Livro: Solar da Fossa, Toninho Vaz

por Adriano Costa

Quem já visitou o Rio de Janeiro muito provavelmente já passou pelo Shopping Rio Sul. Um dos mais antigos da cidade maravilhosa (desde 1980), o shopping está localizado em uma área nobre do bairro de Botafogo. O que pouca gente sabe é que no lugar onde hoje o consumo carioca bate ponto, antigamente existia uma pensão que abrigou (entre 1964 e 1971) uma parte relevante da cultura e jornalismo nacional. A pensão, mais conhecida como Solar da Fossa, agora tem sua história contada em livro.

“Solar da Fossa – Um Território de Liberdade, Impertinências, Ideias e Ousadias” (256 páginas) é escrito por Toninho Vaz (autor das biografias de Torquato Neto e Paulo Leminski) e depois de algum tempo engavetado por conta de questões judiciais, finalmente ganha a primeira edição em uma parceira da Casa da Palavra com a Editora Leya. O autor – que também foi morador da famosa pensão naqueles anos – relata alguns dos fatos cotidianos dos moradores e da época em geral.

No Solar da Fossa (que no começo era só Solar, o Fossa veio depois) moraram, em algum momento das vidas, nomes como Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Tim Maia, Paulo Coelho, Zé Keti, Cláudio Marzo, Betty Faria, Gal Costa, Maria Gladys, Naná Vasconcelos, Ruy Castro e Darlene Glória, entre tantos e tantos outros. Guardada as devidas proporções, foi uma espécie de Chelsea Hotel nacional, onde cantores, músicos, poetas e escritores se tornaram um coletivo efervescente.

Na pensão comandada por Dona Jurema nasceram músicas como “Alegria, Alegria” (Caetano) e se consolidaram parcerias entre personagens que poucos anos depois tomariam de assalto o cenário nacional. Era a época dos festivais e da libertação da juventude, que logo foi cerceada pela ditadura militar e todos seus desmandos. Era uma época em que a música, o cinema e o teatro tentavam se renovar e ir contra movimentos velhos e desgastados. Era época de se encontrar, de achar o próprio lugar.

As histórias do livro se misturam com as dos personagens e são repassadas por Toninho Vaz como se fosse um grande bate papo, constituindo um mérito do trabalho. Para reconstituir esse momento pouco documentado, o autor entrevistou diversos ex-moradores, obtendo quase sempre o testemunho: “Tenho ótimas lembranças, foi um tempo maravilhoso”. Assim, reconstruiu os quartos, as alas, a forma de convívio, os arredores, os bares e o ambiente quase lúdico que por lá reinava.

Após ler histórias (que são quase contos) divertidas, românticas e festivas, o leitor acaba inconscientemente sendo transportado para aquela época fazendo parte do local. Sendo assim, quando o Solar da Fossa teve seus moradores despejados pela Justiça para ser demolido, sente-se também um pouco da tristeza dos dias que Toninho Vaz assim definiu: “O vazio cultural deixado como sequela das divergências políticas, que duraram quase uma década, era uma realidade indigesta do país, naquele início de ano”.

Um lugar importante para a cultura nacional, onde referências se espalhavam como nos versos de “Panis Et Circenses” (“Mandei plantar folhas de sonho no jardim do solar”), ganha um registro detalhado e escrito em tom companheiro. E tem saborosas passagens, como a que diz que quando a polícia chegava, os moradores enterravam os livros subversivos (Marx, Engels, etc.) no jardim. Livros que hoje residem embaixo de um centro que vai contra aquilo que pregavam naqueles tempos.


Lançamento do livro na Livraria Argumento. Leblon, Rio de Janeiro

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– Texto: Adriano Mello Costa (siga @coisapop) assina o blog Coisa Pop

5 thoughts on “Livro: Solar da Fossa, Toninho Vaz

  1. Os livros de Marx enterrados em um terreno onde hoje é um shopping center é uma bela, e triste, metáfora.
    Pela turma que frequentava essa pensão acho que Dona Jurema – Tim Maia tem uma música em inglês com o nome de Jurema. Fui ver a letra e diz “She’s the queen of the jungle”. É muito provável que seja em homenagem a ela – usava o critério do talento para hospedar.
    Enfim, a zorra devia ser boa.

  2. Não há referência para isso no livro (e sabemos apenas que “Cristina” foi composta lá), mas tudo é possivel. Tim passou pelo Solar já nos ultimos anos e tem uns comentarios impagaveis sobre ele de bobeira por lá, consumindo substancias e cantando. 🙂

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