Entrevista: A Curva da Cintura

por Marcelo Costa

Dois brasileiros, de São Paulo, e um malinense, de Bamako, formam o projeto A Curva da Cintura, uma união musical da América do Sul com a África. Os dois paulistas são parceiros bem conhecidos do público: Arnaldo Antunes (ex-Titãs e Tribalistas) e Edgard Scandurra (Ira!). Já o africano Toumani Diabate não é famoso no Brasil, mas já ganhou dois Grammys (em 2010 e 2011) na categoria melhor álbum de Traditional World Music.

Toumani Diabate toca kora, uma espécie de harpa com 21 cordas: “Fiquei intimidado em toca-la”, confessa Scandurra, um dos melhores guitarristas brasileiros. “Um dia voltarei ao Mali e terei a minha própria kora”, garante o músico, que passou duas semanas no país africano junto com Arnaldo gravando o álbum “A Curva da Cintura”, com canções 18 faixas intimistas e delicadas, que ganharam um colorido especial com o acréscimo não só da kora, mas também do balafon, do calebasse, do djembe e do soku.

“Mali é o berço do blues, do rock. A África é o berço do samba. Foram aulas diárias de ritmos e improvisos fantásticos”, relembra Edgard Scandurra. O primeiro encontro aconteceu no festival Back2Black, no Rio, e a química foi imediata, e estendeu-se não só à música, mas também a culinária. Segundo Edgard, que também é dono de um restaurante em São Paulo, a boa pedida no país é o “cabrito recheado com cuscuz a moda malinense”.

“A Curva da Cintura”, o álbum, foi lançado em novembro de 2011, e conta com a produção de Gustavo Lenza, e o registro em vídeo da reunião ficou a cargo de Dora Jobim, rendendo um documentário em parceria com a MTV. Para saber um pouco mais sobre o projeto, o Scream & Yell conversou por e-mail com Scandurra. Abaixo o papo:

Como foi a experiência não só de gravar em Mali, mas de conhecer a cultura e a musicalidade do povo?
Foi incrível e inesquecível! Mali é o berço do blues, do rock. A África é o berço do samba, de grande parte de nossa cultura. Muita musicalidade e amabilidade. Aulas diárias de ritmos e improvisos musicais fantásticos!

Como você definiria o som do A Curva da Cintura?
Difícil de definir. Ele partiu do minimalismo, mas tornou-se maximalista, com camadas de novos sons do Toumani e seus músicos. Temos um modo de compor, eu Arnaldo, que parte de algo pós-punk, mas com o Toumani ficou realmente algo novo em termos musicais.

E o primeiro contato com ele ali no Back2Black, como foi?
Nos identificamos imediatamente. Nos primeiros acordes nos demos bem. Eu adoro improvisar e Toumani também. Dai partimos pra tocar a música que surgisse em nossas mentes. Foi o que nos levou ao Mali.

Você chegou a se aventurar a tocar o kora?
Confesso que fiquei intimidado em tocar aquele instrumento. Tenho certeza que um dia voltarei ao Mali e terei a minha própria kora.

Na faixa que dá nome ao projeto você toca, entre outras coisas, cavaquinho. Você havia tocado esse instrumento em outros álbuns?
Já toquei banjo, violino, pandeiro, campainha, mas nunca tinha tocado cavaquinho na minha vida. Me senti muito a vontade para tocar todos os instrumentos que fossem necessários para criar a ponte entre nossa música e Toumani.

No álbum aparecem outros instrumentos como o balafon, o calebasse, o djembe e o soku? O que são esses instrumentos? Vocês conheciam algum deles?
O balafon e o djembe sim, não são estranhos para os brasileiros. Os outros realmente foram gratas surpresas. Todos são instrumentos usuais da música africana, especialmente no Mali.

Para pessoas que tem um trabalho caracterizado por uma abertura musical tão ampla, como esse álbum se encaixa na trajetória sua e do Arnaldo?
Acho um disco importante, pois transcendeu a nossa capacidade de compormos juntos, criando um novo som e acho que isso é uma qualidade que procuramos manter, tanto em minha carreira solo, como a do Arnaldo.

Se um dia algum leitor do Scream & Yell for para mali, o que deve comer lá? O que te impressionou?
O cabrito recheado com cuscuz a moda malinense é uma boa pedida. Impressionou-me o hábito que eles têm em comer juntos, num mesmo grande prato. Algo ritualístico. Deu-me a impressão que eles comem assim há séculos.

E o que você lembra ou acha que possa ter surpreendido o Toumani aqui no Brasil?
Tivemos um breve contato aqui no brasil. Sinto que Toumani ainda vai se impressionar muito com o Brasil. Espero encontrá-lo em breve para uma turnê por aqui.

Como você imagina que vão ser os shows? O que o público pode esperar?
Acho que teremos momentos mágicos juntos no palco, e isso o público pode esperar. Levaremos as pessoas ao Mali numa viagem em primeira classe!

4 thoughts on “Entrevista: A Curva da Cintura

  1. Legal hein essa música, esse projeto, mas também com participação de pessoas fantásticas não tem como ficar ruim.
    Parabéns por compartilhar..:D

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