por Homero Pivotto Jr.
Adentramos maio, mês do trabalhador, na lida para dar visibilidade à produção autoral de música. Inclusive, essa é a razão de mais esta coluna do Novo Rock Gaúcho aqui no Scream & Yell. Desta vez, com lançamentos de peso – alguns não só no sentido figurado, mas também na estética sonora – do metal e do alternativo.
Já que evocamos a labuta, tema que marca o quinto mês do ano em razão do primeiro de maio (Dia do Trabalhador), vale lembrar que apoiar a cena local é um expediente contínuo. Tal exercício demanda esforço coletivo para que o público consuma, das mais diferentes formas, bandas e musicistas/músicos do ungerground. É um esforço que inclui ouvir artistas de onde tu moras nas plataformas, ir a shows independentes na tua cidade, comprar merchandise, seguir nas redes sociais e, ainda, fazer um trabalho de conscientização entre quem gosta de música para que dê uma chance a esses nomes da cena na qual estamos inseridos. E aí, mãos à obra?
– Distraught, “Aether” e “Truth Denied” – A veterana banda thrash porto-alegrense Distraught está apostando no audiovisual. Em abril, o quinteto lançou um vídeo ao vivo com as faixas “Aether” e “Truth Denied”, ambas do EP “InVolution” (2025). No fim de março, também foi disponibilizado um minidocumentário sobre a parte percussiva desse mais recente lançamento do grupo. De acordo com o baterista Thiago Caurio, o material reflete não apenas a execução técnica, mas também a diversidade de influências que contribuíram para o resultado final do registro.
Sobre o clipe com as composições ao vivo, a Distraught afirma que a produção segue uma abordagem minimalista, utilizando apenas dois iPhones, o que reforça o caráter orgânico e cru da gravação. As filmagens ficaram a cargo de Marcos “Lagarto” Neuberger, com edição assinada pelo guitarrista Ricardo Silveira e mixagem de áudio realizada pelo baterista Thiago Caurio.
A gravação é introduzida por “Aether”, uma ambientação que, segundo Caurio, foi pensada para conduzir o ouvinte a um estado de imersão antes do impacto direto de “Truth Denied”. No aspecto lírico, a música aborda a negação da realidade em um cenário marcado por desinformação e conflitos de narrativa, trazendo uma crítica direta à fragilidade da percepção humana diante do colapso social contemporâneo.
– Tierramystica, “Bedtime Stories” – O Tierramystica apresenta o clipe de “Bedtime Stories”, produção que busca traduzir em imagens o lado mais delicado, imaginativo e sensorial da faixa. Com direção e roteiro de André Moraes (filho do cineasta gaúcho Geraldo Moraes), o vídeo foi concebido a partir de uma proposta narrativa que expande a experiência da música e aposta em elementos visuais ligados ao fantástico, ao circo e à fantasia, criando um complemento estético para a nova fase da banda.
A ideia do clipe foi desenvolver personagens que reforcem o aspecto mais lúdico e delicado da canção. “A ideia do clipe era criar personagens colocando o lado mais tenro da música. Então a gente colocou uma fada, a criança entrando no circo, a bruxa, o ilusionista com a bola de cristal, além da banda tocando no cenário. São personagens que desenvolvemos dentro do possível, no tempo que um clipe permite”, conta Alexandre Tellini.
Já a proposta visual nasceu da intenção de ir além de um formato baseado apenas em cenas de performance, construindo uma pequena narrativa com começo, meio e fim. Além da construção visual, “Bedtime Stories” carrega um significado afetivo para a banda. Segundo o vocalista Guy Antonioli, a composição nasceu como uma homenagem às mães e conecta essa intenção à própria ideia do clipe. “Essa foi uma música que a gente fez… tanto o instrumental como a letra, elas foram focadas para as mães. Na época, eu tinha feito em homenagem à minha mãe. Ela tinha um câncer. Depois, ela veio a falecer. O Alexandre homenageou a mãe dele, que continua viva. O Luciano homenageou a mãe dele, que não está mais entre nós também. Enfim, é uma música feita para mães. Mas a ideia do clipe… o próprio nome da música é Histórias para Ninar, Histórias para Dormir. Então é aquela relação da mamãe com seu filho, botando ele para dormir. E aí ele sonha todas aquelas coisas que aparecem no clipe.”
O lançamento chega em um momento importante da trajetória do grupo. O Tierramystica está de volta após 12 anos com “Trinity”, terceiro álbum de estúdio e sucessor de “A New Horizon” (2010) e “Heirs Of The Sun” (2013). O novo trabalho reafirma a identidade construída pela banda ao longo de sua discografia, marcada pela fusão entre power metal e elementos do folk latino-americano, traço central de sua proposta artística. Em “Trinity”, o grupo mergulha no simbolismo da trilogia e explora ideias de unidade e espiritualidade presentes em diferentes culturas pré-colombianas.
– Alex Ribe, “O Reino” – O músico Alex Ribe liberou a versão completa do álbum “O Reino”. O disco foi produzido e composto pelo próprio autor e tem 12 faixas cantadas em português. Segundo Alex, trata-se de “um rock alternativo, um pouco de caos, um pouco de amor. Vivendo o cotidiano urbano!”.
– Felipe Seadi, “Verde” – No fim de março, Felipe Seadi lançou seu mais novo single, de uma música que fará parte do primeiro álbum solo do artista. A faixa se chama “Verde” e é uma versão em espanhol do som em português que leva o mesmo nome, e que também fará parte do futuro disco. A gravação conta com participações especiais de Juliana Gorrión (Colômbia), Beto Stone, Adry Díaz e Guilherme Kessler. Arte da capa por Simone Meta.
– Hibria, “Undying” – O Hibria revelou no começo de abril o single “Undying”, primeira amostra do próximo álbum de estúdio: “On the Shortness of Life” – que será lançado em 8 de agosto de 2026. Além do novo material, a banda confirmou
presença no festival Full Metal Japan em 2026, no dia 25 de outubro, em Yokohama, no Japão, no Pia Arena MM, com presença de Iuri Sanson (vocal) e Renato Osorio (guitarra), integrantes de uma das formações mais clássicas do grupo. Atualmente, o Hibria é formado por Abel Camargo (guitarra), Velles (guitarra), Angelo Parisotto (vocal), William Schuck (bateria) e Benhur Lima (baixo).
“Undying” funciona como um ponto de partida sólido para essa nova fase do Hibria. O single resgata elementos marcantes da identidade da banda, com peso, melodia e uma abordagem que dialoga com a essência do conjunto, mas já introduz nuances que indicam um novo momento criativo. Mais do que antecipar integralmente a sonoridade de “On the Shortness of Life”, a faixa apresenta uma das faces do álbum, que deve ampliar esse universo com outras possibilidades estéticas e diferentes direções musicais, sem romper com o DNA que consolidou a trajetória do Hibria. A música tem composição assinada por Abel Camargo e letra de Angelo Parisotto, sendo interpretada por Abel Camargo, Velles, Angelo Parisotto, William Schuck e Benhur Lima. A produção ficou a cargo de Renato Osorio, no Dry House Studio, enquanto a mixagem e a masterização foram feitas por Benhur Lima, no Angry Pick Studio. O lyric video foi desenvolvido por Gaby Vessoni, com arte de Carlos Fides.
– Outra Providência, “Agonia” – A insatisfação do ser humano é uma constante. Para aplacar esse dissabor que parece não ter fim é preciso fazer algo. Pode ser criar músicas capazes de exorcizar as aflições que nos consomem. É o que tem feito a banda de hardcore porto-alegrense Outra Providência. O quinteto, que deve cair no gosto (não apenas, mas principalmente) de fãs do HC novaiorquino, lançou novo EP recentemente. O registro chama-se “Agonia” e, em cerca de 15min, apresenta cinco faixas: “Vazio”, “Dor e Agonia”, “Maldito Ego” (feat com Bayside Kings, de Santos/SP), “Passos Pesados” e “Fábrica de Monstros”. Eis o que o próprio grupo tem a dizer sobre o mais recente trampo:
“Após um período de trabalho intenso, mudanças de formação e hiatos, a banda está mais sólida do que nunca, com Affonso no baixo, Guilherme (Xico) na bateria, Wesley e Filipe nas guitarras e Rangel no vocal. Gravado e mixado por Henrique, da @from_hellcords , o EP apresenta 4 faixas inéditas, compostas recentemente com a formação atual, incluindo uma colaboração com uma banda nacional. As músicas são dinâmicas, pesadas e marcadas por riffs impactantes e atmosferas sombrias, refletindo as influências de hardcore/metal dos anos 90.
– Kein Montag, ao vivo no Ocidente – O trio industrial/post-punk mostra a força de suas apresentações ao vivo com a filmagem de um show recente inteiro disponibilizado em seu canal no Youtube. A apresentação rolou em 19 de março, no Ocidente, durante a gig “Primeira Desobediência”. Com filmagem de Eduardo Silva e edição do vocalista/controlador de synth Edilson Cardoso, o registro audiovisual mostra nove temas do grupo formado em 2022. As imagens destacam a performance e as projeções audiovisuais do trio, com imagens em tom avermelhado que reforçam a urgência das composições.
– Neptunn, “Transcendence” – O quinteto death metal Neptunn entra na onda das novidades com lançamento de single/clipe. A faixa escolhida é “Transcendence”, que estará no álbum “Parallaxis” (com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2026). O vídeo tem assinatura do Selo Bruto. A música reforça a referência da banda de um metal da morte old school com roupagem contemporânea (algo que lembra At The Gates).
– Three X, “AdoBeck” – A banda santa-mariense Three X lançou, sem alarde, o novo single “Adobeck” – nome que usa o mesmo princípio de “Adoled”, do Planet Hemp, ao referenciar a autoria da canção. A composição dá continuidade à saga de sons com peso e vocais rapeados na trajetória do grupo (que começou como representante do hardcore melódico).
De acordo com o vocalista Lucas Brum (único integrante da formação original): “O riff da música foi feito pelo nosso brother Deivid Beck, por isso a homenagem “AdoBeck”. A faixa faz parte do EP “Mini Manual do Guerrilheiro Urbano”, que deve ser lançado em breve. “Adobeck” teve a participação do rapper, MC e professor Brito, o Orbitorimas, conhecido pelas batalhas de rap e ótimo letrista”.
A produção é assinada por Michel Peixoto, mesmo produtor das faixas “Probo”, “Engajamento” e “Mini Manual do Guerrilheiro Urbano”. “A letra fala da continuidade a temática da importância dos sonhos coletivos, observação da própria cidade, dos avanços fascistas no dia a dia e fecha com a perspectiva de não perdermos a esperança”, esclarece Lucas.
– gabo islaz, “Nocaute” – Pouco mais de 1min30s é o que o músico porto-alegrense gabo islaz (assim mesmo, em minúscula, por opção estética) precisa pra dar seu recado. Esse é o tempo de duração do mais recente single do artista, chamado “Nocaute”. O som – um indie rock com boas sacadas na letra – faz parte do álbum “Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração”, a ser lançado em 26 de maio de 2026.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.
