Cinema: Pacific, Marcelo Pedroso

por Juliana Torres

“Melhor viver para poder sonhar”, diz a Nação Zumbi. E o que “Pacific” (2009), de Marcelo Pe-droso, exibe é exatamente um grupo de pessoas que decidiu sonhar por seis dias. Ti-nha tudo para ser um documentário segmentado. Foi montado a partir de filmagens feitas por passageiros de um cruzeiro que partiu de Recife até Fernando de Noronha no dia 31 de dezembro de 2008. Aguardam-se risadas, e não poderia ser diferente.

A proposta do filme, que foi exibido na 29ª Bienal de São Paulo, na 13ª Mostra de Ci-nema de Tiradentes e ganhou prêmio de Melhor Filme na 9ª Mostra do Filme Livre e no 4º Panorama Coisa de Cinema de Salvador, era trazer cenas de uma viagem dos sonhos, capturadas por pessoas que estavam lá, vivendo aquele sonho. Era arriscado. Marcelo Pedroso nunca esteve dentro do navio, e quem negociou tudo foi um grupo de produtores que também embarcou no cruzeiro. Nenhum dos passageiros sabia que aquele pedaço de sua história poderia virar um filme.

Sem qualquer tipo de máscara ou fantasia, aquele grupo de pessoas, espelho do que se tornou a classe média brasileira – que sofre, mas se diverte pacas –, revela cada loucura, empolgação e deslumbramento com uma realidade impressionante. Choram, riem, bebem cerveja (e muita), entram na piscina, usam a sauna e passam o tempo vi-vendo a vida que queriam viver de segunda a sexta-feira, mas não podem.

“Pacific” é uma caricatura do “novo rico” “representada” por eles mesmos. Pedroso, do-cumentarista nada convencional, também dirigiu “KFZ – 1348”, que conta a história de um fusca e os oito donos que o carro teve ao longo de 40 anos. Para ele, o documentário como se conhece não é suficientemente documental. Nada de entrevistas e imagens de arquivo, apenas o que eles querem contar.

A visão que se pode criar de “Pacific” é clássica: pense em todas as “Videocasseta-das” que você já viu na vida. Agora pense em ninguém caindo ou se machucando. Bingo! Imagens tremidas de handcams, áudio muitas vezes estourado e aquela ondulação do mar durante o vídeo inteiro. Essas “falhas”, que em um filme tradicional seriam fatais, se tornaram mais um personagem do filme e fizeram parte da estética do documentário. A montagem foi o grande destaque.

Em “Pacific” estão presentes o romance, a comédia, o engraçadinho que aparece toda hora com a mesma camiseta florida – o que confirma o comentário sobre a caricatura do novo brasileiro – e a trilha sonora, recheada de Djavan, Bossa Nova, Vanessa da Mata, Ivete Sangalo e Bob Marley (espera-se Kenny G, mas aparentemente ele ficou de fora da seleção).

Apesar de sua boa dose de acertos, “Pacific” tem um ponto fraco. Marcelo Pedroso, com sua ânsia pela não-representatividade, nos apresenta um filme recheado de rea-lismo. Mas é tanto realismo que uma hora cansa. Como acontece em outros longas com a proposta do realismo, é preciso muita sensibilidade para ficar preso até o fim pe-lo filme sem se cansar pela repetitividade.

Nada disso tira o brilhantismo de um projeto ousado e que poderia ter ido por água abaixo (com perdão do trocadilho) caso nenhum personagem topasse ceder suas ima-gens. Porém, pelo contrário, os que simpatizaram com o filme de Pedroso acabaram encarnados em personagens que gostariam de ser – um se torna Jack de “Titanic” – alçando o debate do colaborativismo, agora no cinema, ambiente cercado de pessoas com egos inflados demais para trabalhar com seres-humanos.

– Juliana Torres (@jukiddo) é jornalista e assina o http://jukiddo.tumblr.com/

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