Entrevista: Reinaldo Moraes

Entrevista por Ismael Machado
Foto por Fernanda D’Umbra

“Vamos tomar uma cerveja?”. É assim que, depois de uns quinze minutos de espera, sou saudado por Reinaldo Moraes, no saguão do hotel onde ele e a mulher, a editora da Companhia das Letras Marta Garcia, estão hospedados em Belém.

Os dois foram convidados a bater um papo sobre edição e sobre literatura, a convite do Instituto de Artes do Pará. Reinaldo está de bom humor. Eu também, por ter a possibilidade de entrevistar um autor que me é caro desde os anos 80, quando descobri “Tanto Faz” (1981) e “Abacaxi” (1985).

Moraes está aproveitando para divulgar também o elogiado “Pornopopeia”. Até então ainda não havia lido o cartapácio. A bordo de umas cerpinhas tocamos a entrevista e o escritor elogia a minha coluna no jornal Diário do Pará, dizendo que foi um texto que fugiu dos releases. Beleza.

Duas horas depois lá está o “maldito”, debatendo literatura entre dois escritores paraenses. O jornalista Alfredo Garcia entende o motivo de estar ali e faz perguntas que abrem espaço para que Reinaldo Moraes fale de si e da própria obra.

Já Vicente Cecim não parece entender bem a missão e toca a puxar a sardinha para o próprio lado. Para piorar, parece não ter lido nada de Moraes e desanda a falar mal de palavrões na literatura. Reinaldo faz cara de paisagem nesse momento.

Terminada a tarefa, a organização do evento leva o escritor para jantar na Estação das Docas, ponto turístico da cidade. Um editor de uma revista local cola em Moraes e ainda por cima passa cantadas na mulher dele, segundo o próprio Reinaldo diria dois dias depois no almoço.

Combinamos de tomar umas cervejas no sábado à tarde. No horário combinado passo uma mensagem. Ele responde dizendo que já estava a bordo de umas garrafas e pede pra que eu toque pra lá. Junto comigo vão Michelle, minha mulher, produtora de uma TV local e Marcelo Damaso, jornalista, amigo e um dos organizadores de um dos festivais mais bacanas do Brasil, o Se Rasgum.

O papo acontece no Jurunas, na periferia de Belém. Passamos do ponto, nos perdemos em becos, mas acabamos por encontrar o tal bar. Nele, Moraes e Tito Barata, o responsável por trazer Reinaldo Moraes a Belém, já estão muito acima do normal etílico. Sou recebido com um abraço de urso por Reinaldo. Damos alguns livros para autógrafo e recebemos apenas uns rabiscos engaratujados.

A coisa anda meio aos trancos. Parece que estamos diante do personagem dos romances. Eu e Damaso caímos na gargalhada. Moraes nos sugere, trôpego, uma ida a um puteiro, carburados por algumas substâncias. Mais prudente é levá-lo de volta ao hotel. Fazemos isso. Tomamos mais algumas cervejas. O escritor vai ao banheiro e depois desaparece.

No dia seguinte, ele me liga, se desculpando pelo possível abuso. Combinamos almoço à beira do rio. Novamente Damaso passa em casa. Levamos o casal a um restaurante de frente ao rio Guamá. Cervejas e alguns presentes inusitados. Ganho a edição de “Pornopopeia” (que estou acabando de ler, deliciado), entre outros livros. O papo flui legal até a hora do embarque deles. Na segunda-feira sai a entrevista no jornal. Mando os links e recebo elogios de ambos. E passo a guardar os três dias como um momento bacana na vida de um repórter.

Abaixo a entrevista com Reinaldo Moraes publicada no jornal Diário do Pará.

O que é esse reconhecimento da crítica? O que mudou?
De certa forma está sendo incrível. Tem uma repercussão maior. O “Pornopopeia” tem atraído um público jovem e isso é estranho porque eu estou com 61 anos. Mas acho que existe uma necessidade dos jovens de uma literatura que fale mais ao coração, ao pau. A molecada de 18, 20 anos, está comprando o “Pornopopeia”. É curioso, me espanta. Escrevi esse livro num período em que estava no limbo, duro, sem saco pra nada, me separando de um casamento, sem ser chamado pra trabalho algum.

A revista Piauí publicou um ensaio em que o personagem de “Pornopopeia” é comparado a personagens clássicos da literatura brasileira.
É. Foi meio ‘cabecice’ aquele texto, mas o Mario Sergio Conti faz uma aproximação com uma tradição picaresca da literatura brasileira. Passa por Braz Cubas, tem um quê de Macunaíma. Ele tenta me botar ao lado de uma literatura de pedigree. Eu não me importo muito. Se me botarem ao lado do Zéfiro e da Dercy Gonçalves, tudo bem. Eu tenho outras vaidades piores que essa, mas não essa, desse tipo de reconhecimento. Meu lugar é mais na zona do que na Academia Brasileira de Letras.

O personagem de “Abacaxi” mostra um certo espanto com aquilo que eram as mudanças no início da década de 80. O que ele sentiria agora?
Talvez seja ele no final de “Pornopopeia” à beira do abismo. Acho que a gente está vivendo o tempo do mínimo. Dizem que não há mais uma cultura reflexiva. Acho que isso sempre foi assim. O que mudou é que agora, as pessoas que não leem, que não veem filmes, essas coisas, elas estão se mostrando, tendo voz. As pessoas mais frívolas vivem se mostrando na internet. É um shopping center em escala interplanetária. Mas essas pessoas sempre estiveram aí. Só que hoje a carneirada tem voz e é uma voz estridente. É a carneirada que está tuitando. Eles se repercutindo. A carneirada sempre venceu.

“Tanto Faz” alcançou um patamar interessante na literatura. Em sebos paulistas o preço chegava a R$ 200 reais. A que se deve isso?
Em “Tanto Faz” eu estava brincando de fazer literatura. Eu era rato de biblioteca. Sempre adorei ler e escrever. Mas nesse período eu estava em Paris, numa solidão desgraçada, tendo encontros aqui e ali com algumas meninas, uns amigos. Então li os dois romances do Paulo Francis, o jornalista que era considerado o ‘cara’ na época. Uma porcaria. Li o romance de Carlinhos de Oliveira, “Agonia e Êxtase”, um livro mequetrefe. Então na minha pretensão pós-juvenil eu disse: “melhor do que isso eu faço”. Comecei a ficar com raiva daquela literatura toda. Escrevi, mas achava que ninguém iria ler. Comecei a circular com ele em Xerox. As pessoas gostavam. “Não estou totalmente doido”, pensava. Então a Brasiliense resolveu lançar. E a primeira edição vendeu que nem pão quente. Em duas semanas não tinha mais em lugar nenhum. Seis meses depois lançaram uma segunda edição. Em duas semanas acabou. A terceira edição foi esgotada em uma semana. Mas o Caio Graco, dono da Brasiliense começou a ficar em conflito, porque criticavam o livro, que não era engajado, que era muito fragmentado, era alienado. A primeira crítica foi feita pelo Sérgio Riffi, no JB. Desancou. Só que muita gente foi comprar por causa disso. E o Caio ficou com medo de enterrar a coleção, que era a ‘Cantadas Literárias’. O Ivan Pinheiro, da L&PM, se apaixonou pelo livro e lançou “Abacaxi” por lá. Acho que foi um movimento espontâneo da época, a abertura, o rock brasileiro, a cultura estava deixando de ser uma ditadura da esquerda. Meu livro caiu como um ‘baseado’ naquele momento.

A saída hoje, em tempos sisudos, é pelo humor?
Sim. O humor é um bálsamo. O mundo anda muito codificado. Quando alguém pega isso e chuta o balde, tem aceitação. Mas isso é uma reflexão pós-trepada. Na hora da trepada ninguém fica analisando. Tem nada disso. Análise de literatura parece uma reflexão pós-trepada. Eu vejo assim: na literatura, a letra é o corpo. O palavrão são os órgãos genitais. A arte tem uma função consoladora. Essa é a crítica marxista. Veja a música pop. Ela é aspirina pra tudo. Dor de corno, desespero, sexo, solidão.

E se a tua literatura fosse uma música, qual seria?
“Jumping Jack Flash”, dos Rolling Stones. Mas isso é uma pretensão, claro. A gente morre pela boca.

6 thoughts on “Entrevista: Reinaldo Moraes

  1. Posso dizer que eu e Marcelo Damaso nos divertimos muito em perceber que o cara é boa praça e que não fica muito distante dos personagens que constrói.

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