texto de Paulo Pontes
fotos de Marcos Oliveira / Espaço Unimed
Há shows que funcionam como entretenimento, há shows que funcionam como celebração e há aqueles, mais raros, que operam quase como acerto de contas entre artista, obra e público. O que aconteceu no Espaço Unimed, na noite de 29 de abril, três dias depois de um Bangers Open Air ainda reverberando no concreto do Memorial da América Latina logo ao lado, pertence sem muita margem de dúvida a essa terceira categoria. E, de certa maneira, podemos dizer que um dos principais pontos que tornou isso possível foi a forma como tudo se organizou em torno de um eixo muito específico: o peso histórico – e emocional – de “Rebirth”.
Falar de “Rebirth” 25 anos depois do seu lançamento, em 2001, é inevitavelmente falar de reconstrução. E aqui é mais do que a reconstrução institucional do Angra após uma ruptura traumática, mas também a reconstrução simbólica de uma identidade que precisava se reafirmar diante de um público órfão de uma era anterior quase mitológica. Para uma geração inteira, esse disco não foi recebido como uma continuidade da fase anterior, ele foi muito além: foi porta de entrada. Foi o primeiro contato com o power metal, com a ideia de grandiosidade, melodia e técnica coexistindo com senso de urgência. E, por isso, assistir àquela formação no palco, duas décadas e meia depois, é a materialização de algo que, durante muito tempo, pareceu inalcançável.

Esse pano de fundo ajuda a entender por que o show já nasce carregado antes mesmo da primeira nota. Sold out, organizado como side show do próprio Bangers, com um intervalo mínimo de dias entre uma apresentação e outra, e ainda assim com uma sensação clara de evento único, quase irrepetível (e talvez fosse mesmo). Havia ali um senso compartilhado de que aquilo era uma oportunidade específica, situada no tempo, que dificilmente se organizaria da mesma forma novamente.
O primeiro bloco, ainda ancorado na formação atual, cumpre uma função narrativa importante: estabilizar o palco antes da explosão emocional que viria depois. E nesse contexto, a presença de Alirio Netto deixa de ser um ponto de interrogação – se é que ainda era – pra se consolidar como uma das grandes forças da noite. Se no Bangers sua estreia já havia sido convincente, no Espaço Unimed há um salto perceptível de confiança, domínio e, principalmente, resposta do público.

A ovacão atingiu seu ápice em momentos como “Wuthering Heights”, onde a exigência técnica expõe qualquer fragilidade. Não há fragilidade. Há controle, extensão e interpretação. E há também um detalhe menos óbvio, mas igualmente relevante: o reconhecimento coletivo, quase visível, traduzido em olhares trocados entre fãs, como quem confirma silenciosamente que aquilo está funcionando melhor do que o esperado. E, dentro desse primeiro ato, um dos momentos mais marcantes vem com “Make Believe”, ausente no repertório do Bangers e recebida aqui como um resgate preciso. Nessa, palco e plateia operam no mesmo nível de entrega.
Quando chega a hora do segundo ato, trazendo a formação “Rebirth”, aí a parada fica ainda mais emocionante. Edu Falaschi ocupa naturalmente o centro gravitacional. Há algo diferente na sua performance em relação ao que havia sido visto dias antes no Bangers. Mais solto, menos tenso, mais confortável dentro do próprio corpo e da própria voz. Isso não significa perfeição técnica – e nem precisa. Como vi alguém comentando em um post nas redes: esse aí tem crédito de sobra pra cantar até mudo –, mas significa presença. Significa entendimento do momento, domínio do próprio papel e, sobretudo, conexão.

Essa conexão fica evidente tanto na execução das músicas quanto nos momentos de fala. Quando Edu pergunta quantos ali não tinham ido ao Bangers e vê uma maioria de mãos levantadas, e depois repete a lógica ao questionar quantos nunca haviam visto aquela formação ao vivo, a reação do público produz um curto-circuito interessante: a percepção de que, mesmo diante de um material tão consolidado, há ali uma plateia majoritariamente inédita para aquele encontro específico. A resposta dele – meio incrédula, meio bem-humorada – é o reconhecimento de que o alcance daquele momento ultrapassa a bolha mais óbvia.
A sequência de “Nova Era”, “Millennium Sun”, “Acid Rain” e “Heroes of Sand”, “Unholy Wars” e “Rebirth”, reafirma a qualidade indiscutível do disco. Vinte e cinco anos depois, o “Rebirth” não se sustenta por memória afetiva, mas por consistência. As composições continuam fortes, variadas, bem resolvidas. Há dinâmica, há peso, há melodia, há identidade. É o tipo de obra que não depende do tempo para justificar sua relevância.

Kiko Loureiro, em especial, apresenta talvez sua versão mais completa em termos de presença de palco. Há uma liberdade maior na movimentação, uma disposição clara para interação e um certo desprendimento que sugere influência direta de sua passagem pelo Megadeth. Pequenas imprecisões pontuais, se existem, tornam-se irrelevantes diante do ganho expressivo em entrega e energia.
Rafael Bittencourt, por sua vez, cumpre um papel menos evidente, mas estruturalmente essencial, tanto na base quanto nos momentos mais íntimos. Em “Reaching Horizons”, mesmo com problemas no som do violão, a emoção não se dissipa. Pelo contrário, há algo quase simbólico na imperfeição técnica sendo atravessada por uma resposta afetiva intacta. É um lembrete de que, em determinados contextos, o impacto de uma música não está condicionado à sua execução impecável, mas à sua capacidade de mobilizar quem está ouvindo.

Ao longo das três horas de apresentação, o que se observou foi uma plateia constantemente engajada, com raríssimos momentos de dispersão. Celulares erguidos disputaram espaço, mas não substituíram a experiência; funcionaram mais como tentativa de retenção de algo que se sabe efêmero. Foi possível perceber, em alguns casos, uma tensão interessante entre registrar e viver o momento, e, na maior parte do tempo, o segundo prevaleceu.
E talvez seja justamente essa a chave pra entender o que esse show representou. Não foi nem um encontro de formações, nem uma celebração de catálogo. Foi um momento em que passado e presente deixaram de competir por protagonismo e passaram a coexistir de forma orgânica, sustentados por um público que não estava ali só pra lembrar, mas pra finalmente viver algo que, por muito tempo, existiu apenas como possibilidade. Um daqueles recortes que, com o passar dos anos, tende a crescer. Justamente porque carrega em si a sensação rara de ter acontecido no tempo certo, do jeito certo, sabendo – ainda que ninguém dissesse em voz alta – que dificilmente voltará a se repetir.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
