Entrevista: franceses do Arkets lançam “Dark Light”

entrevista por Marcelo Costa

Na primeira vez que ouvi o quarteto francês Arkets, via plataforma Groover, a canção que me fora enviada (“Runaway Train”) me remetera a Ben Folds, um artista genial e admirável. Qual não foi a surpresa ao perceber que o líder do projeto, o multi-instrumentista Romain Frati (um apaixonado pelo piano, tal qual Ben Folds) não conhecia o trabalho do músico estadunidense (“Tenho ouvido desde então”) mas revelasse, ainda, gosto por outra grande pianista pop, Regina Spector. E que os singles seguintes exibissem um lado mais sombrio, com ecos de progressivo, no som da banda.

Com 10 anos de estrada e um disco lançado (“Projectile”, 2016), Romain Frati descobriu que, numa pausa do projeto, outro grupo surgiu com o mesmo nome: Else. Às vésperas de mandar o segundo disco para a fábrica, Romain decidiu evitar confusão e mudar o nome do grupo de Else para Arkets, chamou um amigo fotógrafo para fazer um clipe para o single “Runaway Train” e descobriu um lado “sombrio” “bastante incomum para mim” em suas composições, conforme revela em conversa por e-mail com o Scream & Yell.

Dark Light”, o segundo álbum do grupo de Metz, honra o lançamento em vinil com um lado “positivo” e outro mais “dark”. Na troca de mensagens, que contou com uma preocupação por parte de Frati com a situação caótica da pandemia no Brasil e questões óbvias de difícil resposta (“Como vocês elegeram esse cara?”), o líder do Arkets contou das mudanças pelas quais a banda passou recentemente além comentar algumas canções do novo álbum (incluindo a cover desconstruída de “Heroes”, de David Bowie) e, inevitavelmente, falar sobre a pandemia. Confira o papo.

Para começar, gostaria de saber como está a situação em relação à pandemia e como isso afetou você e a banda?
A pandemia teve efeitos bastante negativos em minha atividade musical fora do Arkets (muitos shows cancelados ou adiados várias vezes, sessões de estúdio também). No primeiro ano da Covid-19, eu estava no meio da composição das canções de “Dark Light”, e, de certa forma, o primeiro lockdown me permitiu focar nesse processo criativo. Mas lançar um álbum em meio a uma pandemia também tem desvantagens, como não ter lugares para mostrar o disco pronto e a impossibilidade de apresentar o projeto imediatamente no palco.

Gostaria que você contasse a história de Arkets. Já estão 10 anos na estrada, correto?
A banda começou com outro nome (Else), que não era usado (até então) por nenhum outro grupo. Criamos alguns trabalhos inicialmente sob contrato, mas precisamos dar um tempo de dois anos enquanto eu terminava meu mestrado em Filmografia Musical no Canadá. Nosso primeiro álbum, “Projectile” (2016), havia sido lançado, e tínhamos feito uma residência artística para se preparar para uma turnê. Quando voltei depois de obter essas credenciais e reiniciei a aventura, descobrimos que outra banda havia escolhido o mesmo nome da nossa. Depois de pensar cuidadosamente, decidimos que Arkets parecia o nome certo o tempo todo. Todas as redes sociais, o site e a capa do primeiro álbum foram alterados. Não me arrependo hoje em dia porque a visibilidade é maior. Arkets é formado por músicos de alto nível (Mathieu Marie na guitarra, Apollo Munyanshongore no baixo e Jean-Marc Robin na bateria), tocando muito individualmente com uma grande experiência de palco. As circunstâncias fizeram com que este projeto fosse realizado principalmente no estúdio e pouco no palco. Mas tudo será feito para mudar isso, apesar da pandemia. Pode-se dizer, portanto, que Arkets existe há 10 anos porque a banda é a mesma, ou estimar que Arkets tem alguns meses e desta vez está aqui para durar.

A primeira música que ouvi do Arkets foi “Runaway Train”, que me remeteu a Ben Folds, o que não é estranho já que vocês compartilham uma paixão intensa pelo piano. Essa faixa abre o lado “positivo” do disco. Gostaria que você falasse sobre a inspiração dessa música e do clipe que você gravou para ela.
Eu não conhecia Ben Folds (a quem tenho ouvido desde então), mas gosto bastante de Regina Spector. “Runaway Train” foi composta pela primeira vez no piano com suas duas notas repetidas dando a sensação de uma corrida, algo que me remeteu a um trem que nunca para. Lembrei-me também do filme “Runaway Train” (1985), de Andrei Konchalovski (“Expresso para o Inferno” no Brasil) com Jon Voight, que eu realmente gostei quando vi. Escrevi a letra pensando em um trem partindo, no qual coisas surreais acontecem (o tempo se inverte e cura, o efeito de leveza no trem…), com um aceno para o planeta Knowhere, da Marvel (“Vingadores: Guerra Infinita”), que eu assistia intensamente naquele momento. A fórmula de compassos alterna entre compassos de 5 e 6 tempos, reforçando o lado dinâmico do título. Minha parte favorita é o final da faixa, tenho uma sensação de liberdade quando o estou ouvindo. O clipe foi dirigido por Olivier Toussaint, um bom amigo e excelente fotógrafo que finalmente consegui convencer a assumir a direção. Ele fez um trabalho magnífico com suas fotos, mas também com seus visuais transparentes sobre o tema do trem, sem cair na descrição. Originalmente, pensei em colocar um trem elétrico com um circuito de trilhos ao redor e entre os músicos… Até comprei um velho trem elétrico com trilhos, mas depois desisti da ideia. No final, acho muito melhor sugerir coisas como Olivier fez.

Após ter aquela primeira impressão de Ben Folds no som do Arkets, foi uma surpresa interessante ouvir “Dark Light” e perceber outros sons, mais densos, melódicos e até progressivos. O disco é dividido em um lado mais positivo e um lado mais dark. Como você teve a ideia de trabalhar “Dark Light” assim?
Muitos estilos musicais podem surgir no Arkets porque não gosto de colocar barreiras. Minhas origens musicais são múltiplas e o Arkets é a ilustração delas: Art rock, progressivo, jazz, world music, música clássica… Tudo pode acontecer e adoro essa ideia (de liberdade). Nesse álbum eu compus 10 faixas sem planejar nada, o conceito veio depois. Procurei então o título do álbum e percebi que nessas 10 faixas havia dois lados, incluindo um mais sombrio, o que é bastante incomum para mim. “Compression Suit” é sexualmente sulfurosa. “The Maze” é sobre uma pessoa caçada por um Minotauro em um labirinto. “The Very Last Moment” é sobre os últimos momentos de alguém (meu pai estava muito doente na época). Procurei um título de álbum que unisse esses dois lados e optei por “Dark Light”. Apesar desta dicotomia, existe uma homogeneidade porque boa parte das canções foi escrita num período bastante curto (verão 2020) e corresponde a um estado de espírito específico deste período.

“Dark Light”, que tem uma capa linda, está disponível em plataformas digitais, mas vocês também estão lançando em CD e vinil. Gostaria que você falasse um pouco sobre essa opção de ter o disco em vários formatos e como foi importante tê-lo prensado em vinil para você?
Estamos numa encruzilhada quando se trata de formatos. O formato CD está perdendo espaço, mas muita gente ainda está ouvindo. Então pareceu-me importante não desmaterializar completamente o meu trabalho e dar a possibilidade a quem sempre escuta CDs com boa qualidade .wave de continuar a fazê-lo. Este é meu primeiro álbum em vinil e foi uma grande emoção poder colocá-lo no meu toca-discos. Existe um processo muito especial ao ouvir música em vinil. Em primeiro lugar, exige que você tome um tempo: tire o disco da embalagem, coloque-o delicadamente no prato giratório e coloque a agulha nele; depois chega o momento da escuta… Uma escuta completa do disco respeitando a ordem dos títulos porque foram pensados para te levar numa viagem musical precisa. O som do vinil em um sistema vintage também é muito bom. Eu amo o baixo que sai pelas caixas de som. Além disso, o tamanho da capa é maravilhoso de se ver e é uma pena tê-la em formato de selo postal. A volta do disco de vinil está a caminho, e essa é uma notícia maravilhosa. Gosto muito da ideia do meu filho ou filha colocar o disco de vinil do pai no toca-discos, quando chegar a hora :).

Bem, “Heroes” 🙂 Ela está no lado dark do álbum, e rendeu um arranjo muito peculiar e bonito. Por que essa música? Por que David Bowie?
“Heroes” foi arranjada e apresentada durante o primeiro lockdown no ano passado. Houve uma euforia com as apresentações de vídeo nas redes sociais, pois músicos do mundo inteiro tinham uma grande necessidade de se expressar. Lembro-me de tropeçar em “Heroes” enquanto ouvia música e quis fazer uma versão, que teve um feedback muito positivo, e eu pensei em colocá-la no álbum. Desta vez, os músicos do projeto desejaram não fazer algo muito produzido, mas sim uma versão acústica e bastante espontânea, pois era para ser uma faixa bônus.

Como é a expectativa de apresentar “Dark Light” ao vivo? Quais são as próximas etapas do Arkets?
Tocar ao vivo vai ser um desafio para este projeto, que é bastante produzido e com muitos arranjos. Você tem que se manter eficiente com uma equipe de 4 ou 5 músicos no palco. As partes do teclado às vezes são bastante complexas e cantar ao mesmo tempo requer um trabalho que considero muito interessante, mas também muito envolvente. Acho que temos que ir ao básico para manter a essência, e também ter uma versão menor para que possamos rodar e tocar mais. Estamos prontos para tocar em qualquer lugar, adoramos viajar e gostamos de novas experiências. Temos um feedback muito positivo do Brasil, então por que não ai? 😉 Um novo videoclipe será produzido em junho para a faixa “The One”, e daí aprofundaremos a busca por shows.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne.

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