Cinema: Ervas Daninhas, Alain Resnais

por Marcelo Costa

Ela se chama Marguerite Muir, e seus pés delicados se destacam entre milhares de pés no caminhar parisiense. Ela não mora em Paris, mas vai à cidade comprar um sapato em sua loja predileta, com a vendedora predileta. Vícios. Assim que deixa a loja saltitante com o modelo escolhido devidamente protegido em uma sacola na mão esquerda, Marguerite tem sua bolsa (desleixada na mão direita) roubada por um pivete em uma bicicleta. Ela pensa em gritar, mas abafa a vontade por, talvez, medo.

Ele se chama Georges Palet. Está deixando o shopping quando vê uma carteira vermelha no chão, ao lado do pneu de seu carro. Ele pega a carteira, e hesita em abri-la. Neste mesmo momento, duas garotas passam por ele, uma delas vestindo uma provocante calcinha preta debaixo de uma calça branca. Georges se sente enojado, ultrajado, excitado e, por fim, tarado. Pensa em bater na menina, nela e na amiga dela, ensiná-las com palmadinhas que não se deve deixá-lo assim no meio de uma garagem.

Marguerite e Georges são os dois personagens improváveis de “Ervas Daninhas” (“Les Herbes Folles”), novo filme de Alain Resnais, lendário cineasta que aos 87 anos e quase cego insiste em dar nós na cabeça do público. Resnais brinca com o espectador de forma sublime (para ele, distorcida para nós) nesta fábula sem pé nem cabeça que parte do acaso para abraçar o nonsense enquanto relê a cartilha dos maiores clichês acerca do romance cinematográfico francês abusando da comédia, do drama e, óbvio, da tragédia.

Tudo começa quando Georges tenta entrar em contato com Marguerite. Ele faz um dramalhão sobre um tema simples: avisar alguém que perdeu a carteira de que você a achou. Georges fantasia que a dona da carteira irá premia-lo com… seu amor eterno, mas não consegue falar com ela ao telefone. Acaba deixando a carteira em uma delegacia, e um policial faz a ponte. Feliz por ter seus documentos de volta, Marguerite liga para agradecer Georges, e o circulo vicioso da loucura se inicia.

Assim como em “Medos Privados em Lugares Públicos”, Alain Resnais parece querer jogar na cara do espectador que tudo aquilo que está na tela é inventado. Um dos sintomas são as cores exuberantes, vivas, que mais parecem saídas de sonhos do que da vida real. Nada sugere seriedade em “Ervas Daninhas”. Até os momentos mais dramáticos são afogados em sarcasmo cinematográfico de tal forma que você, leitor, por exemplo, não pode imaginar o mal que uma braguilha emperrada pode causar.

“Ervas Daninhas” é uma tiração de sarro com os clichês do cinema francês (o amor fortuito, os triângulos amorosos, a tragédia romântica), uma aula de independência cinematográfica baseada em exercício de estilo, e uma pegadinha para os viciados nos roteiros fechadinhos das comédias românticas de Hollywood e para os (pseudo)intelectuais que procuram seriedade em uma piada. Não espere nada lógico (óbvio, talvez). “Ervas Daninhas” é uma provocação, algo raro no cinema atual. Uns vão odiar. A maioria não vai entender, mas Alain Resnais vai rir. Talvez sozinho, mas vai rir.

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Marcelo Costa é editor do Scream & Yell e assina o blog Calmantes com Champagne

4 thoughts on “Cinema: Ervas Daninhas, Alain Resnais

  1. Fui ver esse filme sem saber do que se tratava a história (não tinha a mínima idéia), mas como é Alain Renais e tem atores de altíssimo nível seria muito difícil de sair algo ruim. Não deu outra: o filme é muito bom, é ótimo. A história está cheia de absurdos, de momentos improváveis, mas mesmo assim é fascinante.

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