Cinema: Um Homem Sério, irmãos Coen

por Marcelo Costa

No documentário “Minessota Nice”, que engorda os extras da edição especial de “Fargo” (1996), Joel e Ethan Coen explicam como foram buscar em suas lembranças de infância a inspiração para o filme, abusando daquilo que é conhecido no centro-oeste dos Estados Unidos como a simpatia de Minessota. “Não é que não haja hostilidade lá, mas ela é encoberta pela simpatia”, explica um dos irmãos. O sotaque carregado e a simpatia exagerada venderam para o mundo a imagem de um Estado caipira e abobalhado, numa crítica ácida e divertida assinada pelos irmãos.

Em “Um Homem Sério” (A Serious Man, 2009), os Coen retornam a sua infância em Minessota e saem de lá com outra sátira arrasadora, que desta vez observa e avacalha uma comunidade judia, território que os irmãos parecem dominar, visto a quantidade de referências e citações. Eles não perdoam rabinos (ao todo, três), sacaneiam o bar mitzvah (um rito de passagem que é considerado como uma iniciação na vida adulta para os judeus) e tripudiam da fé, no momento em que a fé falta: “Por que Ele nos faz sentir as perguntas se não vai nos dar nenhuma resposta?”, questiona um personagem.

Lawrence Gopnik (Michael Stuhlbarg) é o personagem central desta saga judia. Sua vida parece estar no rumo certo. Ele é um homem de fé, daqueles que não criticam os desígnios divinos, até que uma coisa começa a dar errado atrás da outra. Primeiro é o casamento, depois é o trabalho, por fim a saúde. Gopnik entra num espiral de desacertos que rendem boas gargalhadas no cinema, e mostram como os irmãos Coen chegaram a um ponto na carreira em que dominam a perfeição todos os quesitos técnicos que constroem um grande filme.

No entanto, não vá ao cinema esperando revolução. Não é isso que “Um Homem Sério” propõe. A história aqui é simplista, mas não simplória. São fatos aparentemente banais que se amontoam uns sobre os outros, e fazem até mesmo um judeu questionar as intenções de Deus, ou melhor, HaShem. Fatos como a separação de um casal, os problemas financeiros de um professor, as dificuldades de convivência em família, problemas com vizinhos (às vezes o contrário), entre outros. Os Coen transformam água em vinho usando o cenário aparentemente banal do cotidiano de Gopnik.

Gopnik é o vértice central da trama, um homem sem carisma e com um q de bobalhão que vira joguete na mão de uma esposa mandona, de um amante cínico, de um filho maconheiro, de uma filha sonhadora, de um irmão genial e doente, de advogados extorsivos, e de rabinos que pedem apenas que ele observe a vida por uma nova perspectiva. “Você está olhando o mundo com olhos cansados”, diz o rabino mais jovem. “Minha mulher está saindo com Sy Ableman”, retruca Gopnik. “A vida é assim”, encerra o rabino.

O humor – sugado com esperteza da banalidade – transforma “Um Homem Sério” em um grande filme, não o melhor dos Coen (“Fargo”, “E ai, Meu Irmão, Cadê Você?”, “O Grande Lebowski” “O Homem Que Não Estava Lá”, “Onde os Fracos Não Têm Vez” – a concorrência é injusta), mas uma obra com a assinatura da dupla, um daqueles filmes que faz o espectador deixar a sala sorrindo, apesar do caos exibido na tela.

Se você é goy, não se preocupe (mas observe se seus dentes não trazem um recado divino). Você vai entender quando a esposa de Gopnik pedir o divórcio, exigindo um guet: “Sem um guet, eu sou uma agunah”, diz ela. As palavras mudam, mas o sentindo permanece o mesmo. A questão, no entanto, é saber se existe algum sentido na vida. Para os Coen, talvez nem HaShem saiba. Coitado do Lawrence Gopnik. Mas não se preocupe: nós ficaremos bem. Acredita?

*******

Leia também:
– “Onde os Fracos Não Tem Vez”, dos irmãos Coen, por Marcelo Costa (aqui)

9 thoughts on “Cinema: Um Homem Sério, irmãos Coen

  1. um filmaço! e essa tua frase é tudo o q eu queria ter dito sobre esse filme em tao poucas palavras e nao consegui > “os irmãos Coen chegaram a um ponto na carreira em que dominam a perfeição todos os quesitos técnicos que constroem um grande filme”

  2. ainda acho que a grande sacada dos irmãos Coen [e não só deles] é conseguir aflorar no espectador a tormenta na qual seus personagens estão inseridos. toda a estranheza de não obter as respostas que estão buscando ali, para mim, é uma das experiências mais válidas do filme. soa como ‘veremos a que ponto é possível tensionar a trama’, com a genialidade de explorar elementos do cotidiano que são comuns a todos nós – Cartola, à sua maneira, nos deixou esse legado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.