Crítica: “The Boys of Dungeon Lane” é o melhor álbum de Paul McCartney dos últimos 30 anos

texto de Samuele Conficoni

Descartar a nostalgia como uma mera fuga constante para o passado, a fim de escapar de um presente insuportável, é um dos axiomas mais batidos — e falsos — que existem. “The Boys of Dungeon Lane” (2026), o novo álbum de Paul McCartney, revela os muitos caminhos pelos quais o retorno à memória — uma escolha comum, porém desafiadora — pode nos conduzir diretamente ao presente, sem aprisioná-lo ou deixá-lo de lado. De fato, quando a melancolia está enraizada em uma teia densa e suave de conexões com o momento presente, a jornada que nos impulsiona rumo ao amanhã é muito menos inquieta e frustrante do que poderia ser de outra forma.

O vigésimo álbum da carreira de Paul McCartney não é um disco comum. Ele surge como uma nova maneira — mais uma — de Macca lidar com o passado, sem receio de citar a si mesmo ou de celebrar a própria trajetória. Desta vez, Paul não oferece um ponto de partida claro: a juventude distante cruza-se com as reflexões urgentes e contemporâneas de um homem que se aproxima dos 84 anos, até que as duas versões de si mesmo — percorrendo esse caminho imaginário e diacrônico — fundem-se em um único ponto no tempo e no espaço. O título do álbum, por exemplo, combinado com a arte da capa, evoca uma rua de Liverpool pela qual McCartney costumava caminhar com seu irmão Mike e com George Harrison quando eram meninos. Em última análise, a história de composição de McCartney é um mergulho perpétuo no passado: de “Penny Lane” a “Let It Be” — transitando do universal para o pessoal, do barbeiro pronto para atender mais um cliente à memória de sua mãe, falecida prematuramente, que lhe aparece em sonho —, parece que a própria essência de quem Paul é hoje só pode existir verdadeiramente nessas canções e nos momentos que ele revive por meio delas. Um exercício mental que serve como um novo ponto de partida.

Em muitas faixas de “The Boys of Dungeon Lane”, é o ato de retornar mentalmente aos lugares onde cresceu que leva Paul a encontrar paz com o presente e com sua carreira — como se o ato de compor o fizesse sentir quase culpado por guardar memórias tão vívidas e avassaladoras. Pode parecer absurdo escrever isso, e talvez não seja exatamente o que lhe passa pela cabeça, no entanto, o tom com que ele mergulha na quietude segura da memória é o de alguém que sabe que a única coisa que se pode realmente mudar não é o futuro, mas o passado — que pode ser moldado e revisitado da maneira que se escolher.

“The Boys of Dungeon Lane”, contudo, não é apenas um exercício tedioso de nostalgia; para McCartney, representa o exercício mental necessário para compor um novo capítulo em sua jornada artística. Para ele, compreender quem é hoje — aos quase 84 anos — envolve refletir sobre o que o trouxe até este ponto e o que o mantém tão cheio de energia e inspiração.

Estas 14 faixas — produzidas pelo jovem Andrew Watt, que trabalhou com Lady Gaga, Justin Bieber e Miley Cyrus, e mais recentemente com Elton John e os Rolling Stones (num disco que Paul, inclusive, participou) — dão vida às memórias pessoais e musicais de McCartney no presente. De forma apropriada, a base de “The Boys of Dungeon Lane” é construída sobre os elementos que mais moldaram a vida artística de Paul. Um tributo à sua amizade sincera e duradoura com John Lennon permeia a comovente “Days We Left Behind” — uma balada pop romântica e onírica na qual o artista britânico fecha a porta para os arrependimentos justamente quando eles estão prestes a bater: “Pois nada permanece igual / E ninguém precisa chorar”, ele canta, não mais abatido, mas esperançoso. Ringo faz uma participação especial na intrigante “Home to Us”, faixa que apresenta uma série de imagens vívidas nas quais — dentro de um, ouso dizer, continuum temporal despreocupado — a Inglaterra de 60 atrás e a Inglaterra de hoje parecem coexistir no mesmo momento.

Ecos de George Harrison surgem na doce, porém vigorosa, “Down South”, uma faixa de rock crua e incisiva que parece remeter ao estilo musical dos anos 1950 que tanto inspirou os primeiros Beatles. “Life Can Be Hard” é teatral e envolvente — poderosa e barroca, como sempre foi a grandiosa narrativa musical de Paul —, enquanto o folk poético e intimista de “First Stars of the Night” é igualmente brilhante, digno de seus melhores álbuns das décadas de 1970 e 1980. “Eu sei que meu pequeno mundo ainda está bem”, Paul repete — mais para si mesmo do que para nós —, enquanto a melodia e o arranjo parecem transportá-lo para outra dimensão. O pop eletrizante, visceral e envolvente de “Mountain Top” — digno do melhor material dos Wings nos anos 1980 — talvez seja um tanto bombástico em certos momentos, mas é excelente tanto na letra quanto na sonoridade; a faixa se destaca como um dos momentos mais originais e marcantes do álbum, assim como a atmosfera de blues-rock ácido e denso de “Come Inside”, que é ao mesmo tempo intensa e combativa.

Ao revisitar sua trajetória como compositor, McCartney inevitavelmente faz o mesmo no plano musical; abundam referências às suas facetas musicais multifacetadas — embora nunca de forma excessivamente óbvia. Seja o Paul das baladas orquestrais românticas, o Paul das canções mais leves e açucaradas ou o Paul do rock ‘n’ roll enérgico e visceral, nenhuma dessas facetas está ausente em “The Boys of Dungeon Lane”. No entanto, cada uma delas busca se reinventar para os dias atuais por meio de novas formas e inclinações — e consegue isso plenamente. Tal feito não se dá por uma originalidade forçada — algo que nem sequer é particularmente buscado —, mas sim por uma ambição impressionante e uma substância sólida.

Nesse sentido, “Never Know” talvez seja o exemplo mais claro e bem-sucedido dessa abordagem. É uma faixa que parece ter surgido em meados dos anos 1960 — uma destilação de pop puro, contagiante e envolvente, enriquecida por um arranjo particularmente psicodélico e preciso. A progressão de acordes parece remeter a momentos de “Rubber Soul” (1965) ou “Revolver” (1966), enquanto seu toque ocasional de blues evoca, em parte, a sonoridade dos Beatles.

Um dos pontos altos do álbum é a faixa de encerramento, “Momma Gets By” — uma balada de estilo clássico e abrangente. Aqui, as orquestrações de Giles Martin brilham, ecoando naturalmente as de seu pai — aqueles floreios deslumbrantes que desempenharam um papel fundamental no sucesso de uma das eras mais fascinantes e inovadoras do Fab Four. “The Boys of Dungeon Lane” é, sem dúvida, um dos melhores álbuns de McCartney em mais de 30 anos; não se aventura por territórios inéditos, não pretende causar espanto e não tenta servir como o ápice definitivo da interminável carreira do ex-Beatle. Contudo, talvez seja justamente graças a essa franqueza vibrante e essencial que — mesmo sem atingir o patamar de seus melhores trabalhos solo — o álbum consegue cativar o ouvinte com seu estilo e dedicação sincera.

Leia também: Discografia comentada (quase completa) de Paul McCartney

Texto publicado originalmente no site italiano Kalporz, parceiro de conteúdo do Scream & Yell. 

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