Entrevista: Skank voltando no tempo

por Marcos Paulino

“Hoje, infelizmente, a casa está relativamente vazia, uma pena. Mas é um público de gala, que vai ter a alegria, o prazer, de assistir uma banda que veio de Belo Horizonte e pela primeira vez se apresenta em São Paulo. É um som de ponta, é um momento histórico”. Com essas palavras, o apresentador chamou ao palco da Disco Reggae Night o Skank, para um show em 1991. Essa apresentação seria gravada, e, mais de 20 anos depois, daria origem a um disco, o recém-lançado “91”.

Na verdade, o show ocupa a segunda metade do álbum. A primeira parte traz 10 músicas gravadas no estúdio que funcionava na casa dos pais do baterista Haroldo Ferretti, sendo que sete delas entrariam no disco de estreia, independente, do Skank (que posteriormente seria relançando pelo Chaos, da Sony Music) – a versão de “Telefone”, canção da Gang 90 que você ouve abaixo, foi uma das que ficou de fora.

Antes disso, em 1991, o vocalista e guitarrista Samuel Rosa e o tecladista Henrique Portugal, que haviam saído da banda de reggae Pouso Alto, foram convidados para um show em São Paulo, e chamaram Haroldo e o baixista Lelo Zaneti para tocar com eles. Batizado de Skank, o quarteto se deu tão bem que resolveu seguir junto.

O resultado todo mundo sabe: os mineiros emplacaram uma série de sucessos e se tornaram uma das principais bandas brasileiras. O PLUG, parceiro do Scream & Yell, conversou com Henrique sobre a trajetória do Skank desde aquele remoto 1991.

Por que lançar agora um disco que remonta ao primeiro capítulo do Skank?
É um registro muito mais histórico do que um material de qualidade elevada, que mostra nosso primeiro show e as nossas experimentações em estúdio no início da carreira. É muito legal, principalmente pra quem está começando agora. Hoje qualquer um tem uma plaquinha de áudio em casa, mas normalmente gasta pouco tempo com as gravações. A internet é muito sedutora, então os artistas que estão começando gastam muito tempo divulgando músicas que gastaram pouco tempo fazendo. Esse é um dos grandes problemas da música atual. Na nossa época, gravar era um evento, era caro, então a gente se preparava muito.

O apresentador do show incluído no disco lamenta que a casa estava vazia. Como você se sentia naquele momento?
Show de banda que está começando só pode ser vazio. Ninguém te conhece numa cidade que não é a sua. Mas o que acho interessante é que a gente era muito focado. Sabíamos que era um lugar importante e que poderiam aparecer formadores de opinião. Por mais que o show estivesse vazio, e realmente estava, foi marcante para nós, tanto que resolvemos gravar pra saber o que tínhamos que melhorar.

Um dos motivos do lamento do apresentador é porque ele tinha a expectativa de que seria um show histórico. Vocês tinham noção do potencial da banda?
Se eu disser que a gente imaginava chegar aonde chegou, vou mentir com todas as letras (risos). A gente achava que poderia fazer um sucesso regional, e que estava fazendo uma coisa diferente, que poderia chamar a atenção.

Que paralelo você traça entre o som da banda que subiu ao palco naquela noite, bastante calcado no reggae, e aquele que o Skank faz hoje?
Prefiro falar sobre o que daquela banda sobrou pra banda de hoje. Permaneceu a vontade de fazer o que a gente gosta, que é tocar, criar, gastar tempo em estúdio. E ficou o respeito. Naturalmente que a gente amadureceu, mas a essência de querer fazer coisas novas permanece a mesma.

Lá se vão mais de duas décadas daquele show. Você sente que, nesse período, o público do Skank vem se renovando?
Por mais que nossa carreira seja longa, temos sucessos recentes. Às vezes, o grosso da carreira de uma banda remete à apenas uma época. Já nós temos “Garota Nacional”, que é de 1996, mas temos “Vou Deixar”, que é de 2004. E temos “Sutilmente” e “Ainda Gosto Dela”, que são de dois ou três anos atrás. Shows para grandes públicos no Brasil normalmente são locais de pouco conforto. E isso significa que o público é jovem.

Assim como o Skank, há várias bandas de sucesso que estão chegando aos 20 ou 30 anos de carreira. Você vê nas novas gerações sucessores à altura dessa turma?
Não só a música, mas o Brasil mudou bastante. Tivemos recentemente essa avalanche de sertanejo com um comportamento bastante pop de ser. Dizem-se sertanejos, mas são extremamente urbanos. A música tem modismos em ciclos, mas aconteceram outras coisas tanto aqui quanto no mundo. As bandas ficaram mais independentes, muito segmentadas. Tem poucos artistas novos que se tornaram mainstream, por isso ainda há Madonna, U2, Paul McCartney fazendo turnês. É uma transição da música, da forma como é divulgada, comercializada. Essa fragmentação dificulta muito o sucesso em grande escala. Então temos um tanto de bandinhas que fazem sucesso regional, mas não passam de 30 quilômetros da fronteira da cidade.

Depois desse disco retratando o passado, vocês agora pensam em lançar material inédito?
Não terá uma turnê do “Skank 91”, o mais provável é que incluamos nos shows algumas canções desse álbum. Às vezes, fazendo uma revisão do que você já fez, dá pra enxergar melhor o futuro. E devemos lançar um álbum de inéditas no ano que vem.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira

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