havia usado no “Estudando a Bossa”) são também de composição. Discordo desse olhar copo meio vazio.

  3. Falei por mim e por quase toda a torcida do Flamengo. Vc deve ser do América., Mac.
    Se é o artista que convida no meu modo de ver, mesmo que pareça, não é comercial.
    Meramente comercial é quando a gravadora/produtores enxertam fulanos que o dono do disco muitas vezes nem conhece – “fui ouvir o Emicida…” – com fins, digamos, marqueteiros.
    Soa fake, cara. Acho mala. Mas…

  4. “Estudando o Samba” é uma obra-prima, atestado de gênio. Fora isso, Tom Zé é um cara acima do bem e do mal. O cara foi tão injustiçado em seus tempos áureos que criticá-lo agora é até crueldade.

  5. Pô, Fabrício, é que gosto de cultivar a imparcialidade.
    Além do mais, acima do bem e mal nem Deus.
    Esse tb faz aqui e ali suas cagadinhas.

  6. Vou confessar uma coisa: em 2008 fui ver REM no Rio. Aí tinha um show do tom zé no circo voador no dia seguinte, aquele do estudando bossa nova. não aguentamos. os quatro se olharam no meio do show e dissemos ‘vambora daqui que isso tá muito chato’

  7. Meu primeiro show do Tom Zé é histórico! Foi no Itaú Cultural pouco depois da volta por cima. Tinha pouca referência dele e foi espetacular. Coisas como tomar um susto genuíno com a interpretação de Brigitte Bardot não tem preço. Depois peguei shows bons ou nem tão tanto, mas nenhum chegou perto do impacto deste primeiro. A questão das participações são polêmicas bobas. Tanto o Caetano quanto o Tom Zé usam isso como intervenção, seja artística quanto midiática. O Caetano exagera às vezes. Ouvindo esse último do Tom Zé vesse como ele incorpora e trabalha essas participações em em sua linguagem, mesmo que não tenha sido uma iniciativa dele chamá-los. O mesmo se aplica com a recriação em cima de trechos de obras suas e dos outros. Jucaju é construída toda em cima daquela vinheta do Transa do Caetano . Esse é mais um grande trabalho que aparentemente muitos julgam o melhor exatamente pela cutucada que ele deu de ser mais ‘ cantável’…

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