Entrevista: Madame Saatan

por Marcos Paulino

Madame Saatan é uma banda do Pará. E não, não toca carimbó nem tecnobrega. Mas sim um rock visceral, pesado, teatral. Permite-se, porém, agregar alguns elementos de suas origens ao seu metal, principalmente na bateria de Ivan Vanzar.

Chamam a atenção também os vocais femininos de Sammliz, que às vezes se somam e em outras se contrapõem aos solos da guitarra de Ed Guerreiro. O baixista Ícaro Suzuki completa o quarteto, que acaba de lançar seu segundo disco, “Peixe Homem”. Morando em São Paulo há três anos, a banda agora quer ganhar mais espaço, como contou Sammliz nesta entrevista ao PLUG, parceiro do Scream & Yell.

Não é sempre que se encontra uma banda de rock do Pará. Como nasceu essa história?
A banda tem oito anos. A gente começou fazendo trilha sonora pra um espetáculo de teatro, a banda foi criada pra isso. Tocávamos a trilha ao vivo. Quando acabou a temporada, resolvemos continuar juntos e passamos a tocar em festivais. Passamos a tocar bastante em Belém e as coisas começaram a acontecer. Não paramos mais.

E há um espaço legal para o rock no Pará?
O Pará é um Estado conhecido por outros ritmos, como o carimbó, a guitarrada e agora o tecnobrega. Só que Belém é uma cidade profundamente roqueira, que sempre teve um envolvimento muito grande com o rock. Belém tem uma longa história com o som pesado. Isso desde que eu era criança, então sempre foi muito natural pra gente.

Por que vocês resolveram sair de lá?
Quando ainda morávamos em Belém, lançamos primeiro um EP, depois um disco. Aí tomamos a decisão de sair pra poder circular melhor, para além dos festivais independentes. Fomos pra São Paulo pra ficar três meses, mas as coisas foram acontecendo e nos vimos obrigados a ficar mesmo.

Este novo disco traz alguma influência, alguma mudança no modo de compor ou tocar, depois desse período em São Paulo?
Claro que ter mudado pra São Paulo acarretou uma série de mudanças. Mas houve um hiato de quatro anos entre o primeiro e o segundo discos, então naturalmente muita coisa mu-da. As pessoas passam por outras experiências e isso acaba influenciando no som, com certeza. Obviamente, a mudança pra São Paulo trouxe à to-na tudo o que a gente estava passando, ouvindo, conversando, sentindo.

E como foi a receptividade a vocês em São Paulo?
Excelente. Ter mudado pra São Paulo abriu muitas portas. Abraçamos a cidade e ela nos abraçou. Nunca tivemos dificuldades ou barreiras, muito pelo contrário. Sempre encontramos formas de trabalhar, lugares novos pra descobrir. Desse ponto de vista, a gente quer ir mais pro interior do Estado.

Como foi a escolha do repertório do novo disco?
Mudamos pra São Paulo e continuamos compondo. Então temos músicas logo de quando chegamos à cidade e outras que compusemos uma semana antes de entrar em estúdio. Conceitualmente, o disco fala sobre nossa mudança, nossa transformação. Falamos sobre as mudanças internas e as externas. É um disco mais pesado que o anterior, mas mais direto, mais objetivo. Mais soco na cara mesmo. Foram as questões emocionais que deram o tom dele.

Há várias bandas de rock que surgem como promessas tendo mulheres nos vocais, mas poucas realmente conseguem projeção. Como você analisa isso?
Tem muita banda de rock pesado no Brasil com mulher à frente. Acho que elas acabam ficando mais conhecidas nesse nicho mesmo. Mas existem em grande quantidade, cada vez mais. Não acho que tenha diferença em relação às bandas com homens, não há mais facilidades nem dificuldades. É simplesmente correr atrás pras coisas acontecerem.

Vocês cogitam gravar também em inglês?
Nunca pensei em compor em inglês. Gosto de escrever em português e não domino o inglês, então nunca foi uma possibilidade. Também nunca achei que devesse ser em inglês porque é rock, porque puxa pro metal. Não consigo me enxergar fazendo música em inglês, pelo menos agora.

Com o tipo de som que vocês fazem, há dificuldade em aparecer para o grande público, via rádio ou TV?
As guitarras há muito tempo foram banidas das rádios. E o que populariza ainda é o todo-poderoso rádio. Infelizmente, sons como o nosso ficam restritos a programas específicos. Nada contra sons populares, como o sertanejo, mas eu gostaria que o rock tivesse mais espaço. Espero que tenhamos mais visibilidade e que possamos levar conosco mais bandas pesadas. Há um público imenso e fiel que gosta do estilo, que consome isso.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira

Leia também:
– Los Porongas ao vivo em Belém, por Ismael Machado (aqui)
– Entrevista: Vladimir Cunha fala do documentário “Brega S/A”, por Ismael Machado (aqui)

9 thoughts on “Entrevista: Madame Saatan

  1. A vocalista tem uma voz forte, que combina com o som da banda, carregado nas guitarras. É parecido com outras coisas de rock pesado, mas é bem interessante. Vale uma audição completa do cd.

  2. Já vi apresentações deles no começo e agora, bem recente, com esse novo disco e estão melhores ainda. A banda ao vivo é matadora. A vocalista é um tsunami no palco, incrivelmente carismática e tem um puta de um vozeirão que casa perfeitamente com o som vigoroso da banda.Ah sim, ela é mesmo muito bonita. rs.Pra mim é de longe a melhor frontwoman de rock deste país e espero que eles consigam ir longe com esse disco.

  3. Sammliz, icaro, edinho e ivan. vcs sabem que todos aqui torcemos por vcs. e ainda acho ‘ele queima ela sorri’, uma das melhores coisas já feitas no rock brasileiro dos ultimos tempos.
    abraço a vcs.

  4. Concordo plenamente com o Drico e vale destacar a evolução ao longo de tempos que precedem o primeiro disco. Não é de hoje que a bagagem da banda vem se acumulando e reinventando. Que seja sempre assim, daqui para a frente também.
    Vida longa à minha banda paraense predileta! 😉

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