“In Rainbows”, do Radiohead

texto por Marcelo Costa

Desde a quarta-feira passada dia 10, “In Rainbows”, sétimo álbum de inéditas do Radiohead, pode ser comprado em versão MP3 pelo site oficial da banda. O preço é por conta do freguês, mas custa no mínimo US$ 0,45 – valor que a administradora de cartão de crédito cobra para efetuar a transação. Porém, para todos aqueles que não possuem um cartão de crédito internacional e/ou não acreditam na postura política da banda de deixar o preço de seu trabalho para o próprio comprador, “In Rainbows” já está “disponível” em centenas de blogs e, no mesmo dia do lançamento, mais de 50 usuários do Soulseek ofereciam o álbum.

Independente da forma que você vai obter as músicas, uma coisa é certa: “In Rainbows” é um dos melhores discos que o Radiohead já lançou, e só isso representa muito, visto que a estratégia de lançamento do álbum foi tão avassaladora e revolucionária que a banda corria o risco de deixar as canções em segundo plano. Isso não acontece porque “In Rainbows” reúne um grupo conciso de canções que representa – e bem – a musicalidade de uma das bandas mais inteligentes dos últimos dez anos na música pop. “In Rainbows” começa acelerado, violento, com batidas eletrônicas se atropelando, detalhes de guitarras, crianças berrando e efeitos para ir diminuindo a velocidade com o decorrer do disco.

Após o anúncio da banda – no dia 01 de outubro – sobre o lançamento de um novo disco pipocaram na web dezenas de bootlegs contendo versões ao vivo das canções que iriam compor “In Rainbows”. Apesar da qualidade excelente da maioria das gravações, nenhuma alcança o nível de produção do álbum nem dá ao ouvinte uma idéia clara do que a banda tem em sua mente perturbada. Se ao vivo as guitarras se sobressaiam, em estúdio eles ainda marcam presença, mas as eletronices é quem chamam a atenção. O interessante, porém, é que o Radiohead alcançou um estágio raro na música pop: o de criar pérolas atemporais. Quem trabalha com eletrônica corre o imenso risco de soar datado no minuto seguinte, mas o Radiohead sai pela tangente trabalhando a melodia e alimentando os arranjos com centenas de detalhes.

“15 Step” abre o álbum com batidas de bateria se misturando a scratchs. Até os 40 segundos é só batida e a voz de Thom Yorke criando o clima, convidando o ouvinte a penetrar no mundo esquisito do Radiohead. Convite aceito, e uma guitarrinha esperta marca o canal esquerdo enquanto batidas se atropelam, crianças berram, o baixo dá um oi e teclados gélidos fazem nevar sobre a melodia. Quando se percebe, era uma vez a canção. “Bodysnatchers” surge e é uma porrada sensacional. Guitarras sujas disputam espaço com a bateria – eletrônica e humana – afundando a voz de Thom Yorke no refrão, que diz: “Eu não tenho a mínima idéia sobre o que estou falando / Estou preso neste corpo e não posso sair”. Os teclados gélidos voltam a surgir, e remetem a trilogia berlinense de David Bowie. No final, a canção parece um carro desgovernado. As guitarras aumentam, a batida da bateria acelera e tudo acaba abruptamente em microfonia. Candidata a clássico.

Depois da tempestade, a calmaria. “Nude” já era conhecida fazia tempo, e a versão final da canção (que pode ser encontrada em mais uns cinco arranjos diferentes por ai também com o nome de “Big Ideas”) transformou a música em uma balada glacial com backings e teclados fazendo a cama em que os desejos sombrios se deitam, se enrolam e se enforcam: “Não tenha grandes idéias / Elas não vão acontecer / Você ira para o inferno / Para o que sua mente suja pensa”, diz a letra, que ainda avisa, no refrão: “Ela te beija com a língua e te empurra para a cama: não vá, você vai querer voltar de novo”. Thom Yorke canta magnificamente bem. “Weird Fishes/Arpeggi” é o que nome sugere: duas canções em uma. Na primeira parte a bateria é sincopada e repetitiva, com uma guitarra comandando, outra uma oitava abaixo no canal esquerdo, e uma terceira surgindo para engrossar a melodia alguns segundos depois. Após os quatro minutos (quando começa a segunda parte), a canção fica fantasmagórica.

Na belíssima “All I Need” quem toma as rédeas é o contrabaixo, desnudo e poderoso. Um pianinho surge mais a frente, mas a canção já está tão impregnada na pele que fica difícil retirar a linha de baixo da cabeça. É neste momento que o caos surge com Thom Yorke gritando: “Está tudo errado, está tudo certo, está toda errada”. “Faust Arp” é acústica e traz viola e cordas. Soa estranha e bela após toda tempestade de baterias eletrônicas segundos atrás, como se fosse um momento de reflexão no meio do fim do mundo. As baterias retornam martelando de forma descompassada em “Reckoner”, que lembra muito a safra “Kid A” e termina perguntando: “Eu atendo a todas as suas necessidades?” “House of Cards” é um dos pontos altos de “In Rainbows”, um jazzinho eletrônico espacial de fazer robôs chorarem. Na letra, o personagem diz que não quer amizade, só sexo, aconselha a outra parte a esquecer de seu castelo de cartas, pois ele vai desabar, mas antes avisa: “Jogue as chaves na tigela e dê um beijo de boa noite em seu marido” (assista “Tempestade de Gelo”, de Ang Lee, que a frase – e a letra – se explica).

O disco está chegando ao fim, mas antes uma surpresa: “Jigsaw Falling Into Place” – outra famosa nas edições bootleg, também conhecida como “Open Pick” – aparece com violões onde antes a guitarra comandava, e joga a versão final da canção para o grupo de músicas nota 10 de “In Rainbows” ao chocar violões com bateria eletrônica. As portas se fecham com baterias em eco e clima de despedida. É “Videotape”, música em que Thom Yorke avisa: “Esta é minha maneira de dizer adeus / Porque eu não posso fazer isso cara-a-cara / Estou conversando com você / Antes que isso seja tarde demais / Através de meu videotape”. O clima é de lirismo. Thom começa cantando sobre notas de piano. No refrão, a bateria surge com ecos acompanhando a repetição da palavra videotape, e fica quase até o final, quando a letra fecha a canção (e o álbum) de forma encantadora: “Não importa o que acontece agora / Eu não terei medo / Porque hoje eu sei que terei tido / O dia mais perfeito que eu já vi”.

“In Rainbows” satisfaz toda ansiedade que surge na espera por um novo disco do Radiohead. É um disco muito mais “Kid A” (e “Com Lag”) do que “Hail To The Thief”, e surge como um dos grandes álbuns do quinteto britânico. Dez dias atrás escrevi um texto sobre a genial piração da banda em lançar o disco ela mesma, sem atravessadores (gravadoras), e apontei o grupo como o melhor dos últimos dez anos. Alguns leitores chiaram, mas acho que ainda não entenderam a importância do Radiohead, musical e política, para o cenário pop mundial. Certa vez escrevi (já faz um cinco anos) uma teoria da conspiração que versava sobre a descentralização da cultura norte-americana e anglo-saxã via música pop mundial, cujo mote partia da força motriz de quatro bandas que faziam música para si mesmas deixando o filão sem heróis nem mártires (a idéia toda está aqui): Radiohead, Flaming Lips, Mercury Rev e Wilco. Destas quatro, o Radiohead ainda é a mais inventiva; ainda é a banda que leva a música pop para o futuro; ainda faz pop excêntrico para as massas; ainda é capaz de balançar o mundo do entretenimento com uma simples proposta (musical ou política). Não estamos falando de pouca coisa, caro leitor. É a música como filosofia de vida, punk 77 versão 07. “In Rainbows” não é só o disco da semana: é o disco do ano. Nos vemos em dezembro.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

24 thoughts on ““In Rainbows”, do Radiohead

  1. Marcelo, ótimo texto.
    “In Rainbows” talvez só perca por “Sound Of Silver” do LCD Soundsystem em 2007. Mais desde quarta passada, o álbum cresceu monstruosamente. Quem sabe até dezembro?

    Só uma correção: você não precisa indicar seu número de cartão de crédito para “comprar” o disco. Asim, ele pode sair de graça, sem taxa alguma.

  2. In Rainbows”, talvez seja, o álbum mais maduro do grupo. Simples, cru, orgânico, conciso, criativo, atmosférico, direto no ponto e ao ouvido, sem maiores desafios. Onde a eletrônica e a música pop, se dialogam numa mesma linguagem, em sintonia perfeita. “In Rainbows”, lembra a mim, um “Kid A” mais pop e palatável, com lampejos guitarra + violão, de “Hail To The Thief”. Entre as músicas de destaque, Bodysnatchers (é genial, barulhenta e esquisita), a trinca belíssima e emocionante (Nude, Weird Fishes/Arpeggi, All I Need), a atmosférica, House Of Cards, a acachapante, JFIP, e a “clássica-bela” e derradeira, Videotape. O que se constata é que pelo menos, sem exagero da palavra, podem-se tirar cinco músicas (no total de dez), de “In Rainbows”, e colocá-las num mesmo patamar de alto nível, em relação as já clássicas da banda.
    O Radiohead faz de suas canções, verdadeiras obras de arte atemporais. Músicas para serem escutadas por horas, dias, meses, anos, e sempre. “In Rainbows” não é diferente.
    Enfim, não à toa, a melhor banda da atualidade, a mais inspirada e a que inspira milhares de outras bandas, que tentam copiar o seu som, mas não chegam ao patamar elevado do Radiohead. Vide os Coldplay`s da vida. Enxugam ao máximo o som do Radiohead, porém, sempre soam atrasados e retrógrados musicalmente. Aliás, o “glorioso” Chris Martin, deve estar se remoendo depois de escutar esse disco novo do Radiohead. (Tinha que dizer isso, hehe).
    O melhor disco do ano. Desbancando o ótimo “Sky Blue Sky”, do Wilco, (e pensei que a medalha de ouro seria de Jeff Tweedy e sua banda, porém, o Radiohead sempre me surpreende. Que disco!).

    Abraço

  3. sua resenha é mil vezes melhor que a do idiota do lúcio ribeiro. como aquele homem é pago pra escrever tanta bobagem?
    só uma coisinha: em house of cards, o thom diz pra jogar as chaves na tigela, algo típico de casais que praticam swing — quem viu tempestade de gelo lembra dessa cena.

    o disco é sensacional!

  4. Belo álbum do Radiohead. No entanto acho que não toma o posto do Neon Bible como álbum do ano.Parece antes indicar aquilo que já parecia inevitável: Yorke levou a sua banda a um caminho sem volta. Thom Yorke e Win Butler devem ter percebido a mesma coisa: a música pop está em um período de franca decadência. Mas quando se está na frente de uma abismo só há uma coisa a se fazer: dar um passo atrás. E foi isso que Butler percebeu ao fazer um álbum com sonoridade “antiquada”, temperado por órgãos, violinos e instrumentos díspares, fez algo profundamente moderno, enquanto Yorke, ao investir novamente na eletrônica, parece não crer mais nos instrumentos que outrora empunhava. Thom teria muito a aprender com pessoas como Ian Mcculloch, o genial vocalista do Echo, que ao promover o retorno da sua banda há dez anos(ano em que o Radiohead se consagrou), mostrou que há um ingrediente indispensável para se fazer música pop de qualidade:paixão. Coisa que o Radiohead parece ter deixado de lado em prol de um ideal de progresso esterilizante. Mas isso não mancha a banda de Thom Yorke, que já gravou o seu lugar na história da música pop. De qualquer modo, o processo de “venda” do álbum foi louvável.

  5. Meu caro Daniel Purgailis, ouça The Pipers Gates At Down, do Pink Floyd – 1967 – com Syd Barret. É tudo isso que você escuta naoRadiohead, e que, mesmo com boa vontade não consigo gostar – e muito mais.

  6. Aqui tbem desbancou Neon Bible Mac, depois de quase 10 meses. O álbum tem tão pouco eletronices e o pessoal ainda acha eletronico, eu não consigo ouvir esse eletronico no album. Pra mim soa com um álbum de rock como não se via há muito tempo. Ainda vou mais longe, é o melhor álbum que escutei desce Funeral do arcade.

    E parabens pela resenha!
    (pode ser coisa da minha cabeça, mas por acaso vc ao mencionar “nos vemos em dezembro” fez uma analogia sobre o fato de acreditar q ninguem desbanca in rainbows até lá. certo ou errado?)
    abraaaço! o/

  7. Ttt..tudo isso (ah! estou sem folego!) que vc escreveu e muito mais… In Rainbows é simplesmente maravilhoso… Li o que vc escreveu ha um tempo (“Amnesiac”, uma %!@$&@#ou uma pérola) e lá vc diz que “só fã mesmo para enxergar beleza (o amor cega, podem acreditar)” então faço das suas, as minhas palavras! Só não consigo entender pq vc insiste que radiohead faz musica “pop”… Grnd abraço!
    ps: obrigada por ter respondido tão rápido meu ultimo comentário

  8. “In Rainbows” satisfaz toda ansiedade que surge na espera por um novo disco do Radiohead. (…)
    Quatro anos de espera para o lançamento de uma meia dúzia de inéditas – feito um bootleg aprimorado? O disco é bom, mas assim você magoa o Jeff Tweedy.

  9. Não vou negar que até então eu era aquele fã do Radiohead que tinha estacionado minha curiosidade pela banda no The Bends. Não conseguia assimilar do Ok Computer pra frente. Pra falar a verdade não tive nem a paciência necessária pra escutar do Kid A ao Hail To The Thief.
    Como foi revolucionária a forma de venda do novo álbum, resolvi entrar lá e digitar zero atrás de zero pra depois receber no meu e-mail o link das 10 primeiras faixas do In Rainbows.
    Meu comentário sobre o álbum não é aquele do fã tradicional da banda, mas assim como eles, me surpreendi com a sonoridade do disco mesmo ele não sendo de fácil assimilação. O que não o impede de ser eleito um dos principais lançamentos internacional de um ano onde ótimos discos foram lançados, vide os novos do Arcade Fire, Interpol, Bloc Party, Arctic Monkeys, The Killers, Babyshambles, etc…
    Ótima resenha do In Rainbows, se não a melhor que li até então.
    Grande abraço.

  10. Ótima resenha e Grande Álbum, pena que esse último corre o sério risco de ficar em segundo plano devido a estratégia ousada de lançamento (fato que estou ouvindo falar até de quem nunca gostou da banda antes)… Baixei direto do site deles, dei minha oferta de 0,00 e após um cadastro rápido me apareceu o link para download sem complicações… Eu até pagaria alguma coisa com certeza mas, não possuo cartão internacional, então ofereci zero grana para que fique registrado quem baixou, de qual país e estado… mas eu daria algo em torno de 10 reais pelos mp3 (Do Radiohead). Abraços e tudo de bom!

  11. Achei bacana d + o album, mas como vc mesmo comentou, a atitude deles eh a + bacana, de dar um banana para essas gravadoras ganaciosas, dpois do emule nao compro + cds.

  12. marcelo costa, já faz tempo que frequento o ‘revoluttion’ em busca de resenhas bacanas sobre música etc… é hit absoluto aqui na internet de casa. Concordo com o pessoal dos comentários acima, a resenha está excelente e esse disco é sensacional. Talvez o melhor do radiohead desde Ok Computer… Como ele fica poderoso a cada audição. Acho que o Arcade Fire, o Wilco, o LCD Soundystem, o BRMC e o The Field podem se contentar com um brilhante segundo lugar na listinha 2007. E no cdzinho de final de ano com as TOP07, que distribuirei para os amigos estarão presentes pelo menos Reckoner, Bodysnatchers, Videotape… aliás essa videotape é de chorar de linda, me fez lembrar ‘jed the humanoid-other poem do Software Slump/Grandaddy e ‘do you realize/Flaming Lips.’
    Valeu…

  13. depois deles, nine inch naisl tá nessa tbm
    chutou tudo oque é impecílio para uma banda fazer oque quer

    nunca fui FÃ mesmo de radiohead, mas depois deste album…caceta
    baixei de um blog ai, n sei se conseguiria chegar no site deles e oferecer nada pelo album =D
    coisa fina demais mermão

  14. Parabéns pela resenha, e definitivamente, o In Rainbows é o melhor disco do ano, junto com o Icky Thump. O ano que os excêntricos Thom Yorke e Jack White resolveram brincar com os conceitos de álbum. Tanto a estratégia de deixar os fãs escolherem o preço que querem pagar quanto vender o álbum em um pen-drive, aliadas à músicas off-box, tornam o Radiohead e o White Stripes ícones do neo-rock’n roll.

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