Adélia Prado lança livro em São Paulo

por Maira Reis

No último dia 26/01, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon, em São Paulo, a escritora Adélia Prado lançou na cidade seu mais novo livro de poesias, “A Duração do Dia” (Editora Record), uma compilação de poemas novos e outros, antigos, que não tinham sido finalizados para publicação. “A Duração do Dia”, que quebra um silêncio de 11 anos sem livros de poesia da autora, já iniciou uma carreira consagradora faturando premiações, como o Prêmio Literário da Fundação da Biblioteca Nacional e a estatueta da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA), ambos na categoria poesia.

O lançamento proporcionou aos leitores uma conversa rápida com a escritora. Simples como ela só – de vestido preto com bolinhas brancas e um sapato vermelho -, Adélia gesticulava e falava bem mineiramente como quem tivesse escrevendo, sempre com um tom firme, um pouquinho de humor e uma sabedoria que permitia entender como uma escritora consegue se transportar em outra alma humana. “Sou homem quando escrevo”, disse Adélia em certo momento da noite.

Respondendo a diversas perguntas do público (sempre com frases de muito impacto) sobre variados assuntos, de casamento a feminismo, Adélia Prado manteve a simpatia e o sorriso durante toda a conversa. Alternava poesias, citava o I Ching e foi ovacionada pela plateia ao responder uma pergunta sobre o que é o amor – com uma suavidade de uma avó materna que ensina seus netos como entender um sentimento tão complexo e que, ao mesmo tempo, para ela havia um entendimento tão simples:

“Amor para mim é exatamente isto. Ser capaz de permitir que aquele que eu amo exista como tal, como ele mesmo. E isto supõe mortes em mim. Se eu permito que o outro se expresse tal qual ele é, isso é o mais pleno amor. Dar liberdade dele existir do meu lado como ele é. Este é o tal amor incondicional. Isto é muito difícil, porém a experiência é interessante demais – os erros e os acertos. Amor é muito interessante, é o embate. Pode sofrer de tudo menos de tédio porque não há como ter tédio. Amor é muito divertido, é muito complicado”.

A autora levemente magnetizou os leitores a falar sobre erros e convicções. “O ‘Grande Sertões Veredas’ (de Guimarães Rosa) é um livro em que todo ele é uma luta do personagem. Tem o diabo ou não tem o diabo? Tem uma hora em que Teobaldo, perplexo, discutindo diz: ‘Ah, mas tendo Deus a gente pode pecar mais descansado’. Pois é, Deus me garante! As convicções são completamente equivocadas, mas tudo é feito com uma inocência junto. Quando você erra demais, mas com convicção tudo dá certo. E você pensa… Peraí, o que aconteceu? Vai pensar um pouco a razão daquele disparate”.

Adélia Prado terminou a conversa recitando um poema do novo livro, “No Céu”, que diz: “No céu os militantes, os padecentes e os triunfantes seremos só amantes”. E ainda completou: “Olha só que maravilha! Uma boa notícia, não é?”. Leia abaixo outro poema de “A Duração da Vida”:

“Tão Bom Aqui”, de Adelia Prado

Me escondo no porão para melhor aproveitar o dia e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui…
… para rezar,
Agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
Tenho sono e posso dormir,
Tenhdo comida e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
A água brilha é fresca,
Acredito que sugestiono elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
O de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível da poeira
Em onda invisível danço a luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
Alguém vai me chamar
Responderei amorosa,
Refeita de sono bom.
Fora quem alguém me ama,
Eu não sei de mim.

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– Maira Reis é jornalista. Assina o blog Cleopatra Faz Oral e a coluna Tea and Cookie

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