texto, fotos e vídeos de Bruno Capelas
Entre os muitos termos usados para descrever a produção musical do underground, um dos mais interessantes é o de “música alternativa”. Mais do que apenas um mero adjetivo ou questão estética, a ideia de “alternativa” implica em uma opção. Implica em acreditar que é possível sonhar com algo diferente, com uma visão de um mundo melhor do que aquele em que todas as pessoas têm de lidar todos os dias – ou de que é possível ser feliz justamente compreendendo as agruras dessa realidade. Na noite do último dia 3 de setembro, quem esteve no Circo Voador, palco simbólico dessa ideia na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, pôde conferir a força de uma correnteza que busca fugir do caminho mais comum.

Para alguns cariocas, era a chance de ver uma banda idolatrada – o Teenage Fanclub – sem precisar tomar o rumo da via Dutra ou do Aeroporto Santos Dumont, graças aos esforços da iniciante produtora Rio Gold Soundz. Para outros, porém, a data foi ainda mais especial: tal como um Botafogo diante do PSG, foi a chance de ver o histórico grupo fluminense PELVs brigar de igual para igual com o conjunto escocês. Antes que o leitor pergunte o placar, no entanto, vale o aviso: a vitória foi de todo mundo que ama guitarras, letras apaixonadas e grandes melodias.
Antecedida por uma discotecagem do senhor Midsummer Madness, Rodrigo Lariú, a PELVs subiu ao palco pouco depois das 20h30 em tom de festa, celebrando os 25 anos do clássico “Peninsula” – recentemente reeditado de maneira caprichada em vinil. Em formação de octeto, o grupo fez uma reunião especial juntando Gustavo Seabra (voz, violão e guitarra), Rafael Genu (baixo), Rodrigo Gordinho (guitarra), André Saddy (teclado), Ricardo Ribeiro (bateria), Clínio Carvalho (guitarra) e Daniel Develly (guitarra), com a participação especial de Pedro Alcoforado (trompete).

Juntos, eles fizeram soar um resultado muito mais ordenado do que se pode inicialmente imaginar. Com três ou mais guitarras sendo tocadas simultaneamente, o que a PELVs ergueu não foi uma parede, mas um mural de coloração intensa, composto por distorção e bonitos arranjos vocais. Sobrevoando o cenário, o trompete de Alcoforado planava em meio à distorção, fazendo muita gente suspirar com a beleza.
É fato que a PELVs nunca foi exatamente uma banda popular em seu tempo ou hoje em dia – seja pela sonoridade, pelo fato de cantar em inglês ou quaisquer outras questões estéticas. Também é fato que hoje o grupo soma uma boa quantidade de cabelos brancos e, no caso de Seabra, uma certa fragilidade física. Naqueles minutos no Circo Voador, porém, nada importava além da beleza daquela música.

É algo que ficou evidente no final da clássica “Even If The Sun Goes Down (I’ll Surf)”, com direito a um coral da plateia regido pelo vocalista. Em pouco mais de uma hora, o que o grupo fez foi uma apresentação histórica, para tornar fãs os neófitos – e relembrar os velhos aficionados do amor por um som de estimação que já dura mais de três décadas.
Mais de três décadas também é o tempo de existência da paixão de muitos dos presentes no Circo Voador pelo Teenage Fanclub. Não é uma surpresa: afinal, o auge da carreira do grupo aconteceu justamente entre “Bandwagonesque”, de 1991, e “Howdy!”, de 2000, em uma sequência de discos na qual, pouco a pouco, a banda escocesa foi trocando guitarras distorcidas e refrões animados por canções mais contemplativas, calmas, mas sem perder a ternura jamais. De “Howdy!” para cá, porém, esse movimento se estabilizou – e não são poucos os que brincam que o Teenage, já mais tiozinho fanclub que adolescente, está mais próximo de um 14-Bis ou Roupa Nova do que do universo alternativo.

Além das distorções, outro ponto importante se perdeu no Teenage Fanclub dos últimos anos: o carismático baixista Gerard Love, fundador e compositor de alguns dos melhores petardos do grupo. Mais do que uma ausência no palco, a saída de Love em 2018 fez com que o Teenage parasse de tocar hits (até onde se pode dizer que uma banda alternativa como eles tem hits) como “Sparky’s Dream”, “Discolite”, “Ain’t That Enough”, “Radio”, “Star Sign” ou “Don’t Look Back”.
Ao partir, Love também alterou o equilíbrio de forças do Teenage Fanclub, como se percebe facilmente no início do show no Circo Voador. Ao centro do palco, é o guitarrista Norman Blake quem dá as cartas, enquanto Raymond McGinley parece bastante confortável no papel de segundo (e introvertido) homem, em uma divisão de tarefas bastante harmoniosa. É Blake quem se esforça para falar “obrigado” e “boa noite”, além de relembrar aos fãs as canções dos discos antigos. Como se precisasse: bastam poucas notas para que o público cante de cor letras como “About You”, “Alcoholiday” ou “I Don’t Want Control of You”, que fazem a alegria inicial do espetáculo.

O ritmo do show, porém, é menos acelerado do que se espera, ainda mais de uma banda que já gravou um disco chamado “Grand Prix”: a cada clássico dos anos 1990, se segue uma canção mais recente, quase sempre de menor intensidade. O resultado é um espetáculo cujo ritmo acelera e para, acelera e para, nunca engatando a terceira marcha – e, como sabem bem os motoristas de plantão, tal movimento faz qualquer carro gastar mais gasolina com um desempenho aquém do esperado.
Quando pisa no acelerador rumo ao passado, porém, é difícil dizer que o Teenage não é uma das bandas mais legais do mundo. É algo que se comprova com outros hinos indie que vão surgindo na sequência, como “What You Do To Me”, “Neil Jung” ou até uma inesperada “Metal Baby”. Ao mesmo tempo, quando o grupo executa músicas mais recentes como “Endless Arcade” ou “Tired of Being Alone”, também é difícil negar seu talento para belas melodias – no que parece ser mais uma questão de arranjo e entrega do que propriamente de inspiração ou capacidade.

Contrapostas, canções mais recentes e antigas permitem um exercício interessante: perceber que parte do que tornou o Teenage uma banda cultuada foi a capacidade de ser retrô, mirando Beatles, Byrds e Big Star enquanto o rock da época sempre buscava o futuro. Disso, é fácil saltar para a conclusão de que o que os escoceses fazem hoje é justamente aquilo o que sempre quiseram fazer. Ou seja: canções de refrões harmoniosos, com melodias bonitas e açucaradas, nem sempre aceleradas – como se nota na rotação reduzida de “About You” ou, mais adiante, na entrega de “Mellow Doubt”, que surgiu de surpresa no início do bis.
Em pleno 2025, parece besteira acreditar num Teenage ruidoso ou cheio de guitarras distorcidas, quando o que o grupo deseja oferecer vai na direção contrária. Às vezes, um dos problemas de quem vive a música alternativa mora justamente aí: quando a ligação com a realidade é substituída por uma ilusão ou desconexão total, ou, como diria Djavan, pela sensação de “adorar um ‘se…’”.

Sonhar com um mundo melhor, mas manter os pés no chão talvez seja justamente uma boa lição que a banda ensine ao seu público. Outra aula valiosa é compreender os aprendizados e os ganhos obtidos com a passagem do tempo. São passos importantes até para que qualquer um dos presentes possa se entregar a momentos de elevação como “The Concept” ou “Everything Flows” – dois instantes em que os solos de guitarra de McGinley brilham como sempre, fazendo até mesmo desconhecidos compartilharem sorrisos sinceros.
Mais do que uma grande canção para encerrar um show, “Everything Flows” parece justamente posicionada para explicitar esse argumento. Se há mais de três décadas Norman Blake escreveu que nunca sabia para onde correr, escolhendo caminhos desconhecidos, hoje ele canta esse refrão com um sorriso no rosto. Não é à toa: o Teenage não só sabe onde está, mas escolhe justamente o momento mais guitarreiro de seu espetáculo para demonstrar, sem nenhuma ironia, que tudo está no lugar certo. Melhor para quem souber aproveitar.

Setlist Teenage Fanclub
Tired of Being Alone (Nothing Lasts Forever, 2023)
About You (Grand Prix, 1995)
Endless Arcade (Endless Arcade, 2021)
The Cabbage (Thirteen, 1993)
Alcoholiday (Bandwagonesque, 1991)
I Don’t Want Control of You (Songs from Northern Britain, 1997)
Everything Is Falling Apart (Endless Arcade, 2021)
120 Mins (Thirteen, 1993)
It’s All in My Mind (Man-Made, 2005)
Metal Baby (Bandwagonesque, 1991)
It’s a Bad World (Songs from Northern Britain, 1997)
What You Do to Me (Bandwagonesque, 1991)
Come With Me (Endless Arcade, 2021)
Neil Jung (Grand Prix, 1995)
Middle of My Mind (Nothing Lasts Forever, 2023)
I’m in Love (Here, 2011)
The World’ll Be OK (Four Thousand Seven Hundred and Sixty-Six Seconds, 2003)
The Concept (Bandwagonesque, 1991)
Bis:
Mellow Doubt (Grand Prix, 1995)
Back in the Day (Endless Arcade, 2021)
Falling into the Sun (Nothing Lasts Forever, 2023)
Everything Flows (A Catholic Education, 1989)
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
