Entrevista: Pública

Por Nuno Manna

Em oito anos de banda, o Pública se destacou em meio às bandas gaúchas, desenvolveu sua proposta musical indie-brit-rock, lançou um disco em 2006, concorreu a prêmio no VMB e foi elogiado pela Rolling Stone Brasil. “Temos uma cena restrita e pseudo auto-suficiente, mas que na prática está com os dias contados”, diz o vocalista Pedro Metz, se referindo à crescente necessidade de se viajar para desenvolver seu trabalho. Mas essa preocupação marca não só a constatação de uma nova realidade mercadológica, bem como um momento importante na carreira do grupo. Pouco tempo depois do lançamento do seu segundo disco, “Como Num Filme Sem Um Fim”, a banda parece estar preparada para a avalanche que espera.

Foi fazendo uma revisão pessoal e musical que o Pública rendeu um disco grande, encorpado e mais maduro. Mostra em suas canções uma preocupação de composição de quem não está só brincando com possibilidades e vendo no que vai dar no final.  Se o rock gaúcho ganhou destaque nessa última década, talvez “Como Num Filme Sem Um Fim” seja um grande passo para que o “gaúcho” caia em desuso; e então o Pública ultrapasse os limites de uma cena e se torne “só” rock.

“Como Num Filme Sem Um Fim” é uma resposta a um processo. Sejam lembranças dolorosas ou a nostalgia de uma infância, cada canção remete a experiências que se passaram, mas que ainda se fazem presentes nas vidas dos integrantes. Então, tudo isso é reprocessado e devolvido de forma reflexiva. É também o que acontece com uma bagagem musical acumulada pela banda. Timbres, estruturas e estilos viram referências, que são então reapropriadas criativamente.

No começo da primeira faixa ouve-se o som de algo sendo tocado ao contrário. O motivo que surge dali remete ao que se descobrirá ser a última música do disco. Será só numa segunda audição, portanto, que o ouvinte descobrirá que a metáfora contida no título já se iniciava – e se completava – naqueles primeiros segundos. Ao ligar as duas pontas do seu disco, o Público revela o circulo que funda suas canções. E então, a segunda audição será ainda maior que a primeira. “Como Num Filme Sem Um Fim” é, por tudo isso, um disco que pretende fervorosamente ser ouvido várias vezes.

A banda se formou em 2001 em Porto Alegre, reunindo caras com afinidades musicais: Beatles, Stone Roses, Strokes, Television, Smiths, Oasis, David Bowie, Supergrass, Radiohead, Rolling Stones, são influências assumidas pra quem quiser ouvir. Em um estúdio montado numa casa de campo em Três Coroas, no interior do Rio Grande do Sul, o quinteto (que ainda conta com Assis na guitarra, João Amaro no piano, Cachaça na bateria e Guilherme no baixo) gravou as 11 faixas do primeiro disco, “Polaris”, lançado em 2006.

Depois de certo sucesso, o Pública, dando mais uma volta na sua espiral, voltou à mesma casa para se concentrar na gravação de 11 novas canções, em abril de 2008. “Como Num Filme Sem Um Fim” foi disponibilizado para download no fim do ano passado (baixe aqui: www.publicaoficial.com), e lançado fisicamente em janeiro. O CD vem acompanhado de um DVD com o documentário “Casa da Esquina 23” que registrou as gravações do álbum e a paisagem inspiradora da serra gaúcha. Em entrevista ao Scream & Yell, Pedro Mertz se revela satisfeito com as conquistas da banda, muito bem resolvido com seu projeto musical, e com intenções de levar o grupo a um próximo estágio. Chega da paz e do silêncio da casa de campo de Três Coroas. É hora de fazer barulho.

“Como Num Filme Sem Um Fim” está marcado por alguns contrastes: o pop e o underground, o ingênuo e o obscuro, o simples e o elaborado. Existe uma intenção?

Sim, existe. Quando começamos a fazer este disco não tínhamos um tema ou uma idéia fechada. Com o passar do tempo notamos que as primeiras faixas que arranjamos eram as mais loucas do disco. Sentimos a necessidade de equilibrar com faixas mais pop’s. Queríamos realmente esta separação “Lado A” e “Lado B”, porque temos uma versatilidade musical que precisava ser mostrada. Fora a parte musical, como tu bem reparaste, também existe a questão das letras, ora ingênuas, ora abstratas, nostalgicamente esperançosas. No documentário (“Casa da Esquina 23”) que vem junto com o disco falamos bastante sobre isso, sobre temas que parecem opostos mas que na verdade são complementares. 
 
Pra você, qual é o melhor exemplo de “Lado A” e de “Lado B” do disco?

Acho que se houvesse uma separação efetiva, ficaria “Quarto das Armas”, “Casa Abandonada”, “Sessão da Tarde” e “Há Dez Anos ou Mais” como lado A, e “Vozes”, “Justiceiro” e “Luzes” como lado B. “Canção de Exílio”, “1996”, “Último Andar” e “Como Num Filme Sem Um Fim” ficam no meio, depende do ponto de vista do ouvinte. São elas que dão o tom do disco, as que contêm os opostos.

Há uma proximidade em certos aspectos entre a música de vocês e a de bandas gringas contemporâneas como Franz Ferdinand e Strokes. Isso diz mais de uma sintonia com tendências atuais e do compartilhamento de influências em comum, ou é uma aproximação consciente e deliberada?

Acho que a primeira suposição é mais acertada hoje em dia, mas obviamente também fomos afetados pelo ‘arrastão strokes’ pelos idos de 2002, 2003. Não vejo tanta semelhança entre nós e estas bandas citadas, alguns traços em comum. Pessoalmente, gosto das duas, principalmente dos Strokes. Acho os 3 discos muito bons.
 
E em que ponto principal você acha que a música de vocês se difere do dessas bandas?

Em vários pontos, desde as letras, melodias, estrutura instrumental, vocalistas… o piano é muito presente na Pública e praticamente ignorado por estas bandas citadas.

“Como Num Filme Sem Um Fim” parece ter um clima de revisão, de reelaboração no som da banda em relação ao primeiro disco, de uma organização e apropriação mais ativa das influências. Isso está também nos temas das canções que falam de experiências passadas e refletem como elas afetam vocês agora. Isso está relacionado com o momento da vida de vocês?

Sim. Estou com 30 anos e como faço quase todas as letras, isso pesou um pouco para que eu fizesse uma revisão das coisas que tinha passado na vida. E foram coisas ótimas, algumas tristes, mas hoje eu reconheço a importância desses acontecimentos na minha formação. E não sei se é uma apropriação das influências ou se chegamos realmente na nossa música. Difícil analisar internamente. Talvez uma coisa não exclua a outra né…
 
De que forma o contexto local em que a banda nasceu se faz presente na música do Pública?

Nada especial. Nunca nos influenciamos pelo rock gaúcho. Atualmente dou muito valor ao rock feito por aqui nos anos 80, De Falla, TNT, Cascaveletes, Graforréia… mas quando adolescente não escutava e não foi uma influência ou fonte de inspiração para gente. Hoje sou amigo e admirador de quase todos eles. Mas nossa geração surgiu com outras bandas, como Superguidis, Cartolas, Pata de Elefante, Locomotores, Planondas, Viana Moog, que são bandas que eu adoro. Então estas bandas trazem diversas bagagens musicais e consequentemente te fazem ouvir bandas e artistas antagônicos como Pavement e The Band, Sonic Youth e Ray Charles. E isso acaba por moldar um pouco mais a tua música.

E de uma forma mais ampla? Não só musical, mas culturalmente. Porto Alegre parece ser uma referência importante, como no clipe de “Lugar qualquer”. Como é que viver em Porto Alegre afeta a obra de vocês?

Porto Alegre é uma cidade bastante peculiar. Tem um ar meio nostálgico, mas é uma cidade bonita. Uma cidade que tem uma ligação forte com Montevidéu e Buenos Aires. Portanto ela é uma cidade brasileira meio deslocada. O povo gaúcho também é diferente. É um povo fechado, meio desconfiado, mas hospitaleiro e amigo quando conhece os visitantes. E tem o Colorado, né, que é maior coisa já feita nessa cidade! Isso sim é referência!

Nessa última década o rock gaúcho ganhou destaque nacionalmente. Qual é a principal contribuição que o rock gaúcho tem para o rock nacional?

Difícil avaliar. A própria obra dos artistas é sua maior contribuição, porque o principal mérito é musical. Nunca fomos modelo de negócios, nem de imagem. Temos uma cena restrita e pseudo auto-suficiente, mas que na prática está com os dias contados. Acabou o mar de rosas dos anos 80 e 90, em que as bandas não precisavam sair daqui para viver de música.

E quais são os primeiros horizontes que vocês gostariam de explorar?

Pensamos bastante em morar em São Paulo. Temos discutido quase que diariamente esta possibilidade. Só que a questão financeira ainda pesa muito para continuarmos aqui. Adoramos São Paulo e nos identificamos com a cidade, cultura, bandas amigas… o mais provável é que continuaremos morando aqui mas indo periodicamente para o centro do país. Na verdade tudo depende da repercussão do novo álbum, que está bem boa até o momento. Vamos ver o que o futuro nos reserva. 

O Pública concorreu no VMB de 2007 na categoria de “Aposta MTV”, e já foi chamado pela revista Rolling Stone como “the next best thing” do rock gaúcho e brasileiro. Até onde se estende a pretensão da banda e qual é o lugar que ela quer para si na música?

Musicalmente estou muito contente com nossos dois discos. Esperamos fazer discos tão bons quanto estes no futuro próximo. Quanto a questão de visibilidade, queremos atingir o grande público, por mais fantasioso que isto possa parecer. Temos uma leva de críticas positivas e um público que cresce e gosta cada vez mais. Nunca fomos hypados, tudo aos pouquinhos, porém sempre pra cima. Gostaria de continuar neste caminho, pro alto e avante!

Download
– Baixe o álbum “Como Num Filme Sem Um Fim” no site oficial do Pública

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Nuno Manna é jornalista e assina o blog Reset

3 thoughts on “Entrevista: Pública

  1. Eu já tinha baxado esse disco a um tempo, e é tão queremos ser legião q fica foda gostar…torço pra eles se darem bem, pelo menos não cantam gritando as vogais…ou musica de corno com guitarras horriveis…mas q eh ruim isso é vero
    Indie indie indie é quase tão ruim quanto emo emo emo

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