O Discurso do Rei, Tom Hooper

por Juliana Torres

E se o seu maior desafio fosse vencer o medo de ser quem você é? Um microfone, um terço do mundo, o maior império da época: a família real. Esse era o universo de Bertie (Colin Firth) quando descobre que seu doente pai deixará um cargo vago: o de Rei. O resultado final de “O Discurso do Rei” (“The King’s Speech”, 2010) novo longa de Tom Hooper – muito mais conhecido por seus trabalhos para a TV como a série da HBO “Elizabeth” – é espantosamente bonito e verosímil.

Os créditos também devem ser repassados ao roteirista David Seidler. Embora não discorra o suficiente sobre o importante cenário da Europa durante a Segunda Guerra Mundial, o que pode tornar o contexto do filme um pouco incompleto, “O Discurso do Rei” narra com riqueza de detalhes o ambiente da família real durante esse período histórico que definitivamente mudou o curso da história inglesa.

O título do filme é auto-explicativo. A dificuldade na dicção de Albert Frederick Arthur George, pai da atual Elizabeth II, tornaram a transição do trono muito mais traumática. E é daí que a trama se desenrola. Após diversas tentativas de tratamentos alternativos (que chegaram ao ponto de obrigar Albert a inserir oito bolas de vidro em sua boca) sua esposa Elizabeth (a brilhante Helena Bonham Carter) encontra Lionel Logue (o não menos brilhante Geoffrey Rush), um humilde e frustrado ator australiano que adota Bertie imediatamente por acreditar – ainda mais que o próprio futuro Rei – em sua cura.

O filme tem alguns destaques que explicam o favoritismo no Oscar, a começar pelas atuações. Geoffrey Rush (que já tem um Oscar em casa por sua atuação em “Shine – Brilhante”), muito conhecido por ser o perverso Capitão Barbosa da sequência de “Piratas do Caribe”, beira a perfeição com sua candura tão naturalmente interpretada. Durante todo o filme mostra-se um ator capaz de ser incessantemente versátil e sincero em sua atuação. Sua relação quase paterna com Bertie é proporcional a sua grandeza enquanto homem. Logue toma o papel de rei. Se torna um lorde, no mínimo.

Colin Firth havia acabado de sair de uma roubada: Lord Henry Wotton na re-re-re-refilmagem de “Dorian Gray”, filme incapaz de comover até mesmo um pré-adolescente que acabou de descobrir a sétima arte. Como Bertie, e posteriormente George VI, mostra toda a sua grandeza e genialidade, principalmente por ter de interpretar um membro da realeza inglesa que, além de ter problemas com a fala, tem problemas consigo mesmo. Sua evolução durante o filme foi tão natural que se tornou praticamente uma metamorfose. Talvez esse papel fosse a parcela dramática que faltava em sua carreira. O Oscar deve coroar a atuação.

Helena Bonham Carter já é um personagem. Sua destreza em mudar completamente entre um filme e outro a torna uma personalidade do cinema. Sua identidade ficou em algum lugar entre sua atuação em “Clube da Luta” e “A Fantástica Fábrica de Chocolate” ou ainda entre “Sweeney Todd” e “O Discurso do Rei”. Ela consegue provar que é ainda melhor quando não precisa ser tão excêntrica – fica uma dica ao (marido e cineasta) Tim Burton. Tom Hooper também surpreende. Pouco conhecido e sem grandes trabalhos, o diretor está a beira de um Oscar. Por puro merecimento. Melhor Fotografia e Melhor Roteiro Original também devem estar a caminho.

Colocar o número de indicações ao Oscar como o resultado para o brilhante resultado de “O Discurso do Rei” seria, além de redundante, desnecessário. O longa cumpre com todos os requisitos para se tornar um dos grandes filmes do cinema inglês e, certamente, tornou a disputa pela estatueta mais querida do mundo cinematográfico um pouco mais valiosa. Depois de um grande tempo de seca, chegar com sono no trabalho na segunda-feira pós-Oscar parece que vai valer a pena.

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por André Azenha

Na política, não basta traçar planos, estratégias, definir os passos de uma nação. É preciso o dom da oratória para cativar as massas. E a mídia desempenha papel fundamental no processo. Ao longo da história, não são poucos os exemplos positivos e negativos de pessoas que levaram milhões de pessoas a reboque graças ao poder discursivo. Um dos episódios mais tristes da influência política sobre as massas foi Adolf Hitler. Alguém com ideias e ideais radicais e preconceituosos, mas que obteve sucesso graças ao seu talento como orador e ao uso da força midiática. Caso contrário, milhares de soldados alemães não teriam lutado sob sua tutela.

Em determinado momento de “O Discurso do Rei”, George VI (Colin Firth), ou Berty, precisa declarar guerra à Alemanha nazista de Hitler. Mas sua gagueira o impede de discursar. Berty é bom sujeito, correto, marido amoroso e se vê alçado a rei da Inglaterra quando seu irmão, Edward (Guy Pearce), abdica do trono em 1936. Ele quer o melhor para a nação, mas para cativar a confiança dos ingleses, o novo rei precisa aprender a falar em público. Assim, pede auxílio a um especialista em discursos, Lionel Logue (Geoffrey Rush), conhecido por seus métodos nada convencionais. E é da relação entre os dois que nasce a magia do filme.

Dirigido com maestria por Tom Hooper, cujos principais trabalhos até então se deram na tevê britânica, “O Discurso do Rei” remete ao cinema clássico. Um exemplo recente desse tipo de cinema é o bonito “O Despertar de Uma Paixão”, que acabou não obtendo o merecido sucesso. Afinal, vivemos uma época em que a tecnologia avança abruptamente, atores e atrizes aparecem com os corpos e rostos cada vez mais perfeitos. Então quem estaria interessado em filmes simples sobre épocas passadas, que ignoram a presença de musas e galãs e seus corpos expostos, efeitos visuais, catarses, momentos eloquentes, exageros para impressionar o público? Produções que se garantem simplesmente pelo seu conteúdo e a forma como ele é exteriorizado na tela. “O Discurso do Rei” se destaca por ter alcançado esse feito. Não tem cenas de sexo nem rostos perfeitos. É um drama de época, porém conseguiu ótima bilheteria, 12 indicações ao Oscar e outros prêmios importantes. É o filme certo na hora certa, que devolve ao cinemão aquilo que nunca poderia ou poderá ser esquecido: sua essência.

À primeira vista, ou para quem ler somente a sinopse, pode parecer mais uma trama baseada em fatos reais sobre alguém que supera um problema pessoal para depois ter sucesso. A mesma primeira impressão passada, para os menos atentos, pelo ótimo “O Vencedor”, também em cartaz no Brasil. Mas quem assistir ao longa de Hooper encontrará uma obra bem escrita, com ambientação de época e figurinos corretos, direção precisa, montagem eficiente e, claro, um elenco em estado de graça, reconhecido pelo Sindicato dos Atores como o melhor time de intérpretes do ano. Começando pela dupla protagonista. Cada cena estrelada por Colin Firth e Geoffrey Rush é memorável. O primeiro nos transmite toda a dificuldade encontrada pelo personagem em se superar. O segundo nos cativa com sua forma inusitada em tratar o “paciente”.

E ainda há Helena Bonham Carter, mais contida que o habitual, como a esposa que apoia incondicionalmente o marido. E até Guy Pierce, alguém que dá sorte ao filmes em que atua. Se ano passado ele teve pequena participação em “Guerra ao Terror”, ganhador do Oscar, aqui ele novamente surge em poucas cenas, num outro trabalho que deve levar o prêmio máximo da Academia. Será o bicampeão na principal festa do cinema.

O sucesso de “O Discurso do Rei” pode ser visto como contraponto ao êxito de “A Rede Social” e à moda do 3D. Público e mídia internacional, após tantos lançamentos descolados e antenados com a tecnologia, encontraram na obra de Tom Hooper a deixa para expressar sua saudade ao cinema clássico. É aquela velha história: “O Discurso do Rei” vale pelo conjunto da obra. E àqueles que conseguirem ver além ainda descobrirão no longa uma bela metáfora atemporal à maneira como nossos líderes políticos necessitam da mídia para convencer a sociedade.

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– André Azenha (@cinezen) é jornalista e editor do site CineZen Cultural
– Juliana Torres (@jukiddo) é jornalista e assina o http://jukiddo.tumblr.com/

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Leia também:
– “Clube da Luta”, de David Fincher, por Marcelo Costa (aqui)
– “Piratas do Caribe – O Baú da Morte”, por Marcelo Costa (aqui)
– “O Vencedor”, de David O. Russell, por André Azenha (aqui)
– “Guerra ao Terror”, de Kathryn Bigelow, por Marcelo Costa (aqui)
– “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”, por André Azenha (aqui)

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