Show: Tributo à Legião Urbana

Tributo à Legião Urbana
30/052012 – Espaço das Américas, São Paulo
Texto por Bruno Capelas
Fotos por Mariana Caldas

“Quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”, cantou Renato Russo em 1986, na música “Eduardo e Mônica”, um dos maiores sucessos de sua banda, a Legião Urbana. Vinte e seis anos depois, essa frase, que serve como moldura para uma das histórias de amor mais conhecidas do Brasil, funciona como uma luva para explicar o que foi o tributo à banda de Brasília feito pelo ator Wagner Moura e pelos dois legionários remanescentes, o guitarrista Dado Villa-Lobos e o baterista Marcelo Bonfá. Em ideia orquestrada mercadologicamente pela MTV, os três, com a ajuda de convidados especiais, realizaram dois shows no Espaço das Américas, em São Paulo, nos dias 29 e 30 de maio de 2012. E o que se viu no espaço de eventos da Barra Funda, que conta com um dos piores sistemas de som da cidade, foi uma disputa entre a razão e o coração.

Na entrada, o ambiente parecia um pouco diferente do que se imaginaria para um tributo. Estandes da Fiat e da Natura preenchiam o lugar, com direito a modelos passeando pelo local, cuja única função era “serem bonitas”. Muitas luzes e uma pista premium localizada na lateral direita da casa de shows também criava um efeito estranho na plateia. A sensação era de estar num parque de diversões, com entretenimento programado (e totalmente sem surpresas).

Quando subiram ao palco, Wagner, Dado e Bonfá foram aclamadíssimos pela plateia (como era de se esperar), e aproveitaram para enfileirar de uma vez só cinco faixas de “Dois”, o segundo álbum da Legião, intercalando hits (“Tempo Perdido”, “Quase Sem Querer”, “Daniel na Cova dos Leões”) e lados-B (“Fábrica” e “Andrea Doria”, esta última com a participação de Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, na guitarra e nos vocais). Essa mescla entre grandes sucessos e faixas que só os fãs mais ardorosos da banda sabiam cantar de cor fez a tônica da noite. Pouquíssimos “setlists ideais” – aqueles que os Rob Flemings da vida perdem horas fazendo – incluiriam “Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar”, faixa que encerra “As Quatro Estações”, ou “Esperando por Mim”, obscura faixa de “A Tempestade”, último disco lançado pela banda com Renato ainda vivo (e nunca cantada ao vivo pelo ex-vocalista).

Técnica e artisticamente falando, foi uma noite medíocre, no sentido mais explícito da palavra. Vamos aos fatos: a Legião Urbana, seja em palco ou em estúdio, nunca se destacou por suas virtudes instrumentais. Ficou famosa a blague do próprio Renato Russo, no “Acústico MTV”, que diz que todos os sucessos da banda poderiam ser tocados com apenas três acordes. Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá não são grandes virtuoses – apenas cumprem bem o que prometem, mesmo prometendo pouco. A grande força da Legião estava, quase sempre, no poder de suas canções e na interpretação expansiva de Renato Russo. Além disso, Wagner Moura é um grande ator, mas seu trabalho como músico serve apenas a título de curiosidade. (Para quem não sabia, ele tem uma banda, a Sua Mãe, que mistura pós-punk com música brega, soando como uma filha bastarda de um casamento de Morrissey com Odair José). A certa altura da noite, suas desafinadas já tinham se tornado tão costumeiras que não valia a pena nem se importar muito com elas, para não falar nas várias vezes em que o ator jogava as notas mais altas de certas músicas para a plateia cantar.

As participações especiais que rechearam a noite pouco ajudaram no sentido de melhorar a parte técnica. Fernando Catatau, um dos melhores guitarristas brasileiros em atividade, teve pouco espaço para mostrar o que sabe em “Andrea Doria”. Andy Gill, guitarrista do Gang of Four, banda que foi influência para 11 entre 10 bandas brasileiras dos anos 80, devia estar pensando o que raios estaria fazendo ali, vendo sua “Damaged Goods” sendo destroçada por um andamento comprometedor e pelo vocal claudicante de Dado Villa Lobos. Bi Ribeiro, o baixista dos Paralamas do Sucesso, estava lá pela coerência histórica, e ajudou na cozinha da banda, ainda que tenha sido pouco percebido pelos presentes, graças à equalização mal feita do som. O arranjo “inovador” para “Geração Coca Cola”, com direito a pegada bluesy e gaita, também entrou para a lista de coisas broxantes da noite – e fez transparecer o lado coxinha de Dado Villa-Lobos. Um homem, postado à beira do palco, xingou a progenitora do guitarrista pela versão bizarra. Dado respondeu com gritos de “tira”, e segundos depois, os telões do Espaço das Américas mostravam o ofensor sendo retirado dali pelos seguranças do local.

Mas, apesar das luzes, das placas de patrocínio, do carro estacionado no meio da pista e dos garçons que passavam com copos e baldes de pipoca pra lá e pra cá, havia um ingrediente ali que foi capaz de superar todos os problemas. Era como se alguém quisesse realmente dizer que não havia razão, e que a beleza e a mensagem das canções escritas por Renato e seus parceiros seria capaz de suplantar qualquer coisa. Por mais que se tentasse, era difícil não se arrepiar quando as 8 mil vozes presentes no Espaço das Américas berravam frases batidas que eram recuperadas naquele instante, como “somos tão jovens” ou “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.

A presença de Wagner Moura no palco era outro fator que fazia emocionar a plateia. Sim, ele desafinava muito, de maneira até quase vergonhosa – teve gente que falou pra ele sair do karaokê. Mas, antes de ser o Capitão Nascimento, ou o Homem do Futuro, ou Olavo, ele também tinha sido um adolescente fã da Legião Urbana. E era possível acreditar facilmente em sua sinceridade quando ele falava apaixonadamente sobre como a sua geração (e as posteriores) tinham tido suas vidas mudadas pela banda de Brasília. Wagner estar naquele palco simbolizava, para os 8 mil presentes – e para quem assistia o show pela TV – que qualquer fã da Legião, como todas as milhares de pessoas que ainda compram os discos da banda todos os anos, poderia estar ali, cantando aquelas músicas, acompanhando Dado e Bonfá no que é prometido como o último show dos dois juntos.

É triste dizer que talvez não fizesse diferença para o público do lugar se, ao invés de músicos de carne e osso, mostrassem-se ali hologramas de Renato, Dado e Bonfá. Mas, por outro lado, os coros em “Há Tempos”, “Quando o Sol Bater na Janela do Seu Quarto” e “1965 (Duas Tribos)”, só para citar três, mostravam que as letras e as melodias da Legião permanecem atuais e relevantes (no caso de algumas canções, isso não é exatamente uma boa coisa) não só para quem viveu junto com a banda, mas também para aqueles que a conheceram apenas em disco. A Legião Urbana fez o tipo de experiência que não se repetirá na cena musical brasileira, seja em termos de mensagem ou de longevidade. Os Los Hermanos – que por uma coincidência, tocariam no mesmo Espaço das Américas no dia seguinte – até podem ter uma relação similar entre artista e público, mas esta é de natureza totalmente diferente, muito menos politizada e mais sentimental.

No final do bis, que deveria ter sido encerrado com “Será”, a plateia gritou em uníssono pedindo por “Faroeste Caboclo”. Ali, aconteceu uma daquelas experiências difíceis de serem explicadas para quem não esteve lá. Foram dez minutos de transe coletivo, em uma das músicas que ainda melhor explicam o Brasil, vinte e cinco anos depois de ter sido gravada em “Que País É Este? 1978-1987”. Pouco importava o som ruim, a banda fraca, e o contexto todo ali à volta, o que fazia a diferença era a história épica de João de Santo Cristo, desafio de toda rodinha de violão que se preze. Ao final, com os olhos marejados e os pelos do corpo arrepiados, os oito mil presentes ainda tiveram tempo de ouvir, ecoando pelos alto-falantes, a gravação de “Por Enquanto”, indo todos de volta para casa após se reencontrar com o passado e com grandes canções, tentando entender a razão das coisas feitas pelo coração, que câmera nenhuma conseguirá captar.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista, escreve para o Scream & Yell desde maio de 2010  e assina o blog Pergunte ao Pop.

Leia também:
– 15 anos de morte de Renato Russo, por Ismael Machado (aqui)
– Clássicos do Rock Nacional: “Dois”, da Legião Urbana, por Tiago Agostini (aqui)
– DVD “Legião Urbana e Paralamas Juntos” é um retrato exemplar, por Marcelo Costa (aqui)
– Mônica e Eduardo, uma análise comportamental, por Adolar Gangorra (aqui)
– Top 20 Melhores dos anos 90 Scream & Yell: dois álbuns da Legião Urbana na lista (aqui)
– Entrevista: Henrique Rodrigues, organizador do livro “Como Se Não Houve Amanhã” (aqui)
Matérias Antológicas: “Alfredinho”, o missionário que se vai, por Marcelo Rubens Paiva (aqui)

18 thoughts on “Show: Tributo à Legião Urbana

  1. Tem uma expressão que define tudo que foi essa parada: necrofilia da arte… Dado e Bonfá continuam fazendo render o cadáver de renato russo, o único talento mesmo da banda…

  2. Nunca gostei muito da Legião, salvo uma ou outra, mas sempre respeitei a integridade artística do Renato Russo.
    Pena que os colegas dele não respeitem.

  3. “Quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”
    ???????????????????????????????????????????????

  4. O Wagner Moura pagou o pato e virou motivo de piada, mas ele é o que tem menos culpa nessa vergonha alheia total. Ele só realizou um sonho que todo fã que se preze tem: se colocar no lugar de seu ídolo. Já Dado e Marcelo, só encheram o bolso com uma apresentação desnecessária e medíocre, pra dizer o mínimo. É de sujar o nome mesmo…

  5. A quantidade de canções pop certeiras da
    Legião Urbana. Impressiona a capacidade do grupo em construir músicas
    que, ao contrário do que muitos criticam, não se tornaram datadas. É
    um repertório invejável.
    E Moura? Se portou a altura da missão. Encarnou duas personas em uma
    só. A de ator e de fã. Como ator, buscou ser o personagem cantor.
    Desafinou aqui e ali? Sim, mas vamos lá, tirando Roberto Carlos e
    alguns poucos mais, quem não desafina no palco? O pessoal da axé e do
    sertanejo já tem inclusive uma estratégia, a de botar o pessoal pra
    cantar na hora que o bicho pega.
    O que importava ali era a emoção do momento. E isso Wagner Moura soube
    captar. Soube entender que mais importante era a homenagem, o tributo.
    Não quis ser mais nem menos. E aí entra o fã.
    O fã Wagner Moura estava tão em êxtase quanto o público. Olhava para
    Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos com a admiração de quem passou parte
    da vida escutando os caras e agora estava ali, ao lado, cantando as
    mesmas músicas que embalaram momentos não só dele, mas de cada uma das
    oito mil pessoas que ali estavam.
    E isso foi o diferencial. Cada um ali podia se imaginar no lugar de
    Wagner Moura. Cada um podia se dar ao direito de pensar que aquele
    momento poderia ser seu. Sonhos particulares. Essa é uma das magias
    da música pop. Ela permite o sonho, a identificação.

  6. Mais do que datadas, as músicas da Legião na verdade têm faixa etária definida, como nos filmes. Poucas são pra maiores de 30 anos – levando em conta a prorrogação da adolêscencia nos dias atuais.
    O Renato dizia as coisas de forma muito ginasiana. O Cazuza dava um pau nele nesse sentido. Ele tá para o Cazuza assim como o Emicida está para o Criolo, por exemplo.
    Quanto a emoção justificar tal show, sou um de seus maiores entusiastas. Afinal, se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu senti. Já dizia o Rei,
    Porém, ah porém, acho que a cretinice desse show foi maior – vi as 5 primeiras músicas desse show e devo concordar que o páreo é duro – que ela.

  7. Meu caro Zé Henrique, e o que é música de “adultos” para vc? O que pessoas como eu, que está acima dos 30 deve ouvir??? Me explica aí. Qual a música que todos os adultos devem ouvir? Marisa Monte???? Ou devemos ficar ouvindo só a JB FM??? Não me leve a mal, mas fiquei curioso com a sua colocação. Ah, e não sou fã da Legião reclamando, é só curiosidade.

  8. Acho que isso aí é reflexo de um mainstream falido. De gravadoras-zumbi que preferem apelar pra esse tipo de coisa do que investir em bandas novas. O pior é que a cada 5 anos terão mais homenagens picaretas desse jeito aí para “inesquecível” Legião Urbana. Triste mais verdade.

  9. “O Renato dizia as coisas de forma muito ginasiana. O Cazuza dava um pau nele nesse sentido. Ele tá para o Cazuza assim como o Emicida está para o Criolo, por exemplo.
    (…) acho que a cretinice desse show foi maior (…) que ela.”

    cá estou eu concordando com Zé Henrique.
    não é sempre que isso acontece.

  10. Bem, Amaury, qualquer pessoa deve ouvir o que bem entender em qualquer época da vida – até a Xuxa se vc quiser deve ouvir felizão da vida. Há de ser tudo da lei, como diria Raul.
    Não quis cagar regra nesse sentido, seria bem ridículo. Só quis sublinhar que na minha opinião as letras do Renato, falando a grosso modo da vida de um homem de inteligência(tb emocional) mediana, são pra pessoas mais verdinhas nas questões que afligem a alma humana.
    Agora, se o parâmetro é a atual Marisa Monte com sua fase tatibitati ele vira gênio.
    Citando novamente Raul: Eu avalio o preço me baseando no nível mental que vc anda por aí usando.
    Olha que interessante. O Raul sempre escreveu simples, de maneira coloquial, mas nessa simplicidade falava coisas profundas.
    Portanto, não confunda ser ginasiano com ser simples.

    PS: Ora, ora JW, pensei que isso nunca acontecesse. Rssrsrs

    Abraço

    PS:

  11. Wagner Moura cantou mal pra caralho.
    Dado e Bonfá nunca foram bons músicos.
    As letras do Renato Russo são pueris.
    Concordo com todas as frases acima, mesmo assim, assisti o show pela MTV e , depois de 20 anos, cantei junto, com poucas exceções, quase todas. Me emocionei? Não, mas me lembrei com saudosismo de uma boa época de minha vida. Foi legal. Passou e vou passar mais 20 anos sem querer ouvir legião de novo

  12. me baixou uma dúvida…quer dizer que se vc assistir a um filme como ABC do Amor, Minha vida de cachorro, quase famosos e conta comigo, que falam de fases bem específicas como infancia e adolescencia, e gostar, é porque o nível é ginasiano? Só para entender, porque meu nível de entendimento é baixo mesmo, assumo minha inguinoranssia

  13. A dúvida é capsiosa, Ismael.
    Afinal, pode-se fazer filmes sobre a infância e adolescência sem ser ginasiano.
    No mais, não há problema algum em gostar de baboseiras.
    O problema é não considerá-las desse modo.
    Tê-las como referência.

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