Gang of Four e Miles Kane em SP

texto por Bruno Capelas
fotos por Adriano Moralis

Uma tarde ensolarada, apesar do frio, com boa música. Foi basicamente esse o clima que predominou no 15º Cultura Inglesa Festival, realizado no Parque da Independência no último fim de semana de maio. Em edições anteriores, o evento era restrito apenas aos alunos da escola de idiomas, mas em 2011 a empresa decidiu ampliar o alcance tornando o evento aberto para toda a população, buscando trazer um pedaço da Inglaterra para São Paulo, abrangendo não só música, mas também cinema, literatura e artes visuais. Há toda uma série de atividades programada para o mês de junho, que pode ser visualizada aqui.

De graça, o evento foi aberto pelas bandas vencedoras do festival interno do centro de idiomas. Ainda pela manhã, Cadillac Bourbon, Lady Luck e Broth3rhood aqueceram os motores para as apresentações escolhidas pela curadoria de Alexandre Matias – editor do Caderno2, do jornal O Estado de São Paulo, e o homem por trás do blog Trabalho Sujo (quase hors-concours na categoria Melhor Blog do Prêmio Scream & Yell).

A Cachorro Grande subiu ao palco quase às 13h para uma apresentação exclusiva de canções do The Who, algo que o vocalista Beto Bruno considerou muito especial. “Eu não estaria tocando essas canções aqui hoje se não fosse esse convite, e a gente aprende bastante com isso”, disse, após cantar “Pinball Wizard”. Em cerca de quarenta minutos, a banda fez um show enérgico, esporrento, cobrindo várias fases da banda do bairro de Shepherds Bush, em Londres – de “My Generation” a “The Seeker” e “Won’t Get Fooled Again” – e se conquistou a platéia no quesito energia, abusou dos clichês – pulos, quebra de instrumentos, mostrar a bunda para a galera – se equilibrando numa linha muito tênue entre o espetáculo e a canastrice. O futuro da banda, apresentando suas próprias canções, seja em discos ou em shows, depende muito de um ajuste bem azeitado desses dois parâmetros. Em breve, cenas dos próximos capítulos.

Ao final do show, Beto Bruno deu a letra: “Numa hierarquia clássica, depois do The Who tem logicamente de vir os Beatles”. Os Mockers, ou o Cidadão Instigado sem Fernando Catatau, já se especializaram em diversos shows mostrando músicas que os Beatles nunca tocaram ao vivo – atenção clara para a fase mais psicodélica da banda de Liverpool. Não deixando de lado clássicos (“Strawberry Fields Forever”, “I Am the Walrus”), mas também dando chance a lados B (“Glass Onion”, “She Said She Said”, “Dr. Robert”) e C (“Blue Jay Way”, “Honey Pie”) dos Fab Four, o Mockers surpreendeu. Ao final do show, com pedaços da bela suíte do lado B de “Abbey Road” (“Mean Mr. Mustard/Polythene Pam/She Came In Through the Bathroom Window”), a dobradinha “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” / “A Day in the Life” soou muito bem.

Inaugurando a parte britânica do festival, o Blood Red Shoes – fundado em 2004 por Laura-Mary Carter (guitarra e vocal) e Steven Ansell (bateria e vocal) – fez uma apresentação correta de seu som cheio de distorções, climas e viradas de bateria, um pouco afeito ao que o White Stripes e outros duos trouxeram á tona durante a década passada. Sem afetações comprometedoras nem surtos de genialidade, Laura e Steven souberam bem levar o público – naquele momento do dia, composto em grande parte por adolescentes que berravam as canções da banda, numa das participações mais empolgadas da plateia durante o dia. Entretanto, o melhor do show ainda foi Laura, que arrancou suspiros e gritos de “gostosa” ao vestir uma larga camiseta do Led Zeppelin.

Às cinco da tarde veio ao Ipiranga o inglês Miles Kane, parceiro de Alex Turner no Last Shadow Puppets e ex-membro do The Rascals. Sua apresentação privilegiou o repertório de seu recente primeiro disco solo, “Colour of the Trap”. No show, puderam ser ouvidas canções que lidam com a urgência elegante do rock de hoje em dia, mas que, ao mesmo tempo, dão um abraço fraterno nas sonoridades dos anos 60 e 70, contando com baladas de apelo “soul de branco”, teclados bem colocados, uma leve psicodelia e corais à la Beatles – que, por sinal, foram lembrados pelo artista com “Hey Bulldog”.

Talvez nesse sentido, o artista tenha se beneficiado de ter tocado ao pôr do sol: músicas como “Rearrange”, “Counting Down the Days”, “My Fantasy” e “Colour of the Trap” combinaram bem com a paisagem ao fundo. Os refrãos fáceis de Kane acabaram conquistando o público, que cantava a plenos pulmões como se as melodias ali tocadas fossem suas velhas conhecidas – mesmo que muitos ali parecessem não saber quem era o inglesinho que pulava e se exibia no palco. Uma apresentação digna de um artista que cometeu um dos álbuns mais charmosos de 2011 – até agora.

Já era noite e fazia muito frio quando o seminal – em poucos casos essa palavra é tão bem aplicada – grupo inglês Gang of Four entrou no palco do Cultura Inglesa Festival. Os veteranaços Jon King (vocais) e Andy Gill (guitarra e vocais), acompanhados na atual formação, pelo baixista Thomas McNeice e o baterista Mark Heane, foram apresentados pelo mestre de cerimônias Daniel Daibem como “a banda favorita do Franz Ferdinand”. É pouco: as impressões digitais do quarteto estão por boa parte do rock feito nas últimas três décadas, aqui (Titãs, Ira!) e lá fora (Fugazi, Rage Against the Machine, Rapture).

Não sobrou pedra sobre pedra na apresentação do grupo cujo setlist se escorou principalmente no clássico álbum de 1979, “Entertainment!”, um “manual básico de como entender o homem moderno”. King, cuja movimentação no palco surpreendia, – ele rastejava, pulava, entrava em choque físico com os outros integrantes, pedia palmas – por vezes teve de parar para recuperar o fôlego, em uma deixa clara para que Gill assumisse o comando com solos e distorções infernais. O show, que teve direito a dois bis, terminou apoteoticamente com a quebra não de uma guitarra, mas sim de um micro-ondas com um taco de beisebol por King – o que foi utilizado percussivamente em “He’d Send in the Army” – e a subsequente explosão coletiva com “Damaged Goods”, um dos grandes hinos do conjunto. Acachapante, para dizer pouco.

Ainda que alguns erros tenham ocorrido, como a localização da estranha “área VIP para professores”, que cobria toda a frente do palco, não permitindo um contato direto entre bandas e público, muitos foram os acertos do Cultura Inglesa Festival. Não houve problemas quanto à alimentação, compra de bebidas ou banheiros. O som estava bom, assim como a localização do palco em uma ladeira, permitindo ao público se distribuir com tranquilidade pelo parque – muitos aproveitaram a sombra das árvores para curtir as apresentações, por exemplo. Ao final de tudo, a sensação que ficou é de que é de fato possível trazer a São Paulo um evento de bom porte, com shows interessantes – e que dificilmente seriam vistos por aqui, mesmo em tempos de bonança como os de hoje em dia – e, mais importante ainda, de maneira gratuita para o público.

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– Bruno Capelas é estudante de jornalismo e assina o blog Pergunte ao Pop
– Veja mais fotos do Cultura Inglesa Festival, por Adriano Moralis, aqui

One thought on “Gang of Four e Miles Kane em SP

  1. Apenas uma crítica… “compra de bebidas” ? Ué. estava proibida a venda de bebidas alcoólicas e pelo que vi era distribuída água ao público. Apesar de alguns “ambulantes” que salvaram a noite.

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