Festival Macondo Circus, Santa Maria

por Janaina Azevedo

Porto Alegre é indiscutivelmente um pólo de produção roqueira. Desde os anos oitenta gerações se renovam pelos palcos gaúchos, construindo um capítulo rico na história do Rock Brasil. Existem bandas e existe público. Mas uma lacuna ainda insiste em permanecer. Porto Alegre  não tem um festival de rock. O máximo que acontece são mega-eventos midiáticos, com line up baseado nas paradas de FMs, último lugar onde se acha rock de verdade.

Uma ou outra iniciativa bancada por casas noturnas chegaram a criar expectativa, mas esbarraram no mesmo problema: nada supera o apelo das massas, e o lucro sempre grita mais alto. Assim, remamos, remamos, mas a capital gaúcha continua longe de Goiânia, Recife ou Cuiabá, que todo ano botam uma cena para funcionar juntando bandas novas e renomadas, locais e internacionais, e ainda movimentam diferentes atividades artísticas.

No Rio Grande do Sul, a cultura independente pulsa forte mesmo no coração do Estado. Em Santa Maria, localizada na região Central, cidade universitária e de forte tradição cultural, surgiu o Coletivo Macondo, atrelado às atividades do Macondo Lugar, local em que rolam shows e festas. O festival Macondo Circus foi uma consequência dos trabalhos do coletivo pelo fomento à cultura independente. Esse ano chegou a sua sexta edição, e com uma grande mudança.

Foto de Budu!

Antes as atrações subiam aos campos da cidade para os shows. Em 2009 o palco foi o epicentro urbano de Santa Maria, a praça chamada Saldanha Marinho. Lá, uma enorme estrutura foi montada para abrigar os shows, no meio das feiras de culinária e artesanato locais, em pleno caminho do movimento cotidiano santa-mariense. Ao ar livre, e para todos os transeuntes. Outra parte da programação ficou no pequeno palco do Macondo Lugar, há poucos metros da praça.

Os shows começaram no dia 3 de dezembro, mas o Scream & Yell só chegou no dia seguinte, perdendo as apresentações do cascavelete Frank Jorge, da one man band mineira Melda e dos aclamadíssimos Bandinha Di Da Dó – um dos integrantes do Gogol Bordello gaúcho escalou a estrutura de metal que abrigava as lâmpadas da Saldanho Marinho – e Macaco Bong, um dos shows mais bem comentados do festival.

No segundo dia (4 de dezembro, sexta-feira), os santa-mariense do Sálvia e os porto-alegrenses do Subtropicais iniciaram os shows da praça,  a principal atração ali era o Móveis Coloniais de Acaju. O supergrupo brasiliense tem feito os shows mais catárticos e dançantes Brasil afora com seu som indie-mpbístico-festeiro, e no Macondo Circus não foi diferente.

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Foto de Budu!

O Móveis Coloniais de Acaju botou as centenas de pessoas que lotaram a praça para pular, sendo público do show – os que cantavam as músicas inteiras – ou espectadores ocasionais. Donas de casas com chimarrão, crianças, moradores de rua, trabalhadores locais, todos formaram a massa agitada pelos guris. O grande momento foi “Copacabana”, quando alguns integrantes desceram do palco e, do meio da platéia, orquestraram uma grande brincadeira de roda, com várias pessoas dançando de mãos dadas ao som do naipe de metais. E era só o início da noite.

Tudo recomeçou no Macondo Lugar. Grunge até não poder mais, a Zefirina Bomba subiu no palco com a baixista Poly –  da banda gaúcha  Megadrivers – no lugar de Martim, que não pode ir à Santa Maria. Power trio barulhento, os paraibanos abriram para o headliner da segunda noite, os queridos e quase unânimes da Superguidis. Queridos inegavelmente, porque cada sílaba de cada letra era cantada em uníssono pelo público que lotou o Macondo.

Musicalmente, os guris de Guaíba –região metropolitana de Porto Alegre – estão cada vez mais próximos ao Foo Fighters com seu rock empolgado e guitarreiro e suas melodias geniais em uma rajada de hits. Em carisma, o vocalista Andrio não perde nada para Dave Ghrol. Com o guitarrista Lucas, compõe uma verdadeira dupla de entertainers indies.  O terceiro disco – a ser lançado em 2010 – já nascerá clássico, pela recepção do público às músicas novas que estão sendo incluídas no set list.

Foto de Marcelo de Franceschi

O show do Macondo Circus ainda contou com uma jam dos guris com Ilson, vocalista e guitarrista da Zefirina Bomba, tocando “Animal” (Pearl Jam) e terminou com o baixista Diogo entregando seu instrumento para Andrio tocar e assumindo os vocais em “Malevolosidade”. Shows da Superguidis são geniais porque são despretensiosos, e ainda assim extremamente competentes e apaixonantes, sem serem displicentes. É rock divertido. Um dos melhores shows do festival só podia ser de uma das melhores  bandas deste país.

Ainda com o sol forte da tarde de sábado, dia 5, o último do Macondo Circus, os são-carlenses da Aeromoças e Tenistas Russas abriram os shows na praça Saldanha Marinho, com uma mistura inusitada de sintetizadores ora psicodélicos, ora oitentistas, saxofone e guitarras groove. Outra atração da tarde, a Amp mostrou seu rock malvado, calcado no metal do Motorhead, com algo de stoner. Sem muita inovação, fizeram um baita show.

Ainda passariam pelo palco os mineiros da Dead Lovers Twisted Heart  e os locais da Saturno Experiment antes do esperado Proyecto Gomez. Única atração internacional do festival, o one man band Rodrigo Gomez fechou a programação de shows na praça. Argentino enorme, sem cabelo nenhum e com uma barba imensa, vestindo uma saia de plástico azul e com as unhas pintadas de vermelho, Rodrigo se cercou de bateria, baixo, guitarra, pedais e sintetizadores.

Foto de Estela Circus

Ele começava cada música tocando uma base em um dos instrumentos. Essa base era gravada e quando ele largava o instrumento, a gravação era acionada em loop enquanto ele iniciava outras notas em um segundo instrumento. E assim repetidamente até o fim, fazendo o show mais experimental de toda a programação. O público assistiu atento.

No Macondo Lugar, a noite começou com a Dinartes, de Passo Fundo (RS). O power trio se vestiu como os  droogies de Alex de Large para referenciar “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, no palco do Macondo. Com um som inspirado no mod e no primeiro disco do  Supergrass, eles abriram o palco para uma das atrações mais esperadas de todo o festival. Que a Black Drawing Chalks era uma banda reconhecida no país inteiro eu sabia. Mas que o show deles seria a maior catarse de todo o Macondo Circus, superando Móveis e Superguidis, não era nada óbvio.

Ao som da guitarreira suja e pesada e daquele baixo demoníaco, a platéia surtou em headbangs, cantando todas as músicas em inglês.  Não tem muito o que dizer sobre a banda do Victor, do Denis, do Douglas e do Renato, gurizões goianos que só querem se divertir. É isso mesmo, diversão. E diversão é a moeda de troca do rock and roll: quem faz e quem ouve só está atrás disso. Simples assim. A caterse que foi o hit “My Favorite Way” não se descreve. Diversão em estado puro. O festival ainda culminou com  a Pata de Elefante e seu groove instrumental.

Foto de Estela Circus

Foi o fim de semana que todo roqueiro gaúcho sempre sonhou. Há um festival de rock independente impecável no interior. Agora, Porto Alegre tem que providenciar o seu urgentemente.

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Janaina Azevedo é jornalista e escreve no jornal O Sul

A foto que abre esse texto é de Alessandra Giovanella. Mais fotos aqui

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Leia também:
– Festival Se Rasgum 2009, Belém, por Ismael Machado (aqui)
– Festival Indie Rock 2009, São Paulo, por Marcelo Costa (aqui)
– Festival Calango 2009, Cuiabá, por Marcelo Costa (aqui)
– Festival Rock de Inverno 2009, Curitiba, por Murilo Basso (aqui)

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