O melhor do Festival Calango 2009


Texto e fotos por Marcelo Costa

Cuiabá é o centro geodésico da América do Sul. A capital do Mato Grosso está exatamente no ponto central do continente sul-americano, e como lembrou Wander Wildner assim que ultrapassamos o rio que dá nome à cidade, a praia mais perto daqui está depois da Cordilheira dos Andes. O calor é intenso (o comandante do avião faz questão de frisar duas vezes os 35 graus de temperatura local) e uma guia conta que, quando faz 18 graus, parece que pode nevar a qualquer momento. É aqui que acontece o Festival Calango, um dos destaques do calendário independente nacional que junta nomes locais e “visitantes” em três dias de festa e muita, mas muita música.

A programação da sétima edição do evento, seguindo o padrão dos anos anteriores, é extensa. 50 atrações se apresentam durante três dias no Centro de Eventos Pantanal, um pavilhão com mais de 8.700 metros quadrados, e na Praça das Bandeiras, que recebem mais de oito horas de música diárias numa maratona que derruba quem não estiver com as condições físicas favoráveis e o sono em dia. Por isso, vale fazer uma pré-lista de quem você quer ver e prestar atenção, mesmo que de longe, para possíveis surpresas, afinal, muitas bandas encaram o festival como uma vitrine, e usam a meia-hora a que tem direito no palco (são dois, um ao lado do outro) para mostrar o crème de la crème de seu som.

Teve de tudo no fim de semana do Calango. Hardcore, hip hop, stoner, MPB, pop, grunge, punk brega, reggae, emo, punk 77, hippie, psicodélico e muito mais. Também teve sorvetes de frutas exóticas (“Por favor, um sorvete de cajamanga?”, peço ao vendedor. Ele responde: “Quer sal?”. Fico quieto e perplexo, e ele me dá um pacotinho: “Leva e experimenta”), churrascaria gaúcha em Cuiabá (o cara da picanha foi com a minha cara), banho de cachoeira na Chapada dos Guimarães, Galinhada no almoço (achei que fosse Maria Izabel, um dos pratos típicos da região, mas não era) acompanhada da tradicional farofa de banana e a grande sensação do fim de semana: as “Bacon Mints” do Zimmer, umas balinhas com gosto de bacon que (quase) todo mundo no festival provou. Abaixo, os shows.

Logo no começo do primeiro dia, o Herod Layne (foto acima), de São Paulo, chamou a atenção com um post-rock que ainda pode evoluir, mas já demonstra personalidade. O trio paulistano, que tirou os momentos calmos de seu set list para concentrar-se no barulho, deixou o palco 1 aplaudido por uma pequena audiência – que iria aumentar durante a noite. Elson, o baixista, usou até chave de fenda em seu instrumento. Improvisos a favor da música. Os paraenses do Vinil Laranja, embalados pelas credenciais de terem tocado no South by Southwest 2009, assumiram o palco 2 com seu vocalista, Andro Baudelaire, vestido de noiva. A roda de pogo agradeceu pelo barulho.

De Campinas, a Venus Volts surgiu exibindo domínio de palco e a vocalista Trinity. Show vigoroso, sonoridade ok. Pausa para cerveja e ar-condicionado na sala de imprensa, e o som do palco 2 volta a chamar a atenção com os locais do Venial, que prometeram um autêntico hardcore, e cumpriram com stage dive liberado. Bonito de ver. Nos corredores, um dos shows mais esperados vinha do Acre. E o trio instrumental Caldo de Piaba (foto acima) não decepcionou. A apresentação começou morna, meio blues, meio rock, mas assim que o trio engatou na brasilidade a coisa toda tomou rumo. E encerrar com “I Want You (She’s So Heavy)”, dos Beatles, foi bola dentro. Preste atenção neles.

No palco 2, o Snorks deu seqüência a festa com um punk rock que lembra o Dead Fish do começo de carreira. Saíram ovacionados. A Walverdes (foto acima) alternou canções inéditas com pequenos clássicos. “Meu Bar”, “Câncer”, “Anticontrole”, “Seja Mais Certo” e uma cover de “Sweet Leaf”, do Black Sabbath, colocaram a banda no Top 5 da noite. O rapper Emicida convocou a galera do hip hop, que compareceu em peso. Wander Wildner enfileirou clássicos: “Bebendo Vinho”, “Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro”, “Lugar do Caralho”, “Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo” e uma versão de “Amigo Punk”, da Graforréia Xilarmônica, lavaram a alma punk brega.

A programação do primeiro dia ainda tinha os argentinos do Norma e os heróis da casa, Macaco Bong, mas o avançado da hora cobrou seu quinhão. Melhor guardar energia para a maratona já que o segundo dia previa uma visita turística a Chapada dos Guimarães. Vinte desbravadores, entre músicos e jornalistas, saíram do hotel às 9h voltando quase às 19h. Desmaiei. Só cheguei ao Centro de Eventos Pantanal quando Jonas Sá  (foto abaixo) tocava sua segunda música, mas bastou para entrar no clima e aplaudir a performance genial do compositor carioca num dos grandes momentos do festival. O Do Amor, que acompanha Jonas, foi premiado: ganhou 20 minutos pra si e fez bonito num show surpresa (inclusive para eles).

Um dos nomes do momento na cena roqueira nacional, os goianos do Black Drawing Chalks não decepcionaram, e fizeram uma apresentação praticamente perfeita para uma audiência que cantava todas as músicas. Logo depois foi a vez do Holger (foto abaixo) fazer do Calango uma festa power folk indie com uma apresentação simplesmente impecável. Eles já tinham feito o melhor show do Festival Popload Gig, em São Paulo, meses atrás, e repetiram a dose com mais uma aparição empolgante que junta doses certeiras de carisma, entrega no palco e excelente execução instrumental. Um dos shows nacionais mais despojados e divertidos da atualidade.

Com o coração roqueiro feliz, virei as costas e parti com os joelhos castigados em direção ao quarto 307 do hotel Taiumã, e perdi um dos shows mais elogiados do segundo dia, e também a musa do Festival Calango 2009. De Macapá, o Mini Box Lunar atravessou o país para conquistar dezenas de corações em Cuiabá com seu pop hippie psicodélico de muito charme. Vale vasculhar o My Space do sexteto e esperar pelo show deles quando você cruzar com a banda. Eles tocam “em casa”, no Festival Quebramar, no Macapá (06/11) e são destaque da programação da 15ª edição do badalado Goiânia Noise 2009. Prometo que corrijo essa falta no próximo encontro.

No terceiro dia, o festival deslocou-se para a Praça das Bandeiras, ao ar livre, e recebeu seu melhor público. Um duelo de emo vs punk 77 abriu a festa. O Sincera pode vir a ser o NX Zero do Pará. As letras seguem o manual de auto-ajuda do estilo e pedem para você “ser você mesmo” e reclamam que o mundo não lhe dá espaço. Já O Melda (foto acima) é punk 77 tosquíssimo e divertidíssimo. Banda de um homem só, no caso o mineiro Claudão Pilha, O Melda funciona com bases programadas de bateria, riffs punks e tiradas “liricas” como “Mulher quando quer dar ninguém segura, mas eu não vou te comer, sinto muito meu neném, eu já tenho um outro alguém” (de “Alta Fidelidade”). Para rir e se divertir.

O sol se foi, a noite baixou e trouxe consigo o Vitrolas Polifônicas (foto acima), de Cuiabá, com uma mistura de rock, samba e blues bastante convincente. Tendo a frente a jovem Maisa Hollanda, 17 anos, a banda surpreendeu com um ótimo show e várias canções cantadas em coro pelo público. Teve até bis. Um presente forçou uma comparação desproposital: “Ela é a Mallu Magalhães de Cuiabá”. Na mesma hora, outro mandou: “Sou mais ‘É o Que Me Excita’ do que ‘Tchubaruba’”. Ponto a favor. Porém, a segunda surpresa da noite: entre lágrimas, a banda anunciou seu fim após o show. Maisa segue para Minas Gerais e promete trabalho solo. Um nome para se guardar.

Um dos favoritos do Scream & Yell, o trio Nevilton (foto acima), de Umuarama, viajou de ônibus quase 24 horas para se apresentar em Cuiabá. E quem pensa que o cansaço diminuiu o pique do trio está enganado. Apresentando seu novo baterista, o versátil Chapolla, o grupo fez uma apresentação vigorosa e contagiante com o baixista Tiago Lobão (exibindo uma bela camisa do Monty Phyton) e o guitarrista e vocalista Nevilton ensandecidos no palco. Foram apenas cinco músicas, mas na segunda eles já tinham o público nas mãos. Nevilton está se transformando em um excelente entertainment e “Paz a Amores” é o tipo de música com potencial raro de hit radiofônico, que na segunda repetição do refrão já tem todo mundo cantando junto.  Um show memorável.

Outra banda com as credenciais de terem tocado no South by Southwest, no Texas, o Cassim e Barbaria, (foto acima) de Santa Catarina, fez um show mais reflexivo e psicodélico, cuja base da formação – com membros egressos do Bad Folks, da Pipodélica e dos Ambervisions – pode dar uma pequena idéia da massa sonora criada pelo grupo em que duas guitarras duelam com duas baterias. Fim de festival para alguns. O público ainda tomava a Praça das Bandeiras, quando parti no rumo do hotel. O Festival Calango 2009 ainda teria Toninho Horta e Marku Ribas, mas o festival já tinha dado o seu recado: a cena independente (cuibana e nacional) vai bem, obrigado. Shows memoráveis, produção cuidadosa e um bom público mostram que o Festival Calango está no rumo certo.

Top Ten Calango 2009, por Marcelo Costa

Holger
Nevilton
Jonas Sá
Emicida
Wander Wildner
Walverdes
Vitrolas Polifonicas
Cassim e Barbaria
Herod Layne
O Melda

Menção: Mini Box Lunar, Do Amor e Black Drawing Chalks

Leia também:
– Holger e o Popload Gig 1 em São Paulo, por Marcelo Costa (aqui)
– “SIM”, de Nevilton, por Marcelo Costa (aqui)
– Nevilton e o Rock de Inverno 7, em Curitiba, por Murilo Basso (aqui)
– Jonas Sá e a nova música pop brasileira, por Marcelo Costa (aqui)

17 thoughts on “O melhor do Festival Calango 2009

  1. Foi foda. Cortaram nosso som na ultima musica.
    Estavamos nos 29 minutos, dos 30 previstos.

    Um desrespeito imperdoavel.
    Uma canalhice grotesca.

    Desculpem-me, prometo um show completo em Cuiaba em breve: mas nao com amadores!!!

  2. Grandiosa balburdia; bacon mints extraído de forma escatológica; muitos flamenguistas; lobos maus seguindo a parte bela do Mini Box Lunar; top 10 por aí mesmo; boas surpresas e alguns HC’s desnecessários – ao menos em determinados horários – mas no geralzão foi dos bem bons.

    Abrax

  3. Pau no seu cu zimmer, ate o dia do seu show tu tava falando que era o melhor festival que tu ja tinha tocado. Cntradiçao passional do caralho!

    Mas se ja ta tudo resolvido, reitro o pau do seu cu e tambem volto a te amar.

    abs!

  4. Deixando claro: o festival foi foda, me desentendi com o som – que foi resolvido com uma conversa!!!!

    Eu amo o Calango, o Calango me ama!
    Nos amamos loucamente!

    Bacon, SEMPRE!

  5. Exemplo de organização, estrutura e profissionalismo. Foi o primeiro festival nacional da Herod e se pintar convite voltamos ano que vem!!!

    Fora do Eixo – PARABENS!!!

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