Entrevista: Boz Boorer

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por Leonardo Vinhas

Se você tem alguma referência acerca de Boz Boorer, provavelmente é a de que ele é “o guitarrista da banda do Morrissey”. E se você tem essa informação, deve supor que, junto com o também guitarrista Alain Whyte, ele é um dos responsáveis pelo ex-Smiths ter engrenado uma carreira solo bem mais interessante e menos irregular do que seus primeiros registros poderiam fazer supor.

Boorer se juntou à banda do velho Stephen na turnê de “Kill Uncle”, e tem participado de todos os seus discos a partir de “Your Arsenal” (1992). Porém, já tinha uma carreira pregressa bastante movimentada: havia lançado quatro discos com a banda de rockabilly The Polecats e trabalhado como músico de estúdio ou engenheiro de som para vários artistas, como David Bowie, Edwyn Collins ou Joan Armatrading. Tanto os Polecats quanto o trabalho nos estúdios continuam até hoje, ainda que como atividades encaixadas nas pausas de seu trabalho principal, que é o de diretor musical da banda do atual patrão.

Em 2001, lançou seu primeiro álbum solo, “Between the Polecats”, ao qual se seguiriam outros dois: “My Wild Life” (2003) e “Miss Pearl” (2008). Todos têm uma pegada fortemente rockabilly, o que não se repete em “Some of the Parts” (2012), seu primeiro lançamento pela Fabrique Records. “Some..”. é um disco multifacetado, uma pequena compilação de doze canções que vão do britpop ao lounge sessentista sem parecer uma colcha de retalhos formada por gêneros pop – uma unidade conseguida graças ao vocal muito pessoal do multiinstrumentista, e da produção muitíssimo bem-cuidada.

O estilo das composições de Boorer quase nunca remete ao seu trabalho com Morrissey. A métrica das letras e os arranjos vocais diferem muito, e os arranjos são menos bombásticos. “Turned to Stone” abre o disco com um clima sessentão, quase The Byrds. Já referências setentistas pipocam nos covers de “Saunders Ferry Lane”, do cantor folk John Howard; e de “Sunday Morning Coming Down”, de Kris Kristofferson e gravada por Johnny Cash (aqui num arranjo mais contemporâneo).

“Slippery Forces”, primeiro single do álbum, também passeia por essa época: é declaradamente inspirada no Mott the Hoople, mas também pode ser entendida pela melhor canção que Noel Gallagher não fez, ou algo pelo qual o Beady Eye seria capaz de vender o rim de um de seus integrantes.

O rockabilly ainda está lá, na versão de “Cast Iron Arm” (composição de Roy Orbison gravada por Peanuts Wilson em 1959), em “Tokyo Calling”, “Dr,. Jazz”, e mais “garageiramente” em “I’m Gonna Make Your Mind”. As pausas lounge (“Of Hooves” e “Bozanova”) são bem colocadas, mas “Jazz Interlude” é uma bobagem auto-indulgente. Já “Jackie Brown” é uma ponte entre os 1950 e os 1960, um belo paradoxo pop: saudosista e atual ao mesmo tempo. O tipo de coisa que vai conquistando aos poucos, emocionando…

Num clima leve e apaixonante, “Some of the Parts” se configura um bom disco, ideal para quem gosta de música inspirada pelo passado, mas registrada com os recursos atuais. Passa longe da preguiça retro: tem mais a ver com respeito e amor por formatos de canção que, mesmo já consagrados, ainda rendem muito.

Boorer fez uma pausa algo apressada em meio aos preparativos para a divulgação do álbum (a ser lançado oficialmente em 31 de agosto deste ano) para falar, por e-mail, com o Scream&Yell. A breve conversa segue, na íntegra.

Muitas das canções são bem “pra cima” e fazem recordar diferentes eras da música pop. Foi intencional?
Sempre escrevi canções me valendo de muitos estilos diferentes, mas essa foi a primeira vez que lancei um álbum solo usando alguns desses estilos.

Nota-se que os músicos estavam bem à vontade quando gravaram o álbum. Acredito que ter o próprio estúdio (Serra Vista, em Portugal) ajuda bastante nisso.
De fato, é um lugar bem escondido nas montanhas de Algarve, o lugar perfeito para trabalhar!

Já que você tem o estúdio por lá, não custa perguntar se você fala português. Pergunto por que daí eu teria um bom motivo para perguntar sobre música brasileira…
Eu tento falar português, e venho melhorando. Estou familiarizado com o fado típico de Portugal, mas não passei muito tempo no Brasil para conhecer a música. Ainda assim, curti os períodos que passei por aí.

Qual é o papel que as letras desempenham em suas composições?
Geralmente eu componho as bases e não escrevo as letras, embora às vezes elas surjam muito facilmente.

“Some of the Parts” já é seu quarto álbum de estúdio, mas você provavelmente ainda será citado como “o guitarrista do Morrissey”.
Bem, é meu trabalho principal e ocupa a maior parte do meu tempo, então presumo que deve ser verdade!

Você compõe com Morrissey desde o começo de sua parceria. Você sente que você e Alain Whyte são parte da sua sonoridade atual?
A carreira de Morrissey já estava em pleno movimento quando nos juntamos, mas creio que nossas composições a ajudaram a se tornar o que ela é agora.

E quanto às bandas do seu selo, NV Records? O que você pode nos dizer sobre elas?
A NV lançou discos de algumas ótimas bandas de rockabilly no começo dos anos 1990. Como um todo, eram bandas interessantes e bem gravadas, todas bem roqueiras. A maior parte do catálogo do selo foi posteriormente relançada pela Raucous Records. Houve algumas boas compilações de bandas ao redor do mundo – “20 Blasters From Blighty” foi a primeira, e também relançamos algumas bandas que estavam no selo Northwood, para o qual eu trabalhei nos anos 1980: Red Hot N Blue, Fireball XL5 Riverside Trio e outras.

Como sua experiência como engenheiro de som influencia sua postura como músico, e vice-versa?
Acho que andam lado a lado, a experiência em um ajuda no outro. Aprendi muito sobre diferentes estilos de música enquanto eu era um engenheiro local na Chrysalis por seis anos (nota: nesse período, Boorer trabalhou em discos de Adam Ant, Jools Holland e Kirsty MacColl, entre outros).

Embora musicalmente você caminhe em várias direções, você sente que de alguma forma ainda “pretence” ao rockabilly? Afinal, os Polecats ainda estão na ativa…
É um gênero musical que sempre amei, que tem sido muito bom para mim ao longo dos anos. Ainda sou obcecado com ele e coleciono discos originais de 45 polegadas.

Produzir, compor, tocar – você realmente vive de música para a música. Tem um conselho para a molecada que pensa em fazer o mesmo?
Praticar, praticar, praticar e então tocar com tantas pessoas quanto possível, e ouvir para aprender!

- Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Mais infos de Boz Boorer: www.facebook.com/bozboorer

Leia também:
- Morrissey ao vivo em Rosário e Buenos Aires, por Marcelo Costa (aqui)
- Discografia Comentada: de “Viva Hate” até “Years of Refusal”, os discos de Morrissey (aqui)

This entry was posted on Sábado, Agosto 18th, 2012 and is filed under Música. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

One Response to “Entrevista: Boz Boorer”

  1. fã do morrissey

    É Steven. :)

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