Entrevista: Os Pontos Negros

por Pedro Salgado, especial de Lisboa

Dois anos depois de “Pequeno-Almoço Continental”, Os Pontos Negros regressam com um disco mais homogêneo e maduro. “Soba Lobi”, gravado durante três dias no Abbey Road Studios, em Londres, a convite do selo Optimus Discos, e disponível para download gratuito (baixe aqui), é o retrato de um agrupamento que encara com naturalidade os dias presentes de menor hype por parte da mídia e do público português.

“Soba Lobi” é também um álbum com letras mais incisivas e uma tônica mais acentuada na desilusão. Gravado e mixado por Tiago de Sousa, o novo trabalho da banda assinala um reencontro com as suas raízes mais roqueiras, evidenciado no compacto “Tudo Floresce” e em canções como “Gabriela” e na ótima faixa que abre o álbum, “Senna”, que cutuca a crítica de forma direta: “Quem coloca etiqueta acredita que tem um dom”, provoca a letra.

Em um momento complexo da História mundial, com o fantasma da crise assombrando a Europa como um todo, e Portugal (Espanha, Itália e Grécia) em particular, Os Pontos Negros trafegam entre desencanto e salvação, afetados ainda pela posição que ocupam no cenário português: já não são novidade, então precisam batalhar para se manter num lugar de destaque mostrando relevância, o que faz de “Soba Lobi” uma bela carta de intenções.

De Lisboa para o Brasil, o vocalista e guitarrista Jónatas Pires e o tecladista Silas Ferreira conversaram com o Scream & Yell sobre o novo disco, e avisam: “Seria uma experiência fantástica poder tocar em São Paulo, Belo Horizonte e dar um salto ao Rio de Janeiro”. Confira todo o bate papo abaixo:

Como foram os três dias de gravações em Abbey Road Studios?
Foram ótimos (risos). Foi também uma experiência para a qual não estávamos preparados psicologicamente, porque é impossível. Só tivemos a noção do local quando passamos os portões, entramos e nos disseram: “Hello!”. Mas, como só tínhamos três dias para gravar tudo, a partir do momento em que estivemos presentes no Abbey Road Studios, o Tiago de Sousa entrou em modo de piloto automático, verificou se todo o material estava disponível e começou a montar tudo. Trabalhamos com muito equipamento antigo, tal como microfones dos anos 40, e disfrutamos de pouco tempo para processar aquilo tudo. Só no último dia é que pensamos mais no assunto. De qualquer modo, foi um acontecimento irrepetível, pelo fato de termos estado num dos locais mais exclusivos da música, e obtermos um tratamento reservado a um membro de pleno direito, desse grupo de pessoas. Fomos informados de que já não se gravam muitos discos de rock em Abbey Road, tirando algumas bandas do Japão e da Rússia, porque o preço de um dia de estúdio é muito elevado, o que também fez a nossa participação ser especial e única.

Sentiram-se, de algum modo, influenciados ou inspirados pelo local?
O que nos influenciou não foi a estadia em Londres, mas sim a nossa sala de ensaios. Continuamos a ensaiar num local, que pode estar bonito por dentro, mas continua a ser uma garagem. “Soba Lobi” é um disco de rock que, por acaso, foi gravado no Abbey Road Studios (risos). Como fizemos o trabalho de composição de uma forma muito rápida, pensando que só teríamos três dias para gravar o álbum, processamos as coisas de uma forma direta e sentimos que não íamos ter muito tempo para grandes invenções. E assim utilizamos os nossos trunfos: somos bons tocando como um grupo e temos uma química resultante de sete anos de trabalho. Foi isso que acabou por marcar a composição do disco. A experimentação resultou da forma como estavamos dispostos no estúdio. No som das guitarras, houve mais tempo para inovar e “Negrume”, penúltima faixa do disco, parte de um solo a quatro mãos, porque foram precisas duas pessoas para o gravar e foi algo que idealizamos no momento. De um modo geral, não tínhamos muito material para experimentar em Abbey Road e o que poderiamos utilizar lá seria pagamento extra. Mas, aproveitamos várias ideias que levamos de Portugal.

O disco recupera o rock direto de “Magnífico Material Inútil”, mas acrescenta-lhe duas ideias: desencanto e salvação. Qual foi a razão subjacente a estas opções?
Nunca tivemos intenções de fazer álbuns conceituais. Mas acaba por existir uma ideia de convergência. Muitas canções do disco têm presente a decepção e a frustração da morte e, por oposição, há sempre um conceito de salvação e redenção. Inicialmente, pensamos em chamar este trabalho de “Queda E Ascenção”. Podia ser um título presunçoso, uma vez que os Pontos Negros alcançaram um grande destaque e, ultimamente, perderam alguma atenção do público e da mídia. Ou seja, tivemos que descer alguns degraus para nos prepararmos outra vez para subir. É esse o conceito que percorre “Soba Lobi”: uma banda que já foi uma grande promessa e, de repente, tem de lutar contra uma série de preconceitos inerentes a esse status. Fazer o disco foi uma forma de abordarmos esse fato sem nos queixarmos. Sentimos que deixamos de ter um lugar especial, fruto das circunstâncias, e estamos aprendendo a viver com isso, como homens que somos. O trabalho tem uma toada mais negra e pesada do que os anteriores, mas isso não lhe retira vitalidade.

“Tudo Floresce” foi a carta de apresentação. Porque escolheram essa música?
Quando tivemos de escolher o primeiro compacto, “Tudo Floresce” era a música que fazia mais sentido. Poderá não ser o tema mais imediatamente radiofónico mas, naquela altura, pareceu-nos ser o mais óbvio, porque resumia a forma como nos sentíamos e o processo do novo disco. Para além disso, as gravações dessa música foram todas captadas em vídeo pelo Ben Monteiro (realizador do clipe) e, como tínhamos de fazer opções, durante as mixagens, sentimos que era a escolha preferencial.

Na música que abre o disco, “Senna”, a letra tem muita ironia. A quem se refere?
A música é um piscar de olho, descarado, a tudo o que Ayrton Senna representa. Porque, embora não sejamos fãs de Fórmula 1, todos gostamos dele. Durante a viagem do nosso último show revimos a temporada completa de 1989. Essa época ficou famosa devido ao fato de Ayrton Senna ter perdido o título mundial, por poucos pontos, e na qual Alain Prost deveria ter sido desclassificado durante a primeira corrida (saiu da pista e voltou a entrar, ganhando a prova). De certo modo, a canção é uma homenagem geral à figura de Ayrton Senna, muito para além do fenómeno automobilístico.

Como vem sendo a reação do público às novas canções?
Durante as nossas apresentações, o público divide-se em dois gêneros: pessoas que conhecem apenas duas ou três músicas ou que acompanham Os Pontos Negros e conhecem as canções todas. Sempre que tocamos para uma audiência familiarizada com o trabalho da banda, os novos temas passam bem e são cantados por toda a gente. Em locais onde somos menos conhecidos existe o fator surpresa, mas obtivemos boas reações. Até ao momento, as respostas têm sido positivas e, especialmente, tudo tem decorrido de uma forma muito natural e isso é ótimo.

O Brasil será contemplado nos planos futuros d’Os Pontos Negros?
Ele sempre esteve presente nos nossos objetivos. O mais complicado é encontrar uma forma que não signifique vender as nossas famílias, e tudo o que temos, para comprar as passagens aéreas (risos). O disco anterior teve um bom feedback no Brasil e esperamos que “Soba Lobi” chegue às mesmas pessoas e a mais gente. Do que depender de nós, pretendemos ir lá o mais depressa possível. Apenas aguardamos uma boa oportunidade e, se chegar um convite na nossa caixa de correio, responderemos afirmativamente. Seria uma experiência fantástica poder tocar em São Paulo, Belo Horizonte e dar um salto ao Rio de Janeiro, porque são cidades onde acontecem muitos eventos, com muitos artistas que gostamos e admiramos. Para nós, é inevitável falar do Los Hermanos, porque descobrimos essa banda quando começamos as atividades d´Os Pontos Negros. Eles influenciaram-nos muito e partimos à descoberta do grupo através dos álbuns. É um grupo que está ao nível de diversas figuras lendárias da história do rock. Temos outras referências como Apanhador Só ou o Garotas Suecas, das quais descobrimos afinidades mas, infelizmente, existe um oceano que nos separa. O nosso conjunto tem a consciência de que não fará carreira no Brasil, mas ficaremos realizados atuando lá e conquistando algum público.

“Soba Lobi”, Os Pontos Negros (Optimus Discos)
por Pedro Salgado, especial de Lisboa

O desafio, vencido, de gravar integralmente um disco em três dias atravessou a forma e a substância do novo trabalho d´Os Pontos Negros. Para aumentar a curiosidade dos fãs, o grupo retirou o título do álbum do refrão de uma música que o vocalista e guitarrista, Filipe Sousa, cantava nos ensaios. “Soba Lobi dava um ar estranho e psicodélico ao nosso disco e interessava-nos passar esta mensagem”, refere-se a banda.

No tema de abertura, “Senna”, para além da evocação do romantismo de Ayrton Senna, por oposição a outros pilotos de Fórmula 1, Os Pontos Negros recuperam uma estrutura frásica semelhante a “Duro de Ouvido” e enveredam por um rock de garagem animado com uma palavra de ordem evidente: “O meu combate não é com batida, os leões sou eu que trago na arena, este mundo prefere ser Schumacher, já eu prefiro ser Ayrton Senna”.

A sequência de canções iniciada em “Tudo Floresce” demonstra a coesão do grupo e a relevância da sua mensagem. Se o compacto é um feliz exercício de storytelling a meio gás, “Eu + Eu = Ninguém” é um quase manifesto rugoso sobre a mentalidade portuguesa em tempo de crise econômica. E a contagiante “Bom Homem” é uma das mais inteligentes combinações orgânicas, vocais e instrumentais, de “Soba Lobi”.

Com uma acentuação permanente e crua sobre os problemas do dia a dia, patente em faixas como “Prolongamos O Sonho”, o novo trabalho da banda atinge um ponto alto com a música “Gabriela”. Inspirada em “People Who Died”, de Jim Carroll, o tema narra a história de uma garota dos subúrbios, procurando encontrar um amor e encontrando a redenção pela morte. É uma composição rude, de quatro acordes, com um leve aroma punk e que transportou os Pontos Negros para um registo intenso e inigualável.

“Negrume” e “Ascenção”, fazendo jus às ideias mais fortes do terceiro álbum do conjunto, completam o leque das histórias cantadas. Nos tempos conturbados que Portugal e a Europa atravessam, o grupo respondeu com canções ásperas e lineares, mas não menos envolventes, que os recolocam no panteão da moderna música portuguesa. E a via seguida pela banda não será alheia aos seus seguidores.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui

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