Entrevista: Nuno Prata

por Pedro Salgado, especial de Lisboa

Como baixista do grupo Ornatos Violeta, Nuno Prata esteve ligado a um dos maiores fenômenos de popularidade e reconhecimento da crítica da música popular portuguesa da década dos anos 90. A banda da cidade do Porto caracterizou-se por praticar um rock alternativo de fusão com sonoridades como o ska e o jazz.

Após o álbum “Cão!” (1997) e, principalmente, “O Monstro Precisa de Amigos”, de 1999, onde desfilaram sucessos como “Capitão Romance” (em dueto com Gordon Gano, vocalista do Violent Femmes) ou “Chaga”, o conjunto portuense encerrou as actividades em 2002 e, no mesmo ano, Nuno Prata gravou uma maquete com doze temas, regravados pelo multi-instrumentista francês Nicolas Tricot e que estariam na base do seu primeiro disco de originais.

“Todos Os Dias Fossem Estes / Outros”, de 2006, reunindo 19 canções escritas entre 2000 e 2005, traduziu uma estética estável na crueza e uma abordagem irônica às intrincadas relações sociais, bem patentes no swing jazzístico de “Não, Eu Não Sou Um Fantasma” e em “Alegremente Cantando E Rindo Vamos”, juntando os seus velhos companheiros dos Ornatos, um baixo pulsante e um teclado vibrante que davam cor a uma letra ácida: “Vamos cantando e rindo até que a merda nos chegue aos ouvidos”.

Embora a solidez do seu álbum de estreia fosse inegável, Nuno Prata não alcançaria com ele o sucesso desejado e iniciaria uma pausa das atividades musicais, concluindo durante esse tempo um curso de Escultura. Após algumas colaborações para discos temáticos e de homenagens, no final de 2008, época em que trabalhava na seção de discos da FNAC, sentiu vontade de regressar às composições originais.

Como resultado de um acentuado pendor criativo, nasceu o seu mais recente trabalho: “Deve Haver” (2010). Produzido por Hélder Gonçalves (Clã), o disco traz semelhanças ao primeiro álbum solo, pelo fato de Nuno Prata e Nicolas Tricot assinarem a execução de todos os temas. Mas, um caráter mais elaborado confere-lhe distinção do anterior, pelo soberbo carrossel pop eficaz e multifacetado de “Se Acabou, Acabou” ou da paródia mundana em jeito de pai de família para “Um Dia Não São Dias Não”.

Um dos grandes escritores portugueses de canções, Nuno Prata é alguém que pisca o olho a Sérgio Godinho e Chico Buarque, mas que refere: “As letras são questões que tento resolver”. Uma noção imediata, mas vívida, do seu talento pode ser encontrada em: http://tramavirtual.uol.com.br/nuno_prata e o rigor das suas letras combinado com uma dose saudável de perspicácia humanística não cessa de surpreender. Da cidade do Porto para o Brasil, Nuno Prata conversou com o Scream & Yell. Confira:

Quais são as maiores diferenças entre “Todos Os Dias Fossem Estes/Outros” E “Deve Haver” ?
Em ambos os discos o ponto de partida foi o mesmo: canções escritas por mim, arranjadas e tocadas por mim e pelo Nico Tricot. As diferenças musicais são o reflexo dos diferentes contextos em que decorreram as gravações. No primeiro caso eu e o Nico fizemos quase todo o trabalho, e tudo, com exceção da mixagem e masterização, foi feito de uma forma relativamente amadora. Neste último disco contámos com o trabalho de produção de Hélder Gonçalves, e foi tudo feito de forma mais profissional e convencional no seu estúdio. Resumidamente: o primeiro é mais cru, o segundo mais cozido.

As suas canções têm uma vertente existencialista muito forte. Porquê?
Escrevo as canções na tentativa de resolver questões comigo e com o mundo; tenho imensa dificuldade em escrever algo que não tenha origem em episódios concretos, mas, durante o processo, as canções acabam por se transformar em interpretações ou relatos perfeitamente subjetivos desses episódios — talvez seja isso a tal “vertente existencialista”.

Gosto particularmente do tema “Se Acabou, Acabou”. Qual é a ideia sonora e lírica associada à canção ?
Para mim, e neste caso em particular, os títulos são uma boa súmula da lírica das canções; é também um bom exemplo relativamente a uma forma intuitiva de trabalhar: ir ouvindo a canção e ir acrescentando e retirando pequenos motivos até sentir que estes formam um todo, sem subjugar o arranjo a uma fórmula instrumental preestabelecida.

O que ficou dos Ornatos Violeta na sua música ?
O que de mim se encontrava na música dos Ornatos.

Como avalia o atual momento da moderna música portuguesa ?
A música portuguesa está atravessando um momento particularmente criativo. Creio que isso se deve a três fatores: facilidade em gravar e mostrar a música que se faz, o que permite aos músicos confrontar o seu trabalho com outros e, sobretudo, consigo; facilidade em apresentá-la ao vivo numa miríade de locais, desde pequenos espaços mais ou menos improvisados a locais maiores e melhor preparados; facilidade em acesso a todo o tipo de música, o que permite aos músicos absorver todo o tipo de influências e perceber que não há uma maneira certa de fazer música. O engenho, que foi sendo aguçado pelas dificuldades, é agora potenciado por estas facilidades.

Para quando teremos um novo álbum do Nuno Prata ?
Não sei voltarei a fazer um álbum. É um formato que parece fazer pouco sentido nos dias que correm. Pelo menos no meu caso, já que nem as vendas nem os concertos subsequentes aos dois discos que fiz chegaram para recuperar o investimento financeiro e pessoal.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell

Leia também:
– Especial: conheça a nova cena musical portuguesa, por Pedro Salgado (aqui)
– Deolinda ao vivo em Lisboa: o triunfo do fado pop, por Pedro Salgado (aqui)
– B Fachada: as raízes portuguesas atravessaram uma alma, por Pedro Salgado (aqui)

2 thoughts on “Entrevista: Nuno Prata

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.