Rafael Lage fala da Rádio Microfonia

Rádio Microfonia, a ‘Fluminense FM’ da internet
por Fernando Rosa

A Rádio Microfonia está na rede desde dezembro de 2009, resultado de um processo iniciado em meados do ano por jovens cariocas ligados em rock independente nacional. A idéia, segundo os organizadores, era criar um atalho mais rápido entre o artista e o público independente, o que fez com que eles avançassem de um projeto de site para uma rádio online.

Objetivo que começa a ser atingido rapidamente, com a conquista de ouvintes e simpatizantes em todo o país, fato perceptível no twitter, onde sucessivos usuários recomendam a rádio e comentam seu playlist. “A cena independente nacional já tem a sua Fluminense FM”, dissemos outro dia no twitter, em alusão a clássica rádio carioca que projetou boa parte do rock dos anos oitenta. Talvez não por acaso as duas são de Niterói.

A afirmação é sustentada por uma seleção que reúne qualidade musical, senso radiofônico e conhecimento da cena independente, expressa em playlists que incluem artistas como Wander Wildner, Cachorro Grande e Macaco Bong, Superguidis, Vanguart e Inocentes, até novatos como Filhos da Judith, Spllash!, Tiro Williams, Supertônica ou Turbo.

A rádio também tem um site, onde destacam-se matérias sobre bandas independentes, um “top ten” e links para pedir e enviar músicas. Artistas independentes nacionais, por exemplo, podem facilitar o trabalho da rádio enviado suas músicas para a possível inclusão no playlist. E o público pode exercer o velho papel de pedir a música de sua banda preferida.

Ouvintes fiéis desde a descoberta e simpatizantes da idéia de uma rádio com este perfil, realizamos a entrevista abaixo com o editor da Rádio Microfonia, Rafael Lage, que fala da iniciativa, da experiência e dos resultados já obtidos pela Rádio Microfonia.

Como e quando surgiu a rádio?
A idéia da rádio vem de 2008, quando eu e alguns amigos, todos do Rio de Janeiro e fãs do rock underground nacional, pensávamos em criar um site de utilidade pública, algo que levasse às pessoas o que tem sido feito de bom musicalmente no país mas que acaba restrito a poucos. Ainda em um site apenas, no máximo com alguns podcasts. Mas esse formato já é bem servido na internet, temos ótimos exemplos com este perfil. Chegamos à conclusão de que uma rádio segmentada poderia dar uma “sacudida” no cenário, do jeito que desejávamos. Em meados de 2009 demos início ao projeto, para finalmente em dezembro de 2009 lançá-lo no ar. A Microfonia ainda é uma criança recém-nascida, que tem muito a crescer e conquistar!

O que levou vocês a optarem pelo ambiente da internet?
RA internet é um ambiente democrático na divulgação musical. Através dela podemos chegar a todos os estados do Brasil e até no exterior. Podemos divulgar o rock independente para um grande número de pessoas. Se optássemos, por exemplo, por um programa de rádio, ficaríamos restritos ao nosso estado (ou cidade) apenas, mesmo que em rede, não chegaria ao Brasil todo. E a web hoje é o meio mais usado por bandas, produtoras e selos na divulgação musical. Se todos usamos as mesmas ferramentas, criamos possibilidades em conjunto e quem ganha com isso é o cenário independente.

Porque uma rádio “100% virtual especializada em música independente”?
Acredito que a segmentação seja um passo importante. Se pesquisarmos, existe muita mídia ligada ao rock independente. Muitas rádios abrem espaço às bandas novas, algumas possuem programas específicos para isso. Com TVs também, principalmente canais pagos. Jornais, revistas, sites, muitos reservam um “espacinho’ para isso. E é só. Se alguém procura novidade, tem de ficar pulando de mídia em mídia. As pessoas interessadas se vêm obrigadas a ter iniciativa em buscar o que desejam. E contar com essa “boa vontade” do consumidor é algo muito arriscado. Por exemplo: se é um programa específico de TV, você tem que ligar no horário determinado, se for TV paga, tem que assinar o canal. Uma rádio segmentada na internet cria um atalho veloz entre quem produz e quem consome música. Quem liga na Microfonia ouve uma seleção do melhor do rock independente sem muito esforço. É claro que este meio também tem barreiras, você tem que ter computador e uma boa conexão de internet. Mas o acesso à web tem crescido muito nos últimos anos e a tendência é a melhor possível. Com a convergência de meios, isso tudo ganha dimensões maiores. Quando todos estiverem acessando a web do celular, TV, Ipod etc, a segmentação ditará o caminho. E quem tiver sua marca reforçada neste sentido se estabelecerá com maior facilidade.

Como tem sido a receptividade da rádio junto ao público independente?
A melhor possível! Temos recebido muitos elogios, de artistas, público e produtores. E muita gente que nem tinha o costume de ouvir rock independente gostou e passou a acompanhar a rádio, inclusive fazendo sugestões de artistas, matérias etc. Em um mês nosso público triplicou, o que até nos obrigou a redefinirmos o sistema do site para evitarmos que saísse do ar em horários de pico. Em nosso e-mail, chegam diariamente pedidos de música, contatos de bandas e produtores. Os artistas estão se mobilizando e movimentando rapidamente nosso Top 10. As parcerias chegam de todos os lugares do país. Se começamos com uma equipe de cinco pessoas, na cidade de Niterói-RJ, hoje contamos com colaboradores e parceiros de todo o Brasil. Já é um patrimônio nacional com apoio de regiões diversas. E quem ajuda, faz porque gosta e sabe da importância da cooperação.

O que vocês acham da política de “liberar” o download
No cenário atual é sem dúvida uma estratégia poderosa de divulgação. É um assunto ainda polêmico, mas muitos não querem enxergar o óbvio: hoje em dia é impossível “proibir” os downloads. Veja pelo meu caso. Como possuo uma rádio online, estou habituado à internet e tenho plena consciência de que não existe nada impossível de se conseguir. Se está na rede, é possível fazer o download. Basta conhecer os meios. Hoje em dia baixo o que quero com relativa facilidade. Claro que acabo tornando isso um bem comum, é divulgação. Mas isso ocorre também com artista e público. Se a pessoa baixa um disco e põe no seu Ipod, celular ou o que seja, a possibilidade de propagação é imensa. O que acredito e acho justo é que seja criado um valor em torno do download, não necessariamente financeiro. Não precisa ser totalmente livre, pode ser exigido algo em troca, uma moeda que não a financeira. Por outro lado, os artistas que dificultam esse acesso só têm a perder. Por mais que eu consiga baixar tudo que quero, por exemplo, dou preferência obviamente ao mais prático. Se vejo dificuldade no processo, acabo desistindo e aquele artista infelizmente fica de fora. Perde em divulgação, e não apenas em minha rádio. E ainda acabam ficando mal vistos. Correm o risco de se assemelhar a bandas que erroneamente lutaram por uma causa perdida, como o caso do Metallica, contra o Napster. Aquilo deveria figurar em todas as listas dos maiores micos da história do rock. Quantos “Napsters” surgiram depois? Quem não consegue baixar alguma coisa do Metallica na web hoje em dia?

A rádio vai para a rede definitivamente?
Na rede online já conquistou seu espaço e não sai tão fácil! Já no dial, não descartamos a possibilidade, é claro. Se pudermos crescer e levar este serviço a um público cada vez maior, estaremos em qualquer tipo de mídia possível! Algumas adaptações podem ser feitas, mas a idéia de mídia especializada em rock independente nacional continuará. Muita coisa boa tem surgido nos últimos anos, ajudadas principalmente pelo avanço tecnológico. E infelizmente têm sido negligenciadas do grande público, é uma arte que não chega à população geral. Fica restrita, muito por culpa de nossa indústria cultural, voltada basicamente para vendas. As políticas culturais são pobres e pouco democráticas. E o setor independente carece de profissionalismo, o que atrasa todo o processo. Mas estamos caminhando, já temos ótimos exemplos de iniciativas consistentes neste sentido. E nós da Rádio Microfonia estaremos lutando também, seja na internet, ou quem sabe em algum outro meio. Só sei que por enquanto todo nosso esforço é voltado a entregar ao público um produto de qualidade. E contamos com a ajuda de todos. Acessem, participem e divulguem a rádio!

http://www.radiomicrofonia.com.br/

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Fernando Rosa é jornalista e editor/produtor do site/selo Senhor F

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