Equilibrando diferenças, Bangers Open Air se consolida como ponto de encontro entre fãs de música pesada

texto de Paulo Pontes

A quarta edição do Bangers Open Air (as duas primeiras realizadas sob outro nome), nos dias 25 e 26 de abril no Memorial da América Latina, começou antes mesmo de qualquer amplificador ser ligado, e começou de um jeito que, para um festival já consolidado, está longe de ser confortável. A saída do Twisted Sister, motivada por questões de saúde de Dee Snider, não foi uma simples troca de nome no line up, mas uma ruptura direta com uma expectativa construída ao longo de meses, especialmente para um público que enxerga nesses nomes clássicos uma espécie de eixo emocional dentro da experiência. Em eventos desse porte, o peso de uma banda ultrapassa o repertório ou a performance ao vivo e se ancora no significado que ela carrega na memória de quem está ali, e retirar esse elemento às vésperas do festival inevitavelmente gera um ruído que não se resolve de forma imediata.

foto de Natália Michalzuk

A entrada do Arch Enemy reorganizou o sábado de maneira coerente quando observada dentro do recorte estético do dia, que já apontava para um metal mais contemporâneo, menos dependente de nostalgia e mais conectado com bandas que operam dentro de uma lógica atual de som e performance. O encaixe fazia sentido, a recepção inicial foi positiva, mas o deslocamento causado pela ausência de um nome com outro tipo de carga simbólica continuava presente.

Foto de Diego Padilha

Do outro lado, o domingo carregava uma tensão diferente, menos circunstancial e mais estrutural. A escolha do Angra como headliner colocava em discussão o papel de uma banda brasileira dentro de um espaço que, historicamente, costuma ser ocupado por nomes internacionais. A questão que circulava, ainda que nem sempre verbalizada de forma direta, girava em torno da capacidade de sustentação simbólica, técnica e emocional necessária para encerrar um festival desse porte, além da adesão coletiva que transforma esse encerramento em algo relevante dentro da experiência do público. Spoiler: funcionou, e muito!

foto de Natália Michalzuk

O que o Bangers Open Air 2026 construiu ao longo dos dois dias é a diluição progressiva dessas tensões iniciais. Elas não desaparecem completamente, mas deixam de ocupar o centro da experiência à medida que o festival se desenvolve e revela algo mais orgânico, menos dependente de decisões isoladas de lineup. O evento passa a funcionar como um espaço de convergência entre diferentes gerações, repertórios e formas de se relacionar com a música, e é nessa convivência que sua força se estabelece.


Sábado – 25/04

Lucifer / Foto de Marcos Hermes

O sábado começou cedo, quente e, para quem chegou disposto a encarar desde os primeiros horários, recompensador. O Lucifer – após um show solo elogiado em Porto Alegre – abriu os trabalhos no Sun Stage sob um sol praticamente punitivo, daqueles que drenam energia antes mesmo da segunda música, mas conseguiu transformar a adversidade em pano de fundo para uma apresentação que rapidamente se destacou entre as melhores do dia. Muito disso passa pela figura de Johanna Sadonis, cuja presença de palco é difícil de ignorar, transitando com naturalidade entre o teatral e o hipnótico, sustentando um vocal marcante enquanto conduz a banda por uma sonoridade que bebe diretamente na fonte do rock setentista com tintas mais sombrias. Mesmo em um horário ingrato, o público respondeu, e a sensação geral era de que aquele show funcionaria ainda melhor em um slot mais nobre, o que, de certa forma, só reforça o impacto do que foi apresentado ali.

Evergrey / Foto de Diego Padilha

Na sequência, o Evergrey trouxe ao Hot Stage uma mudança de atmosfera quase imediata. A densidade emocional característica da banda sueca apareceu logo na abertura com “Falling From The Sun”, e o set seguiu explorando esse território mais introspectivo e carregado, conduzido pela voz e pela presença de Tom S. Englund. No entanto, se a execução musical se manteve sólida e o repertório funcionou bem dentro da proposta, a parte técnica acabou comprometendo a experiência. A mixagem deixou a bateria abafada, sem o punch necessário para sustentar o peso das composições, criando uma sensação de distância entre banda e público que, em um show com essa carga emocional, faz diferença.

Foto de Rapha Garcia

A dinâmica de festival, no entanto, não permite muita contemplação, e logo foi hora de atravessar o Memorial para encontrar o Violator em plena atividade no Sun Stage. E ali o clima mudou completamente. O thrash direto, veloz e politizado da banda funcionou como um gatilho para as primeiras rodas mais intensas do evento, estabelecendo um contraste necessário com o que vinha sendo apresentado até então. Mais do que a execução musical, chamou atenção a postura no palco, com mensagens explícitas e posicionamentos que fazem parte da identidade do grupo, reforçando que, no caso do Violator, som e discurso caminham juntos.

Violator / Foto de Rapha Garcia

A travessia de volta para o outro lado do Memorial já encontrava um público mais numeroso e espalhado pelos diferentes palcos, cenário que só cresceria ao longo do dia. E foi nesse contexto que o Jinjer subiu ao palco, entregando um dos shows mais aguardados do sábado. A banda ucraniana constrói sua força justamente na capacidade de equilibrar extremos, transitando entre o técnico e o acessível, o pesado e o melódico, e isso ficou evidente ao longo da apresentação. Tatiana Shmayluk, em particular, impressiona tanto pela alternância entre vocal limpo e gutural quanto pela naturalidade com que executa essas transições, enquanto a banda sustenta uma base sólida e precisa que permite esse jogo de contrastes.

Jinjer / Foto de Marcos Hermes

Sem perder o ritmo, o Killswitch Engage assumiu o controle do Ice Stage com um show que reforça uma percepção recorrente: ao vivo, a banda cresce. Com um repertório que equilibra músicas mais recentes e faixas já consolidadas como “My Curse” e “The End of Heartache”, o grupo conseguiu manter o público em constante movimento, impulsionado também pela entrega de Jesse Leach, que não se limita ao palco e busca contato direto com quem está na grade.

Killswitch Engage / Foto de Rapha Garcia

Outro ponto alto do sábado veio com o Black Label Society, liderado por Zakk Wylde, em uma apresentação que foi muito além de um show convencional e assumiu, em diversos momentos, uma dimensão quase ritualística, daquelas que reorganizam completamente a energia ao redor do palco. Há algo na forma como Wylde conduz a banda que mistura liderança, carisma e um senso de legado muito claro, e isso se reflete diretamente na maneira como o repertório é construído e entregue. Quando músicas como “In This River” entram, o clima muda de forma perceptível, deixando de ser apenas um momento de execução para se tornar um espaço de memória e homenagem, especialmente pelas referências explícitas a Dimebag Darrell e Vinnie Paul. Esse mesmo tom se mantém em “Ozzy’s Song”, que carrega um peso emocional adicional pela relação de Wylde com Ozzy Osbourne, transformando a performance em algo que transita entre celebração e reverência. Ao chegar em “Stillborn”, já na reta final, o show atinge um ponto de convergência entre peso e emoção, com o público completamente envolvido e respondendo de forma intensa, consolidando a apresentação como uma das mais marcantes do dia.

Black Label Society / Foto de Marcos Hermes

Na sequência final do sábado, o In Flames entrega uma apresentação que, em muitos aspectos, ultrapassa a expectativa inicial e se posiciona com autoridade dentro do festival, flertando de forma bastante clara com o nível de headliner. Mesmo enfrentando ajustes iniciais na equalização – especialmente no equilíbrio entre o vocal de Anders Fridén e os instrumentos –, o show encontra rapidamente seu ponto de estabilidade e passa a crescer de maneira consistente ao longo do set. Músicas como “Deliver Us” funcionam como ponto de virada, marcando o momento em que a banda assume controle total da apresentação, enquanto faixas como “I Am Above” ampliam a resposta do público, que passa a interagir de forma cada vez mais intensa. Há uma construção clara de dinâmica ao longo do show, que vai se consolidando até atingir seu ápice na sequência final, quando “The Mirror’s Truth” impulsiona a formação de grandes rodas e um envolvimento coletivo visível, preparando o terreno para “Take This Life”, que encerra o set com a pista completamente tomada por movimento, canto e entrega. O resultado é um show que cumpre seu papel dentro do lineup e que se impõe como um dos momentos mais consistentes e impactantes de todo o sábado.

In Flames / Foto de Rapha Garcia

Quando o Arch Enemy sobe ao Hot Stage para encerrar o sábado, o show já não começa do zero. Ele carrega consigo um acúmulo de expectativas, especulações e comparações que vinham sendo construídas desde o anúncio da substituição do Twisted Sister. Não era ocupar um espaço vago no lineup, mas assumir uma posição simbólica dentro do festival, fechando um dia que, desde o início, já havia se desenhado com uma identidade mais moderna dentro do espectro do metal. Nesse sentido, a escolha fazia sentido quando analisada em conjunto com bandas como In Flames, Killswitch Engage e Jinjer, mas isso não eliminava o peso da comparação com o que havia sido perdido.

Arch Enemy / Foto de Diego Padilha

A entrada de uma nova frontwoman, Lauren Hart, em uma banda com identidade vocal tão marcada nunca é um processo neutro, e isso fica evidente desde os primeiros minutos do show. Hart demonstra entrega física intensa, com uma postura de palco que evidencia esforço constante para sustentar a agressividade exigida pelo repertório, alternando momentos em que consegue atingir o nível de intensidade esperado com outros em que a execução parece exigir mais do que o corpo consegue entregar com naturalidade. Não se trata de falta de comprometimento – pelo contrário –, mas de um processo de adaptação ainda em curso, que se torna visível justamente por acontecer em um palco desse tamanho, diante de um público que conhece profundamente cada nuance das músicas.

Arch Enemy / Foto de Diego Padilha

Essa percepção é reforçada pela forma como o repertório é construído. A banda opta por um setlist relativamente seguro, priorizando músicas que já possuem uma resposta consolidada do público, como “Ravenous” e “Nemesis”, que funcionam imediatamente como pontos de conexão coletiva, independentemente da formação em cima do palco. Ao revisitar álbuns como “Wages of Sin” e “Doomsday Machine”, o grupo se ancora em uma fase amplamente reconhecida de sua trajetória, reduzindo o risco em um momento que já carregava incertezas suficientes. Ainda assim, a ausência de algumas faixas mais profundas ou menos óbvias gera a sensação de um repertório mais contido do que poderia ser, especialmente para um show que ocupava o espaço de headliner do dia.

Arch Enemy / Foto de Diego Padilha

Se a performance da banda já carregava esse conjunto de tensões internas, a parte técnica acaba funcionando como um obstáculo adicional. A mixagem do Hot Stage, ao longo da apresentação, compromete a definição do som de forma recorrente, com a bateria de Daniel Erlandsson excessivamente alta e processada, ocupando um espaço que engole as guitarras de Michael Amott e Joey Concepcion, além de reduzir a presença do baixo de Sharlee D’Angelo. Em um estilo que depende tanto da clareza entre os instrumentos para sustentar o peso e a precisão, essa falta de equilíbrio impacta diretamente a percepção do show, criando uma barreira entre a execução da banda e a experiência do público.

Foto de Diego Padilha

Ainda assim, seria reducionista tratar a apresentação apenas a partir desses problemas. Existe um esforço evidente da banda em sustentar a intensidade e em afirmar essa nova fase, mesmo sob condições que não são ideais. O público responde, especialmente nos momentos mais reconhecíveis do set, e há uma adesão que, embora não uniforme ao longo de toda a apresentação, se manifesta com força nos refrões e nas músicas mais emblemáticas.

No geral, o sábado construiu um terreno que preparou o domingo para operar em outro nível dentro da narrativa do festival.

Foto de Diego Padilha

Domingo – 26/04

Se o sábado terminou como um dia de construção, com pequenas arestas técnicas, o domingo começa a se desenhar antes mesmo da primeira banda subir ao palco, em um detalhe que poderia facilmente passar despercebido, mas que, dentro do contexto do festival, carrega um peso simbólico relevante. Enquanto a equipe preparava o palco do Primal Fear, o telão exibiu, na íntegra, uma música inédita de Edu Falaschi. Não houve anúncio grandioso, nem construção prévia de expectativa, tampouco qualquer tentativa de transformar aquilo em um momento isolado de espetáculo. Ainda assim, o efeito foi imediato para quem percebeu o que estava acontecendo.

Project46 / Foto de Rapha Garcia

A abertura efetiva do domingo, com o Project46 no Ice Stage, quase esbarra em um problema que poderia comprometer a energia inicial do dia, quando, logo na primeira música, a guitarra simplesmente não aparece na mixagem. Em um contexto de festival, esse tipo de falha costuma gerar desconexão imediata, quebrando o ritmo e esfriando a resposta do público. O que acontece aqui, no entanto, é o oposto. A correção vem rápida, e a banda utilizou aquele início instável como ponto de partida para um crescimento progressivo, transformando o que poderia ser um tropeço em um elemento de tensão que, ao ser resolvido, reforça a entrega do restante do set. A partir da segunda música, o show encontra seu eixo, sustentado por um som pesado, direto e por uma postura que demonstra controle da situação, consolidando uma abertura consistente para o dia.

Primal Fear / Fofo de Diego Padilha

Na sequência, o Primal Fear assumiu o Hot Stage com uma apresentação que funciona quase como um contraponto estrutural ao que havia sido visto até então, trazendo um nível de precisão técnica e de domínio de palco que reorganiza o ambiente ao redor. Ralf Scheepers conduz o show com uma segurança que só décadas de estrada permitem, mantendo um nível vocal impressionante ao longo de todo o set, transitando pelos agudos com naturalidade e sustentando a potência sem sinais de desgaste. Ao mesmo tempo, a entrada de Thalia Bellazecca adiciona uma camada que vai além da execução instrumental. Sua presença de palco, combinada com uma técnica extremamente limpa, transforma sua participação em um dos pontos mais comentados do dia.

Nevermore / Foto de Rapha Garcia

Com o avanço da programação, a necessidade de escolha entre palcos se intensifica, e é nesse contexto que o retorno do Nevermore se estabelece como um dos momentos mais carregados de significado de todo o festival. É testemunhar uma retomada que, por muito tempo, parecia improvável. A ausência de Warrel Dane ainda ecoa de forma inevitável, e isso se manifesta na forma como o público recebe os primeiros minutos do show, com uma atenção mais contida, quase cautelosa, como se fosse necessário entender o que está sendo apresentado antes de se entregar completamente. À medida que o set avança, essa contenção se dissolve, e músicas como “Enemies of Reality” e “Beyond Within” passam a funcionar como pontos de conexão, tanto pelo peso e pela execução quanto pela carga emocional que carregam. Não é um show que se sustenta na perfeição técnica absoluta, mas na honestidade da proposta, e isso, dentro daquele contexto, se mostra mais do que suficiente.

Roy Khan / Foto de Gui Urban

No meio dessa dinâmica, decidi ir correndo lá pro Sun Stage, para pegar o final do show de Roy Khan. E mesmo acompanhando apenas a parte final da apresentação, fica evidente o tipo de relação que aquele repertório estabelece com o público. Músicas como “Forever”, “Ghost Opera” e “March of Mephisto” funcionam como gatilhos de memória coletiva, criando uma atmosfera mais introspectiva, onde a intensidade não se manifesta pelo peso, mas pela emoção compartilhada.

Amaranthe / Foto de Rapha Garcia

O retorno ao eixo principal do festival, lá no Hot Stage, acontece com o Amaranthe, que traz uma mudança clara de dinâmica, apostando em um show estruturado em torno da interação entre seus três vocalistas e de uma construção visual e performática mais calculada. A alternância entre vozes limpas, agressivas e melódicas mantém o ritmo elevado, enquanto a presença de Elize Ryd funciona como ponto central da apresentação, conduzindo os momentos de maior adesão do público.

Winger / Foto de Diego Padilha

A partir daí, o domingo entra em uma sequência em que cada show adiciona uma camada distinta à experiência, sem que haja perda de intensidade. A despedida do Winger, no Ice Stage, por exemplo, carrega um peso que ultrapassa a execução musical. Existe uma dimensão simbólica em assistir a uma banda encerrando seu ciclo, e isso altera completamente a forma como o público se relaciona com o show. Músicas como “Miles Away” deixam de ser apenas parte do repertório e passam a funcionar como pontos de conexão entre passado e presente, reforçando a ideia de que aquele momento não se repetirá.

Smith/Kotzen / Foto de Gui Urban

Sem quebra de ritmo, o Smith/Kotzen assume o palco trazendo uma abordagem que se afasta do impacto imediato e se aproxima de uma construção mais refinada, baseada em técnica, entrosamento e musicalidade. A interação entre Adrian Smith e Richie Kotzen se desenvolve como uma conversa contínua, sustentada por uma execução precisa e por uma base sólida que permite que o show avance sem necessidade de excessos. Quando “Wasted Years” surge no repertório, o que se estabelece é um momento de catarse coletiva.

Within Temptation / Foto de Gui Urban

Na sequência, o Within Temptation assume o palco com um dos shows mais completos do dia, combinando execução, presença e construção visual de forma equilibrada. Sharon den Adel conduz a apresentação com uma elegância que não reduz a potência, sustentando vocais extremamente afinados enquanto a banda constrói uma atmosfera que envolve o público do início ao fim. Mesmo com um tempo de apresentação mais enxuto, o repertório, que mescla faixas recentes com músicas já consolidadas, mantém o nível de engajamento alto, consolidando o show como um dos pontos fortes do domingo.

Angra / Foto de Rafael Karelisky

Quando o Angra inicia sua apresentação, antes mesmo da reunião histórica tomar forma no segundo ato, há um primeiro movimento que já estabelece o tom do espetáculo: a entrada de Alirio Netto como vocalista principal da fase atual. E não é uma entrada protocolar, daquelas que pedem tempo de adaptação ou cautela diante de um público acostumado a outras vozes. Alirio chega com uma entrega imediata, intensa, demonstrando domínio técnico e presença de palco suficientes para sustentar um repertório exigente desde os primeiros minutos. Sua interpretação das músicas da era Andre Matos não soa como tentativa de imitação, mas como apropriação consciente, equilibrando respeito ao material original com identidade própria. Há potência, alcance e, principalmente, segurança, elementos que, juntos, afastam rapidamente qualquer dúvida sobre sua capacidade de assumir o posto de forma definitiva dentro da banda.

Angra / Foto de Rafael Karelisky

Essa segurança se reflete tanto na execução vocal quanto na forma como Alirio ocupa o palco, interage com o público e conduz os primeiros momentos do show, funcionando como um ponto de ancoragem até que a narrativa avance para o reencontro da formação clássica E quando esse segundo momento finalmente chega, o eixo emocional do show se desloca de forma clara. A entrada de Edu Falaschi não funciona somente como um gatilho nostálgico, ela funciona como um ponto de convergência entre memória e trajetória recente. Ao lado de Kiko Loureiro, Aquiles Priester, Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli, ele reativa a formação responsável por “Rebirth”, e o impacto disso não está apenas no reconhecimento imediato das músicas, mas na carga emocional que atravessa a performance.

Angra / Foto de Rafael Karelisky

Nos últimos anos, Edu precisou lidar com problemas sérios de saúde, especialmente o refluxo, que afetou diretamente sua voz e colocou em xeque sua capacidade de manter o nível vocal que o consagrou. O que se vê no palco, portanto, não é apenas um retorno pontual, mas o resultado de um processo de reconstrução que exige técnica, disciplina, adaptação e, principalmente, resiliência. E isso muda completamente a forma como sua performance é percebida. Cada entrada em músicas como “Nova Era”, “Rebirth” e “Heroes of Sand” carrega esse contexto, e o público responde não apenas cantando, mas sustentando junto aquilo que está sendo entregue. A voz pode não operar exatamente nos mesmos parâmetros de duas décadas atrás, mas a entrega emocional preenche qualquer espaço que eventualmente se abra, e essa troca com o público transforma o momento em algo coletivo, onde a performance deixa de ser individual e passa a ser compartilhada. Há verdade ali, e é isso que sustenta o impacto.

Angra / Foto de Rafael Karelisky

Na outra ponta dessa construção, a participação de Fabio Lione adiciona uma camada distinta ao espetáculo. Em sua despedida como vocalista da banda, Lione reafirma aquilo que sempre foi sua principal marca: uma técnica vocal extremamente sólida, com controle, alcance e consistência que seguem impressionantes dentro das exigências do power metal. Sua presença é mais contida em termos de tempo de palco, mas cada entrada é precisa, sustentada por uma execução que dificilmente apresenta falhas, mesmo em um contexto tão fragmentado em termos de protagonismo. Existe, portanto, uma dinâmica muito clara que se estabelece ao longo do show. Alirio representa o presente e a continuidade, com segurança suficiente para sustentar o agora da banda; Edu encarna o passado que retorna carregado de significado, tanto pela memória quanto pela superação que o acompanha; e Lione ocupa esse espaço intermediário, funcionando como uma ponte entre ciclos, com uma entrega técnica que mantém o nível elevado mesmo sem centralidade narrativa.

Angra / Foto de Wellington Penilha

O resultado é um espetáculo que consegue articular essas três dimensões sem que uma anule a outra, permitindo que diferentes fases coexistam de forma orgânica. E é justamente essa capacidade de integrar passado, presente e reconstrução em um mesmo palco que transforma o encerramento do festival em algo maior do que um show, uma espécie de síntese viva da própria história do Angra e, em alguma medida, do metal brasileiro.

foto de Natália Michalzuk

O Bangers Open Air 2026 se encerra como um festival que encontrou, ao longo do próprio percurso, a forma de sustentar sua relevância para além das variáveis mais imediatas que normalmente dominam esse tipo de análise. As falhas existiram, especialmente em momentos pontuais de mixagem e em pequenos ajustes operacionais, mas em nenhum momento se configuraram como elementos estruturais capazes de comprometer a experiência como um todo. O que se estabelece, ao final dos dois dias, é a percepção de que o festival já não depende exclusivamente de um line up específico para se legitimar, porque construiu algo que opera em outro nível, mais relacionado à experiência coletiva do que à soma individual das atrações.

Foto de Gui Urban

 A substituição de uma banda, que em outro contexto poderia ser tratada como um problema central, acaba sendo absorvida sem maiores danos, porque o evento se sustenta em uma lógica mais ampla, onde o que está em jogo não é apenas quem sobe ao palco, mas o que acontece entre um show e outro, nos deslocamentos, nas escolhas, nas interações e na forma como o público se apropria daquele espaço ao longo dos dois dias. Da mesma forma, a escolha de um headliner nacional deixa de ser uma aposta arriscada e se transforma em uma afirmação concreta, validada não por discurso, mas pela resposta prática de um público que comparece e participa ativamente.

Foto de Wellington Penilha

Existe, portanto, uma mudança de eixo que se torna evidente ao final do festival. O Bangers Open Air deixa de ser analisado apenas como um evento que precisa equilibrar nomes, estilos e expectativas para agradar diferentes públicos, e passa a ser compreendido como um ponto de encontro que se consolida justamente na capacidade de reunir essas diferenças em um mesmo ambiente, sem que uma anule a outra. Essa consolidação se constrói edição após edição, e o que se vê em 2026 é um estágio em que essa identidade já não parece mais em formação, mas em processo de afirmação. Quando um festival atinge esse nível, a discussão sobre line up continua existindo, como sempre existirá, mas deixa de ser o centro da experiência. O que permanece é o encontro. E, ao que tudo indica, esse encontro já deixou de ser circunstancial para se tornar ritual.

Foto de Wellington Penilha

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