Entrevista: Dark Room Notes

Por Danilo Corci

Não há muitas dúvidas que a Irlanda é um país cheio de nuances, onde a predominância do verde parece refletir numa produção cultural criativa e sem medo de riscos. É de lá que, ultimamente, várias bandas dos mais variados estilos tem despontando e chamado bastante a atenção.

Um dos casos mais recentes é o Dark Room Notes. Formado em Galway, em 2004, por Ronan Gaughan, Ruari Ferrie, Ruairi Cavanagh – mais tarde substituído por Arran Murphy – e Darragh Shanahan, a banda faz o que pouca gente ainda acharia possível ser feito em pleno anos 00: um synthpop da melhor qualidade.

Depois da formação e de alguns anos se preparando, em 2007 lançaram o EP “Dead Star Program”, chamando a atenção na cena local. Mas com “We Love You Dark Matter”, de 2009, finalmente capturaram a atenção ampla, em especial na Europa continental.

As canções do álbum, em especial “Love Like Nicotine”, parecem prontas para tocar em clubes e agitar qualquer alma perdida no lugar. Por usarem e abusarem de sintetizadores e vocais empostados, estão sendo comparados ao Interpol e, claro, ao Joy Division. Nada poderia ser mais distante. O Dark Room Notes está muito mais para Gary Numan do que para o jeito soturno. E isso é ótimo, não se engane. Para saber um pouco mais da banda, conversamos, via e-mail, com Ruairi Ferrie. A entrevista você lê abaixo.

Como vocês começaram?
Éramos adolescentes e tínhamos uma banda de grunge, o que não durou muito. Descobrimos que os sintetizadores faziam sons muito mais interessantes do que guitarras. E que os computadores faziam um som ainda melhor. Eu e Ronan nos juntamos com Arran há cinco anos para formar a banda e Darragh está com a gente há três. O resto é história.

E de onde vem o nome da banda?
Arran estava fazendo um curso de fotografia e quando se juntou à banda, no seu primeiro ensaio, ela levou seu notebook. Nele estava escrito Dark Room Notes. Nós tínhamos inventados dezenas de nomes horríveis e sentimos que aquele poderia funcionar bem. Sorte nossa que ela não estava fazendo um curso de tricô.

Creio que pouquíssimos brasileiros conhecem a banda. O que você falaria para eles?
Somos um pouco pop, um pouco rock, um pouco electro e um pouco techno, algumas vezes até house e trance (não de verdade). Na verdade, fazemos a música que queremos fazer sem se preocupar com rótulos e categorias que vão nos enfiar. Se soar bom pra nós é só o que importa.

A banda é relativamente nova. Por que a escolha do synthpop, um gênero que já parecia esquecido?
A banda pode ser nova, mas nós absorvemos diferentes gêneros de música desde muito pequenos. Acho que um estilo que, de fato, nos atrai muito é o pop. Tocamos muito sintetizadores, então se torna synthpop. Poderíamos escrever música pop com guitarras, mas gostamos de dar mais profundidade à música e recheá-las de elementos eletrônicos.

Em alguns sites comparam vocês ao Joy Division e Interpol. Ouvindo o som de vocês, isso me parece tão distante que até causa surpresas. Vocês são muito mais “divertidos”, não concorda?
Acho que estas bandas se levam muito a sério. Esta comparação nunca nos pareceu óbvia. É uma maneira preguiçosa de categorizar uma banda. Há um pouco de trevas em nossas letras e, talvez, nossa imagem nos faça parecer sérios demais, mas o humor permeia nosso trabalho. Tentamos nos divertir o máximo possível. Fazer o disco foi uma experiência deliciosa, então esperamos que isto esteja claro em todo o álbum.

A Irlanda é um país de forte tradição musical. Onde vocês se encaixam neste cenário?
Um dos mais interessantes comentários que ouvimos sobre o disco quando ele foi lançado é que ele nada tinha de irlandês. Isto não foi planejado, mas também não foi uma surpresa. Nunca pensamos em nos definir pelo lugar de onde viemos e a menos que você esteja imerso na cultura musical tradicional de seu país (coisa que não estamos), não há uma razão para que sejamos identificados com uma nacionalidade em particular. Isto em qualquer lugar.

Vocês já tem um EP e um disco lançado. Já dá para viver da banda?
Você está brincando, né? (risos)

Paixão e sexo são temas recorrentes no Dark Room Notes. Elementos cruciais da vida, na opinião de vocês?
Estaríamos perdidos sem eles!

Alguns dos timbres de sintetizadores que vocês usam são fantásticos. Quais são os equipamentos?
Tivemos bastante sorte de ter acesso a vários equipamentos analógicos durante as gravações. Tem Moogs, Pro-Ones, Putneys, Jupiters, Junos, Wurlitzers, a lista é gigante. Mas não pudemos ficar com eles, então, no momento, somos uma banda bem digital ao vivo. Fazemos de tudo para recriar aquele som.

E como foi trabalhar com Ciaran Bradshaw? (nota: Ciaran é um Bonadio irlandês).
Maravilhoso. Ele nos guiou por todo o processo, e tem estado conosco desde o início. Apesar de ser o mais novo da família DRN, ele é o mais experiente e se mantém como uma influência positiva para a banda. Sua produção tem tantos méritos quanto os das músicas.

E a criação? Como se dá o processo? Alguém já chega com algo pronto?
Depende. Algumas canções chegam prontas de uma pessoa, mas ultimamente o processo colaborativo tem sido maior, onde apenas a menor das sementes de ideias vem de uma pessoa e o resto da banda brinca com ela até virar uma música do DRN. O segundo disco será muito mais de um esforço colaborativo.

Vocês tem alguma influência literária já que são da Irlanda?
Nem tanto. Se algo da literatura nos influenciou, então talvez sejam as sátiras cômicas e fantásticas de Flann O’Brien.

Hoje em dia, as bandas lançam discos muito rapidamente. Vocês já estão trabalhando em um novo álbum?
Certeza. Começamos a escrever novas músicas antes de o primeiro disco ter saído. Nosso segundo sairá ainda mais rápido, ainda que as músicas precisem ainda de mais tempo e trabalho. Estamos doidos para voltar para o processo de escrever e criar.

O que vocês tem ouvido?
Thom Yorke cantando “All For The Best”. Miracle Legion, The XX. E um pouco de Kings of Convenience para relaxar.

Que outras bandas irlandesas você me recomendaria?
Subplots (http://www.myspace.com/subplots)
Villagers (http://www.myspace.com/wearevillagers)
e Spilly Walker (http://www.myspace.com/spillywalker).

E o futuro? Quais os próximos passos?
Acabar o novo disco, gravá-lo, lançá-lo, tocar no máximo de países que conseguirmos e, se possível, repetir tudo de novo.

My Space: http://www.myspace.com/darkroomnotesireland

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Danilo Corci é jornalista e editor dos sites Speculum e Mojo Books

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