“A Verdade Nua e Crua”, de R. Luketic

Por Marcelo Costa

O sucesso de “Ele Não Está Tão A Fim de Você” (que chegou quase a U$$ 100 milhões de bilheteria nos Estados Unidos) já começa a fazer escola em Hollywood. Seguindo a trilha aberta pelo primeiro, “A Verdade Nua e Crua” (“The Ugly Truth”) arrisca alguns pontapés no sonho feminino pelo príncipe encantado, mas tropeça na conformidade de um roteiro que não acredita nas premissas que ele próprio propõe.

Abby Richter (Katherine Heigl) é aquele tipo de mulherão que só existe em comédia romântica norte-americana: loura, alta, linda e culta. E solteira. Ela é produtora de um programa de televisão e além de lutar para levar o canal a melhores colocações de audiência, também está à procura do homem perfeito, e não anda tendo sucesso em nenhum dos dois territórios.

Mike Chadway (Gerard Butler) comanda um programa tosco durante a madrugada em um daqueles canais que ninguém assiste, e o usa para (esculachar e) abrir os olhos das mulheres dizendo a verdade nua e crua: os homens querem sexo, não querem amor. Ele é ótimo no papel do machista que conhece o melhor caminho para se andar no campo minado feminino, e o destino destes dois seres antagônicos acaba se cruzando.

Durante um telefonema de Abby para Mike, ao vivo no programa de TV dele, ela lista as qualidades do que ela (e milhares de mulheres) acredita(m) ser o homem perfeito até que ele a interrompe e crava: “Perai, você está procurando uma mulher”. Nosso amigo ainda distribui várias sabedorias de borracharia enquanto a dama só pensa no príncipe que irá pegá-la no colo e levá-la em seu cavalo alado.

É um embate que já foi travado tantas vezes nas telas dos cinemas que fica difícil lhe dar algum crédito, por menor que seja. Ou você tem alguma dúvida do que vem a seguir? Spoiller, hein: Ela o odeia com todas as forças no começo, ele não dá muita bola para ela. Os dois travam um trato em que ele a ajudará a conquistar o cara que ela está a fim e eles, por fim, vão acabar se apaixonando e viverão felizes para sempre. Será?

A direção manjada de Robert Luketic e o roteiro assinado a seis mãos por Nicole Eastman, Karen McCullah Lutz e Kirsten Smith são tão óbvios e estereotipados que chegam a dar náuseas. A premissa, convenhamos, é bastante interessante: um homem explica para uma mulher exatamente o que passa pela(s) nossa(s) cabeça(s) – o pôster oficial permite a deixa, e com esses dados em mente ela parte a caça com a arma entre um decote e um cruzar de pernas.

Porém, a premissa não se sustenta e o roteiro domestica o machista em um caso de “cão que late não morde” que permite acreditar que mesmo atrás de um motorista de caminhão há um homem delicado e apaixonado. Há algumas boas idéias e outras pouco originais (como a cena do orgasmo copiada de “Harry e Sally” em que Katherine Heigl perde para Meg Ryan) em uma comédia que prometia contar a verdade, mas mente descaradamente. 

O problema central – de quase toda comédia romântica fracote – é romantizar demais a vida. Aqui, por exemplo, Abby acaba percebendo corretamente que o melhor é ser ela mesma do que uma versão planejada do que os homens querem enquanto Mike, o machão, acaba se derretendo por ela. Dou três meses para essa história de amor chegar ao fim, afinal Abby é tão bonita quanto chata e insossa. Melhor subir os créditos rapidamente antes que o público perceba isso.

Não existe uma fórmula do amor, e isso todo mundo sabe (ou deveria saber). O que “A Verdade Nua e Crua” pretendia desenvolver, mas tropeçou, era a idéia de que os homens, na grande maioria das vezes, pensam com a cabeça de baixo (olhe o pôster). O recado mais esperto do filme, porém, passa batido. Como são os homens, diz Mike: “Simples”. Você não vai acreditar, eu sei, mas essa é a verdade nua e crua.

Leia também:
– “Ele Não Está Tão A Fim de Você” , por Marcelo Costa (aqui)

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