Especial CCBB Universitário

texto e entrevistas por Bruno Capelas
Texto publicado originalmente no Jornal do Campus, USP

Wado, Donatinho, Ellen Oléria e Academia da Berlinda. São estes os artistas que se apresentarão no projeto CCBB Universitário, uma parceria realizada entre o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e o CUMA (Centro Universitário Maria Antonia), da USP. Vindos de diferentes partes do Brasil, os artistas se apresentarão durante os meses de setembro e outubro na capital paulista, sempre das 12h às 13h. Wado se apresenta dias 1º e 2 de setembro; Donatinho segue com o projeto nos dias 15 e 16 de setembro; depois será a vez de Ellen Oléria (29/30 de setembro) e Academia da Berlinda (13/14 de outubro).

Segundo Marcos Mantoan, gerente do CCBB São Paulo, “o evento foi concebido com o objetivo de divulgar a programação regular do CCBB para o público universitário, propor investimentos na produção nacional e também incentivar a troca de experiências entre jovens artistas”. Moacyr Novaes, diretor do CUMA, diz que a parceria veio muito bem a calhar: “Já era um projeto nosso ter atividades musicais nesse horário, até para trazer mais qualidade de vida ao cotidiano do centro da cidade”. Na parceria, o CCBB cuidará da parte da produção e da realização dos shows, enquanto a Universidade cederá o espaço e a infra-estrutura.

Ao contrário de outros festivais, o CCBB Universitário aposta em artistas de fora do estado de São Paulo e que são independentes – ou seja, não vinculados às grandes gravadoras. “Hoje temos no Brasil uma produção musical de alta qualidade que está fora do mercado fonográfico, e o fato dos convidados não serem de São Paulo também conta positivamente”, comenta Novaes. O diretor do CUMA ainda acrescenta que esse é apenas o primeiro de uma série de eventos que a Universidade está planejando em conjunto com o CCBB.

O lugar dos shows, a Rua Maria Antonia, é também apontado como um diferencial para os artistas. Ellen Oléria mostrou-se empolgada com a escolha do lugar onde os shows acontecerão, palco de importantes acontecimentos nos anos 60. “O público universitário sempre busca algo diferente, e ele é um termômetro do movimento político e econômico do país, seja hoje ou antigamente”, declarou a cantora brasiliense.

Para se apresentar ao público, os músicos ainda tentaram resumir em algumas palavras como é o som que fazem. Donatinho, que é filho do pianista João Donato, apostou na descrição de estilos: “Faço uma mistura entre as músicas de raiz do Brasil com música eletrônica. Isso resultou em samba-enredo, chorinho e canto indígena misturados com house, eletro e trip-hop, por exemplo”. Já o cantor Wado, catarinense radicado em Alagoas, foi mais simples ao se definir: “sou um sambista, mas acho que só eu acho isso”.

Entrevista Wado (foto de Marcelo Costa)

Como é tocar em São Paulo? O público é muito diferente de como você está acostumado?
Gosto muito de tocar em São Paulo, [pois] é um lugar muito caloroso comigo. Achei super curioso o fato dos shows acontecerem ao meio-dia. Deve pegar um pessoal no horário de almoço. Vai ser a primeira vez [que toco] assim, só espero não ficar com fome durante o show (risos). Mas estou adorando a ideia: vou conhecer o espaço, do qual tenho ouvido falar muito bem, e é sempre uma boa oportunidade de rever amigos. Sobre o público: São Paulo é Alagoas também. É o Brasil condensado.

Pra quem não conhece o seu som, como você o resumiria rapidamente?
Sou um sambista, mas acho que só eu acho isso (sorri).

O público da MPB nos anos 60 – época na qual a Maria Antonia foi palco de discussões políticas – era majoritariamente universitário, assim como é o público hoje da música independente. Você enxerga alguma relação nisso?
Existe uma mudança de foco: a canção saiu do bloco de ferramentas de mudança social. Se olharmos a sociedade no macro, a canção encolheu. Vejo como nicho o que antes era massivo, acho que é natural esse redimensionamento. Falamos para nichos. O Brasil não sabe mais quem são seus compositores. A Universidade é um desses nichos onde alguns ouvintes com alma de pesquisador podem aparecer.

Em outubro você está lançando mais um disco, “Samba 808”. O que dá pra adiantar sobre ele? E o pessoal que for ver o show vai ter alguma prévia dele?
O disco novo está pronto e bem bonito, tem duetos com Marcelo Camelo e Mallu, Zeca Baleiro, Chico César, Curumin, André Abujamra, Momo e muitos outros. Acredito que poderemos sim tocar algo dele, serão boas horas.

Entrevista Ellen OIéria (foto de Sávia Gabi)

Você está acostumada a fazer muitos shows em Brasília. Tocar em São Paulo é diferente?
Já temos ido para SP esporadicamente, estamos investindo na estrada. A gente chegou a tocar no SESC Pompéia, uma vez. E é muito bacana tocar no Maria Antonia, é muito propício, pensando no público que a gente vai encontrar, que é o público universitário. Minha trajetória também começou na universidade, aqui na UnB, que também tem histórias bem marcantes.

É difícil rotular a música, mas como você identificaria o som que faz para quem ainda não te ouviu?
É sempre difícil resumir, e eu tenho uma dificuldade com rótulos. Mas o rótulo também pode servir de ponte pra a gente se identificar e ser identificado. Eu gosto de dizer que eu sou farofeira. Gosto de música brasileira, e dentro dela cabem muitas coisas, de Calypso a Roberto Carlos. Cabe Chico [Buarque], Secos e Molhados. Faço música brasileira, e tenho a felicidade de ter ao meu lado a banda Pret.utu, que tem um jazz bem brazuca. Mas acho que a minha voz tem um apelo popular, com uma influência do jazz, do funk, do hip hop. É Música Preta Brasileira.

A rua Maria Antonia foi cenário para um episódio importante na história da ditadura militar, envolvendo os universitários no final dos anos 60. Era o público que ouvia a MPB da época, assim como hoje os ouvintes mais assíduos da música independente estão na Academia. Você enxerga alguma relação nisso?
O público universitário é sempre o público que está tentando uma contracultura, algo diferente. É com ele que as coisas acontecem, como tradições e contradições que a gente tem como povo. É um público que está sendo preparado para ocupar cargos importantes, sendo sempre um termômetro do movimento político e econômico do país, hoje ou antigamente. Vai ser muito bacana encontrar essa galera e sentir isso.

Seu trabalho está repleto de influências diversas, do funk à bossa nova, passando pelo hip hop, e você já tocou com artistas tão diferentes como Milton Nascimento, Móveis Coloniais de Acaju e Emicida. Como você vê esse aspecto amplo?
A música é maior que nós, na verdade. Ela ultrapassa toda essa parte de rótulos e filtros. Ela não precisa de um filtro na palavra pra acontecer. Com as novas mídias a gente dilui mais as fronteiras – um caso que aconteceu comigo foi a Björk, que trouxe uma tradição muito diferente. Tenho a possibilidade de ouvi-la cantar na língua nativa dela, que é o esquimó, e mesmo assim apreciá-la. A música chega antes: ela anda mais rápido do que as minhas pernas conseguem andar. Não tenho dúvidas de que a música é maior que os nossos encontros e a nossa percepção. Falar sobre música é outra coisa, não é música – embora seja muito legal falar a respeito. A música sempre vai ser maior.

Entrevista Dontatinho (foto de Ariel Martini)

Você já tocou na capital paulista? Como foi? Qual a novidade para essa vez de agora?
Já havia tocado várias vezes em SP com outros projetos meus, inclusive uma vez na Virada Cultural. Foi na Praça do Patriarca, com meu live eletrônico, às 3h da manhã. A galera curtiu muito. Essa, porém, é a primeira vez que vou mostrar o repertório do meu disco de estréia.

Pra quem não conhece o seu som, como você resumiria ele rapidamente?
Tenho influência de muitos sons diferentes. Nesse show especificamente vou mostrar o resultado de uma pesquisa feita sobre música regional brasileira. Fiz uma mistura entre as musicas de raiz do nosso país com musica eletrônica. Isso resultou em samba-enredo, viola caipira, ponto de candomblé, viola caipira, chorinho, canto indígena misturado com house, eletro, hip-hop, trip hop, entre outros estilos.

Como é tocar para um público majoritariamente universitário, e ainda mais num espaço tão importante como a Maria Antonia?
Acho bacana tocar num lugar tão representativo. Os jovens hoje, assim como antes, também têm voz ativa e gosto próprio. Fico feliz em poder mostrar meu som para esse publico.

Seu pai é um dos grandes nomes da música popular brasileira. Como você encara essa presença paterna, seja no seu trabalho ou na divulgação para o público? Musicalmente, você se sente influenciado por ele?
A influência dele no meu som nunca foi direta, mas sim indireta. Ele nunca quis que eu tocasse ou me incentivou a nada em relação a música. Mas a convivência, o fato de freqüentar os shows e gravações me fez aprender e até mesmo “roubar” uma levada ou outra dele no piano. Mas é claro que nós temos estilos diferentes. Assim mesmo nos respeitamos e admiramos muito o trabalho um do outro.

SERVIÇO
CCBB Universitário
Local: Centro Universitário Maria Antonia
Rua Maria Antonia, 258 a 294
Data: 1/2, 15/16, 29/30 de setembro e 13/14 de outubro
Horário: 12h
Entrada: Gratuita
Capacidade/Lotação: 200 pessoas

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