Codeine: distantes e permanentes

por João Eduardo Veiga

A codeína (C18H21NO3) é um analgésico cuja potência pode ser situada entre a da aspirina e a da morfina: forte demais para o tratamento de uma cefaléia corriqueira, insuficiente para anestesiar o corpo por completo. Seu uso, apesar de aplacar a agonia física, está longe de proporcionar a euforia relacionada a outros opiáceos. A sedação parcial, ao mesmo tempo em que abafa choro e grito, transforma dor em desatino e induz a uma sonolência marcada por apnéia e pesadelos.

Da receita ao conceito, a banda nova-iorquina Codeine surgiu em 1989 incorporando a seu som todas as reações — úteis e adversas — do medicamento. Uma voz quebradiça acompanha, fonema a fonema, o andamento hesitante da canção até ser definitivamente minada pelas notas e batidas. Por mais que as letras transbordem desespero ou as guitarras se inflamem aos últimos decibéis, a inércia e a resignação dão o tom a todo o repertório.

Após dois LPs e um EP, o Codeine entrou em um longo estado catatônico que será finalmente revertido. Seu primeiro show em 18 anos foi anunciado entre o line-up de 2012 do I’ll Be Your Mirror, subfestival do All Tomorrow’s Parties, que, em maio, reunirá em Londres artistas como Chavez, Dirty Three, Melvins, Afghan Whigs e Slayer sob a curadoria dos músicos do Mogwai — que sempre explicitaram a influência do Codeine em seu post-rock. Em seguida foram confirmadas outras sete datas e o relançamento, pelo selo Numero Box, de todos os discos em edições especiais.

Sem deixar de lado um certo silêncio que, entre os acordes ou entre as décadas, é ingrediente essencial ao Codeine, os integrantes originais do grupo — Stephen Immerwahr (vocal e baixo), John Engle (guitarra) e Chris Brokaw (bateria), os mesmos que subirão aos palcos na nova turnê — conversaram sobre sons, sonhos, estados psicológicos, catarse, slowcore e grunge em uma troca coletiva de e-mails.

Stephen: A essência de nosso estilo musical foi concebida antes de Chris se juntar a nós, talvez antes mesmo de eu ter ensaiado com John pela primeira vez. Na verdade, quando descrevi o conceito do Codeine, John chegou a me perguntar se eu achava que alguém teria a coragem assumir as guitarras de uma banda como aquela. Mas, assim que nós três nos reunimos para tocar e, principalmente, para ouvir o que estávamos fazendo, começamos a nos surpreender com o rumo que as coisas tomavam por conta própria. E isso foi bem empolgante.

Chris: Eu e Steve estávamos interessados pelo punk e pelo pós-punk, mas nos aproximamos por conta de nosso entusiasmo mútuo em relação a Nikki Sudden & The Jacobites.

Stephen: Três canções particularmente influentes para mim naqueles dias foram “I Wish I’d Never Loved You”, da Dusty Springfield, lado B de “All Cried Out”; “Just Out of Reach”, do The Jesus and Mary Chain, lado B de “You Trip Me Up”; e as duas versões de “Big Store” gravadas pelos Jacobites. E John fez com que eu ouvisse muito o primeiro disco do The Fall, “Live at The Witch Trials”, que foi de onde veio o título do “Frigid Stars” [a faixa “Crap rap 2/ Like to bow” carrega o verso “Don’t fuck with us, we are frigid stars”].

John: Bem, eu realmente fiz Steve gostar daquele disco do The Fall, mas, fora o título do LP, não sei até onde ele levou essa influência. Não havia muitas referências além da vontade de criar algo muito simples (o único de nós que sabia realmente tocar um instrumento era o Chris) e capaz de produzir, em vez de um som violento que fosse absorvido com facilidade, uma presença distante e permanente.

O álbum de estreia, ”Frigid Stars”, abre com “D”, conceito escolar que, entre o A e o F, representa o cúmulo da mediocridade. E o narrador da canção assume estar tirando “D em empenho”, “D em disposição”, “D em amor”, “D porque é você quem paga o aluguel”. Outros versos ganham contornos mais expressionistas, como os relatos oníricos de um rosto em estado de putrefação em “Cave-in”.

Stephen: Eu buscava as letras em sonhos com outras pessoas ou as escrevia a partir de fragmentos polidos de estados psicológicos. Uma coisa ou outra era mais direta, como os versos de “Gravel bed”: “John thinks I’ve been sad enough/ But I just can’t agree/ It’s not so sad for me” [John acha que já estive triste o bastante/ Mas simplesmente não posso concordar/ Para mim isso não é tão triste assim]. Sim, “John” é o John e “mim” sou eu; por outro lado, sempre achei isso muito engraçado.

Gravado no verão de 1990, “Frigid Stars” foi imediatamente prensado e distribuído pelo selo independente alemão Glitterhouse. O álbum demorou até o ano seguinte para ser disponibilizado nos Estados Unidos, o que aconteceu literalmente em meio à invasão grunge: o lançamento ficou a cargo da Sub Pop.

Chris: Criou-se uma mitologia instantânea relacionada à Sub Pop, o que provavelmente nos rendeu alguma exposição, mas sempre fomos os excêntricos do selo.

A Sub Pop havia acabado de apresentar ao mundo grupos como Mudhoney, Soundgarden e Nirvana.

Chris: O sucesso do Nirvana me parecia bastante peculiar, um tanto inexplicável. O “Nevermind” virou algo gigantesco no mês em que o Codeine realizou a primeira turnê pela Europa. O disco tocava em todos os lugares. E aquilo para mim soava como Ozzy Osbourne ou The Offspring, era um tipo de pop metal. Até hoje não consigo entender por que aquela febre foi considerada um episódio tão importante, uma reviravolta cultural. Era o arquétipo de uma postura adolescente e irresponsável, algo completamente diferente do que estávamos tentando fazer. Havia uma constante catarse na música do Nirvana, coisa que definitivamente não tinha nada a ver com o Codeine.

Mas não há dúvidas de que, naqueles dias, a angustia era a base do rock norte-americano. Em Seattle, o resultado foi a explosão que ficou conhecida como grunge. Em outros cantos do país, no entanto, as dores e aflições de uma geração acabaram por se interiorizar. Era uma letargia densa e contagiante, que, a partir do Codeine, em Nova York, se espalhou até o Kentucky, de onde o Slint saiu para gravar o influente “Spiderland”; abraçou o Seam, da Carolina do Norte; aliciou um de seus representantes mais duradouros, o Low, em Mineápolis; e chegou até o Texas, terra do Bedhead.

John: Nós fizemos uma preleção e outras bandas possivelmente tomaram nota, embora eu não saiba dizer a quem influenciamos. Sempre que entrávamos em turnê com outros artistas alguém dizia “Ei, acabamos de compor uma música no estilo Codeine” e vinha tocar uma coisa chatíssima. Era legal pensar que estávamos expandindo alguns horizontes, mesmo que por apenas uma ou duas canções, mas eles podiam ter dito, da mesma maneira, que tinham composto algo “dissonante” ou “romântico”. É possível classificar bandas ou qualquer outra coisa de acordo com os critérios mais estúpidos.

E, assim, a imprensa musical rapidamente encontrou um nome para aquilo: slowcore.

Stephen: Mantínhamos uma relação pessoal com algumas daquelas bandas e, em contraste ao hardcore, fazíamos piada dizendo que éramos o slowcore nova-iorquino.

John: Certamente possuíamos diversas características em comum com a maior parte dos grupos que eram chamados de slowcore, mas daí a afirmar que existia uma cena… Acho que, aliás, nunca tocamos com nenhum deles.

Chris: Não existia, de forma alguma, uma cena slowcore. Podíamos classificar bandas como Swans ou Melvins como “lentas” ou “pesadas”, mas não acredito que houvesse muita relação entre o que cada uma estava criando. E todas pareciam bem desconfortáveis em relação ao rótulo. Se em algum momento houve algo como uma cena, ela surgiu após o fim do Codeine.

Depois do lançamento do EP “Barely Real”, em 1992, Chris Brokaw deixou o Codeine para se dedicar integralmente ao Come, banda na qual já vinha compondo e tocando guitarra. Com seu blues alto, sujo e desarmônico como só o começo dos anos 90 poderia ter produzido, o Come gravou quatro álbuns pela Matador Records até a virada da década. Hoje, além de uma carreira solo e constantes parcerias, Chris toca esporadicamente, em turnê ou estúdio, com Thurston Moore e The Lemonheads. O disco “The White Birch” saiu em 1994, com Douglas Scharin na bateria, mas o Codeine não foi além daquele ano.

Stephen: Não abandonei a música, foi a música me abandonou. Quis continuar acreditando nela depois da separação do Codeine. Tentei várias coisas diferentes para ver se era possível fazer com que algo voltasse a funcionar, porém nada foi adiante. Eu diria que a música ainda é importante para mim e serve de combustível para minha vida, mas de uma maneira completamente diferente.

Stephen Immerwahr trabalha com estatísticas no departamento de saúde da cidade de Nova York. John Engle não dá muitos detalhes sobre sua rotina pós-rock, mas, durante a troca de e-mails, disse que estava de férias com a namorada e tentando aprender a tocar “Águas de Março” no violão.

Stephen: Sempre nos considerei uma boa banda com um punhado de ótimas canções. O interesse prolongado em nossos discos me deixa bastante satisfeito, mas, de vez em quando, também um pouco intrigado.

Chris: O que fazíamos era, sem dúvida, algo muito preciso, muito focado. Depois de tanto tempo é difícil ter noção do quão estranhos as pessoas nos julgavam, mas viviam dizendo que éramos lentos demais e que era uma maluquice tocar tão devagar. Hoje nossas gravações não soam tão radicais quanto naquela época, o que indica uma possibilidade de termos, de certo modo, rompido alguma barreira cultural. Mas é difícil ter certeza.

A volta do Codeine está prevista para 9 de abril em Seattle, nos EUA. Em seguida, além do I’ll Be Your Mirror, em Londres, estão marcadas apresentações na franquia japonesa do festival e nas edições espanhola e portuguesa do Primavera Sound. Performances individuais já foram confirmadas na Bélgica, na Itália e na Áustria.

João Eduardo Veiga, 31, é jornalista. Tem escrito no blog www.depoucamtonta.com.

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