entrevista de Danilo Souza
Um projeto solo, que virou duo, que virou quinteto… Muita coisa aconteceu nos seis anos de existência da banda Idos de Março, de Goiânia, formada por João Roberto (vocais), Lucas Amparo (baixo e vocais), Lipe (guitarra), Adriano Abreu (bateria) e Felps (guitarra). “(Era um) projeto solo”, relembra João. “(Mas) pensei: ‘Vai ter que ter gente pra tocar comigo…’, e lembrei do Adriano. A gente foi tocando junto, trocando ideia… e pensamos em ser um duo. (Depois) chamamos o Lucas, o Felps e o Lipe e nos juntamos na Idos, que deixou de ser um projeto solo e virou uma banda”, explica o vocalista.
A Idos de Março viveu um hiato de lançamentos oficiais, iniciado em 2020, que só terminou em 2025, quando o grupo publicou “infamiliar”, EP de estreia que mescla pós-hardcore, shoegaze e experimental em seis faixas, ainda que a banda mesmo se defina como “emo goiano” (no Instagram) e se encaixe muito mais na cena do “rock triste” encabeçada por nomes como Lupe de Lupe e, principalmente, Ludovic, que João define como “mãe musical” da Idos de Março. “Em muita coisa da nossa presença de palco a gente se inspira na Ludovic”, confessa o vocalista.
Na conversa abaixo, João, Lucas e Adriano relembram o começo da Idos de Março, as influências que nortearam “infamiliar” (“Do hardcore, acho que At The Drive-In… Do shoegaze, foi muito do gorduratrans, e do experimental, o João e o Adriano estão escutando muito prog”, pontua João) e analisam o momento atual da cena musical de Goiânia: “A cidade ficou um tempo sem ter bandas que são referência para a galera que está surgindo, e agora que a gente é a banda que está participando da cena, estamos vendo uma galerinha ali de 18, 19 anos que está surgindo e aparecendo nos eventos. A gente está reacendendo uma chama”, acredita João. Leia a entrevista na integra abaixo!
Ouça o Ep na integra abaixo
Como foi o início da banda?
João: Eu já tinha tocado com o Adriano antes em uma outra banda, mas fomos para outros rumos. Fiz o meu projeto solo e, nesse contexto, lancei a primeira [versão de] “Arquétipos”. Nisso do projeto solo, pensei, “vai ter que ter gente pra tocar comigo…”, e lembrei do Adriano. A gente foi tocando junto, trocando ideia… a princípio, pensamos em ser um duo, muito inspirado pela banda gorduratrans. Só que aí o Adriano estava tocando em outra banda e me chamou para participar, então acabou que [a Idos de Março] ficou um pouco em hiato enquanto a gente estava nessa outra banda, já que nosso foco ficou inteiramente nesse outro projeto. Só que nunca deixamos de criar. Fomos lapidando as músicas de pouquinho a pouquinho e ensaiando quando dava. Lembro muitas vezes que acabava o ensaio da banda e a gente se juntava pra tocar as músicas [compostas para a Idos de Março]. Até que essa banda acabou e passamos a focar 100% na Idos. E chamamos o Lucas, o Felps e o Lipe. Na verdade, todo mundo tocou junto em algum momento (em Goiânia), então nos juntamos (novamente, agora) na Idos, que deixou de ser um projeto solo e virou uma banda.
E como vocês enxergam a evolução do som da banda nessa transição do duo para o quinteto?
Lucas: O João já tinha algumas composições para esse projeto, mas acredito que é muito interessante o jeito que a gente compõe hoje em dia, porque muitas ideias surgem de cada um de nós. Temos um grupo em que mandamos ideias de riffs, letras, arpejos… a pessoa que criou apresenta ali na hora, mostra pra gente e cada um vai incrementando sua ideia. O João entra com a linha vocal, o Lucas começa a pensar ali em linhas de baixo que sejam interessantes para aquele projeto, o Adriano já vai para as baterias, o Lipe e o Felps com as guitarras… é um trabalho bem coletivo. Tanto é que, se você olhar os créditos do EP, em todas as músicas têm o nome de todo mundo, porque é realmente um trabalho em conjunto e que é muito sólido. A gente tem uma sintonia muito interessante, não só nessa questão da composição, mas também no dia a dia. Temos uma amizade real, a gente se encontra para sair e tudo mais, isso é muito importante para essa sintonia na composição também. Temos um projeto onde está todo mundo remando para o mesmo lado, todo mundo tem um objetivo em comum, que é compor, lançar nossas músicas, enfim…
Mesmo com o hiato nos lançamentos, vocês continuaram na ativa nos palcos. Foi difícil manter a banda nesse tempo sem novos registros de estúdio? Como vocês definem essa fase?
João: Na pandemia a gente fazia tudo online. Eu gravava as coisas e mandava pro Adriano, que programava as baterias, e assim a gente ia compondo. Foi um hiato só de lançamento, porque, mesmo que com uma frequência bem baixa, a gente ainda fazia as coisas do jeito que dava naquele contexto. E aí veio 2023, quando fizemos o nosso primeiro show, e a gente se manteve principalmente por causa disso. Acho que os shows que apareciam eram o principal motor, porque tínhamos que ensaiar para o show e nos ensaios surgiam as ideias das músicas.
Lucas: Acho que agora, em 2025, muito do que nos mantém nesse trabalho intenso que a gente já vem desde 2023 como um quinteto é que construímos um certo público. Não são muitas pessoas, mas são figurinhas carimbadas, que sempre estão em todos os shows. E acredito que isso só tende a aumentar, porque fizemos esse lançamento do EP com mais músicas e já temos uma base de pessoas que acompanham o nosso trabalho, o que faz com que a gente fique mais motivado para continuar ensaiando, compondo, gravando… ainda mais nós, que somos músicos totalmente independentes, todo mundo aqui tem seus empregos além da banda e a gente sabe que é muito difícil trabalhar nessa área que muitas vezes não tem nenhuma remuneração.
O trabalho mais recente de vocês, “infamiliar”, é um EP de seis faixas que mescla pós-hardcore, shoegaze e experimental. Como se deu essa mistura de gêneros?
João: Foram algumas influências. Do hardcore, acho que At The Drive-In… Do shoegaze, foi muito do gorduratrans, e do experimental, o João e o Adriano estão escutando muito prog [rock progressivo]… mas acho que pra gente sempre foi um pouco natural. As músicas do “infamiliar”, por exemplo, não tem uma estrutura muito bem definida, não foi um negócio pensado tipo “ah, vamos fazer essa música assim, com essa estrutura esquisitona…”: ela só saiu assim. A gente tem também essa cena do chamado “rock triste”, que tem muita influência da Lupe de Lupe e da própria Ludovic, que é a nossa “mãe musical”, digamos assim.

O nome do EP já traz uma sensação de estranheza. Vocês comentaram nas redes que ele fala sobre algo que já foi íntimo, mas agora aparece irreconhecível. De que modo isso se traduziu nas letras? Elas são mais pessoais?
João: São letras bem pessoais. Acho que a escola dos letristas de onde tentamos buscar inspiração é assim. A gente vai tentando mastigar as palavras para trazer o máximo possível do que sentimos. E acho que quando tentamos expressar as coisas, inclusive as coisas ruins, nem sempre é bonito, às vezes é triste e melancólico mesmo. Então não são músicas alegres, são letras que tratam sobre sentimentos conflitantes. E aí já entra um pouco na questão do “infamiliar”, que é aquilo que era familiar e, em determinado momento, deixou de ser. O “in” do familiar é um prefixo negativo, mas que acentua essa angústia da sensação. São letras que tratam de contradições, de fim de relações… uma delas é uma homenagem para um querido amigo que faleceu, a música “partes de mim são de argila”. Acho que o nome [“infamiliar”] deu uma amarrada legal [no conceito] e no que a gente estava tentando dizer.
Teve alguma faixa que deu mais trabalho ou que surpreendeu vocês no resultado final?
Lucas: A primeira faixa [“idvs martiae”], que a gente carinhosamente chama de “idos idos”, fazendo referência ao nome da banda, porque essa é uma faixa instrumental que no final tem o João gritando visceralmente. Por ser instrumental, entendemos que ela seria uma faixa que as pessoas pudessem não dar muita importância, porque costumam deixar um pouco mais de lado. Ela surpreendeu positivamente e é uma das mais escutadas do EP. Ela tem muita dinâmica, tem as partes limpas, as partes pesadas, tem uma parte ali no meio que é meio prog, trazendo essa influência que falamos antes… A gente ficou muito feliz com isso, porque gostamos dessa faixa desde quando surgiu nos nossos ensaios.
Adriano: Todo mundo da banda achou que a galera iria escutar mais a “eterna véspera”, mas tinha motivo, a galera já cantava ela nos shows que a gente fazia, mesmo sem lançar oficialmente, e também porque ela é bem redondinha. Só que a música que tem mais audições é “partes de mim são de argila”, uma música rapidinha que tem menos de três minutos.
Goiânia sempre foi conhecida por sua cena alternativa. Como vocês enxergam o atual momento da cena independente local? O público da cidade acompanha essas propostas mais experimentais?
João: É muito interessante você perguntar sobre isso, porque estávamos falando sobre em um grupo no WhatsApp com outras bandas amigas daqui de Goiânia. A cidade ficou um tempo sem ter bandas que são referência para a galera que está surgindo, e agora que a gente é a banda que está participando da cena, estamos vendo uma galerinha ali de 18, 19 anos que está surgindo e aparecendo nos eventos. É curioso. Isso é muito interessante, porque a gente está reacendendo uma chama que talvez já estivesse apagada ou pelo menos se apagando… Esse processo é uma coisa que é palpável, a gente está vendo acontecer. Não sei se as pessoas se inspiram [especificamente] na gente, mas estamos participando de um movimento em que algumas pessoas podem se inspirar para criar uma coisa nova e dar mais fôlego para a cena de Goiânia.
Sempre que falo com alguma banda que não faz parte do eixo RJ-SP, eu pergunto se existe uma “necessidade de aprovação” ou até uma certa “dependência” da galera dessa região. Como vocês lidam com isso? Tem esse lance de ter que “ir pra São Paulo” para banda dar certo?
João: Acho que é uma coisa muito difícil de responder. Eu, particularmente, diria que gostaria de ficar aqui o tanto que for possível. Eu gosto de Goiânia. Mas a gente tem que ver também pra onde nosso sonho nos leva, com todos os conflitos que isso implica… é uma coisa difícil de pensar.
Lucas: É claro que gostaríamos de fazer uma turnê, passar por Minas, São Paulo, Rio, ir para o Nordeste… eu entendo também que, no nosso contexto atual, não dá para negar que São Paulo, sobretudo, é o centro do país, é onde tem mais população, é onde tudo acontece…
Adriano: Pensando em Goiânia, especificamente, gostaríamos muito de conseguir fazer com que a gente virasse não só uma cena fora desse eixo, mas uma cena que existe e consegue se manter ciclicamente ativa. Isso já acontece, mas para as coisas conseguirem dar retorno, é essencial não só isso, mas o próprio poder público ajudar ou pelo menos não atrapalhar também, como tem sido o caso às vezes…
E falando em Goiânia… vocês tem uma história entrelaçada com um dos grandes festivais daí, o Goiânia Noise Festival. O que ele representa na trajetória da banda?
João: A gente já teve essa conversa em alguns momentos e é sempre um pouco assustador, porque todo mundo já teve banda antes e é difícil fazer as coisas. A Idos de Março tem poucos anos, parando pra pensar, e a gente já fez algumas coisinhas… A gente está tocando nesses festivais como o Goiânia Noise, por exemplo, e temos a oportunidade de passar em um lugar onde as nossas referências já passaram ou estão passando nesse momento. Por exemplo, se não me engano, a Ludovic já veio e foi uma coisa absurda, uma catarse… em muita coisa da nossa presença de palco a gente se inspira na Ludovic, que é uma grande referência que passou pelo Goiânia Noise e que talvez ainda vai passar em edições futuras. E a gente pode estar lá junto com eles! Isso é uma coisa surreal e que talvez, há poucos anos, nós não entendêssemos como alcançável, mas que agora já é uma coisa que a gente participa. O primeiro Goiânia Noise que participamos foi o 27º. Nós tocamos no Martin Cererê, que é praticamente um templo da cena underground de Goiânia, e nos orgulhamos muito disso.
E o que vocês estão pensando para carreira a partir do EP? Novos sons, parcerias ou até um álbum completo? Ou pretendem levar o “infamiliar” para outras cidades primeiro?
A gente está em processo de composição. Dessa vez vai ser um álbum mesmo e tá bem puxado pro midwest emo, mas tem um pouco de rock também, que piramos bastante. Já temos umas músicas definidas para lapidar, as ideias estão germinando e aí devem ser umas dez músicas, a maioria já tem uma participação mais ativa de toda a banda como compositores, o que era uma ideia ali do começo, quando a gente se transforma em quinteto. Vai sair um pouco diferente do que a gente trouxe nesse EP, no sentido de que agora vai ter uma influência muito forte do midwest [no álbum], com guitarra mais limpa e em várias partes, enfim… estamos nos mostrando como uma banda que quer ser um pouco mais plural dentro do rock e seus diferentes estilos. Mas neste momento, o que a gente pretende é levar o “infamiliar” a cada vez mais cidades. Inclusive, tivemos até uma reunião recentemente para buscar datas e cidades que a gente possa levar o EP. Queremos tocar em outros estados, no Nordeste, no Sudeste, no Sul e no Norte também, com certeza. E, ao mesmo tempo, a gente trabalha nesse álbum. Nós queremos alcançar o maior número de pessoas possível.
Essa é a pergunta mais difícil, não pelo contexto, mas pelo objetivo. Se vocês tivessem que definir a banda em somente uma palavra, qual escolheriam?
Lucas: Amizade. A gente tem uma relação muito bonita para além da banda e é um grande diferencial, porque a gente que tá na cena vê muita coisa acontecer e ficamos pensando “isso que a gente tem aqui é muito precioso!”.
João: Cara, eu juro que na minha cabeça veio amor!
Adriano: Pô, eu pensei em caótico, mas de um jeito bom. Um bom caos.
– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo.
