A décima edição do Curitiba Calling

Por Murilo Basso e Luiza Garcia

Curitiba completou 316 anos no final de março e, para comemorar, o Espaço Cultural 92 Graus em parceria com o site mondobacana promoveu mais uma edição (a décima) do Curitiba Calling. Em três dias de festival, 40 bandas se apresentaram divididas em dois palcos. O line-up mesclou nomes já consagrados da cena local com novas bandas, oferecendo toda diversidade musical que torna a cidade um dos principais centros do novo rock independente nacional.

Os shows começaram na sexta (27) com Narciso Nada abrindo bem a noite, mas o público estava mesmo ansioso por Giovanni Caruso e o Escambau. E mesmo encontrando seu público – e contando com bons músicos – a ansiedade não foi justificada. A opção por uma linha harmônica com fortes referências a Relespública, lançando mão de figurinos e discurso manjados e sem, em nenhum momento, conseguir se afastar do estilo “moderninho, safado e underground”, a banda do ex-Faichecleres se perde em meio a uma forte crise de identidade, Por sua vez, O Pão de Hambúrguer surpreendeu positivamente. Canções como “Ó Pai” e “Princesinha do Tio” retratam bem o pop rock sem falsas pretensões da banda. “Ontem e Hoje” fechou de maneira empolgante uma boa apresentação.

Na seqüência, o coletivo Heitor & Banda Gentileza, grande promessa da noite, usou o ska – no formato norte-americano – para introduzir sua música. Unindo rock, jazz e reggae, adaptado da Jamaica com uma vertente de bandas que explodiram nos anos 90, como Reel Big Fish e Mighty Mighty Bosstones, eles incluíram bossa nova e música brega. Uma mistura que a primeira vista pode parecer confusa, com Heitor se mostra uma escolha certeira. Nas composições prevalece o rock despojado, com arranjos de sax, violino e trompete. Nas letras estão versos simples, contendo romantismo inteligente e surrealismo. Uma pena o som ter deixado a desejar.

No sábado (28), a Plêiade deu seqüência ao festival. Apesar de estar bem amparada por dois bons músicos, o velho clichê do “vocalista-messiânico” assombra a banda ofuscando o talento dos demais integrantes.  No fim, o que poderia empolgar, desanima. Mas não há tempo para desanimo. Por volta das 21h, o Biotonix assume o palco com sua sonoridade no melhor estilo surf music, honrando o gênero com fortes melodias e vocais afinados. Esbanjando bom humor os rapazes conseguiram dar seu recado e divertir o público com boas canções como “Oh Oh Oh” e “Vitamina”.

Logo em seguida, o trio Nevilton (foto) mostrou que os elogios que o grupo vem recebendo da crítica não são à toa. Os garotos conseguiram superar as altas expectativas com uma apresentação forte, direta e sincera. A guitarra de Nevilton, entre um riff e outro, mostrou o lado performancer e descontraído. A bateria de Fernando Livoni é um show à parte. “Bolerothèque” contagiou a platéia com seu ritmo dançante enquanto “Pressuposto” é o retrato perfeito da personalidade do trio. O refrão de “Paz e Amores” foi cantada em coro: “Viver em paz, com quem quer que seja / ouvindo música e bebendo cerveja / Essa é a vida que eu pedi para Deus / só isso e nada mais!”. Tente esquecer este refrão agora. O show continuou repleto de improvisos. Estamos diante do bom e velho rock’n’roll, algo cada dia mais raro.

Com cerca de duas horas de atraso em relação à programação original, a Trivolve iniciou sua apresentação com a bela “Que a Loucura Me Faça”, revisitou canções já conhecidas do público curitibano como “Até Chegar” e “Não Preciso Chorar”, realizando uma apresentação tecnicamente perfeita. A voz de Mônica e sua presença no palco se tornam mais marcantes a cada apresentação. É não deixa de ser gratificante ver André Becker continuar tocando e surpreendendo, e então perceber que a simplicidade, sempre característica da banda, continua caminhando junto com seus músicos.

Os percussores do britpop curitibano, o Mosha, também eram esperados pelo público, devido a uma reclusão de seis anos nas atividades com cancelamento de shows e a morte do baixista Mario Beena em 2007. A volta dos veteranos foi emocionante para o seu público fiel, cantando clássicas como “Circle” e “Spaceman”. Já o Anacrônica apresentou seu pop rock, como sempre, muito bem feito. A opção por canções mais “fortes” se mostrou acertada. “Totem” começou balançando o público que antes mesmo do seu fim já cantava o inicio de “Volta”. A banda deu seqüência ao coro em perfeita sincronia. O bom humor quase poético de “Deus e os Loucos” também marcou presença e o final com “Delorean” levou a platéia ao êxtase.

Entre todas as propostas que compõem o som do Mordida, a que se sobressaiu no Curitiba Calling foi, sem dúvida, a prioridade pela diversão, o que pode ser percebido logo na escolha do setlist. Abrindo com “Tapete Molhado” e seguindo com “Eu Amo Vc”, sempre acompanhada de previsíveis sorrisos no clima de descontração que já se tornou uma das maiores referências da banda nesses cinco anos de estrada.

O Charme Chulo (foto) entrou e logo demonstrou sua força. O entrosamento entre os vocais de Igor Filus e a viola caipira de Leandro Delmonico é genial. A mescla inusitada entre o irônico e o melancólico, fundamentada em letras bem humoradas e arranjos regionais contagia nos primeiros acordes. É impossível ficar parado. O desempenho do vocalista no palco enche os olhos; na segunda música você já virou fã. O melhor show da noite e um dos melhores da cena curitibana atual. Fechando o segundo dia, Os Dissonantes fizeram uma apresentação ok.

O último dia de festival (29) começou lento e se arrastou por um bom tempo. Até o Red Tomatoes aparecer com seu pop descolado, despretensioso e muito bem produzido que destacou canções como a bacana “Crazy Forever” e a radiofônica “Ela e Esse Não É o Lugar”. Da Alemanha surgiu uma das apostas da organização do evento, The Randerings, que mostrou um hardcore bem estruturado com influências nítidas de punk 77, Ramones, Misftis e MC5. O som é basicamente composto por uma guitarra bem definida e o ritmo das músicas baseado em uma bateria acelerada. Pela primeira vez em Curitiba, o Randerings mostrou que a viagem não foi em vão conquistando a simpatia do público com seu carisma.

E o festival voltou a se arrastar. Por longas horas até o momento em que os veteranos do No Milk Today (foto) entraram em cena dando uma verdadeira surra nos novatos. Uma aula sobre como empolgar o público. Dando vida nova as suas antigas canções, os “senhores” fizeram o 92 Graus e os poucos “heróis” que permaneceram até às 2 da manhã balançar ao som de “Liberdade Ltda” e “Garota Junkie”.

Em sua edição 2009, o Curitiba Calling deixou um pouco a desejar por culpa dos longos atrasos, mas por outro lado, bons shows como os de Biotonix, Trivolve, Anacrônica, O Pão de Hambúrguer junto as apresentações marcantes de Nevilton, Charme Chulo e No Milk Today fizeram as noites valerem a pena. Como saldo, algumas bandas bacanas, outras nem tanto, muitas histórias e algumas mancadas simplesmente sensacionais como “Ô, podem ligar o som novamente. É que a gente queria fazer um ‘bis’”. Ou ainda, após os 45 primeiros segundos de execução ouvir algo como: “Pára, pára. Eu esqueci a letra, podemos começar de novo?”. Sem contar, aquelas bandas que provavelmente estão tendo os 30 minutos mais importantes da sua vida, a maior oportunidade para mostrar seu trabalho e gastam boa parte do tempo fazendo covers. Paciência, um dia eles aprendem. Tomara que até o próximo aniversário de Curitiba.

Fotos: Vinicius Salvino (http://www.flickr.com/photos/vinicius_salvino/)

Leia também: “Curitiba ficou pequena”, por Murilo Basso (aqui)

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