Séries: “Them” (Prime Video) e a brutalidade do racismo

Texto por Eduardo Juliano

“Them” é uma série original da Amazon Prime Vídeo que estreou em abril de 2021. Extremamente tensa e dividida em 10 episódios de aproximadamente 50 minutos cada, “Them” apresenta três estilos distintos de horror: o sobrenatural, o psicológico e o real.

Se nos cinco episódios iniciais a tônica contundente se dá através dos horrores reais e psicológicos impostos pelas mais diversas práticas de violência e racismo, a medida que a série avança para o desfecho, nos cinco episódios finais, os aspectos sobrenaturais vão ganhando cada vez mais espaço na trama e acabam exaurindo muito da força impactante da primeira metade.

A série segue a tendência de filmes como “Corra!” (2017), “Nós” (2019) e da série “Lovecraft Country” (2020). A história se passa durante a década de 50, em Los Angeles (Estados Unidos), e acompanha durante 10 dias o drama de uma família negra que é hostilizada, ameaçada e vilipendiada ao comprar inadvertidamente uma casa em um bairro predominantemente habitado por brancos. O racismo apresentado não é nada velado, muito pelo contrário, é explícito, humilhante e brutal.

É chocante ver a naturalidade que os personagens racistas proferem seus discursos segregacionistas e agem irracionalmente apenas pelo impulso do ódio talhado por séculos de ignorância.

Essa é uma ferida que ainda arde e incomoda bastante e o roteiro soube acionar esses gatilhos como poucas produções sobre o tema, o que acaba tornando difícil para audiências mais sensíveis acompanhar algumas cenas mais pesadas, sejam elas por motivos gráficos ou psicológicos.

Do ponto de vista técnico, a série é espetacular, no real sentido da palavra. Além das atuações intensas de todo o elenco, os diretores e fotógrafos que se revezaram a cada episódio, demonstraram total sincronia e apreço pela qualidade imagética, o que rende um show de ângulos inusitados bem como o domínio total dos enquadramentos e da paleta de cores que, casados com um ótimo fluxo narrativo e uma excelente trilha sonora, mantém o interesse do público e a qualidade geral de tudo que é visto e sentido.

A série começa a falhar quando opta pelo exagero e prefere repetir algumas situações à exaustão ao invés de focar mais em outros aspectos. Sub tramas muito interessantes como a influência mercenária dos bancos e de imobiliárias “brincando” com vidas humanas em detrimento do lucro, se perdem em meio a idas e vindas do roteiro e carecem de maior profundidade.

Os dois grandes vilões (o trauma e o demônio), apesar de contarem com episódios inteiros exclusivos (episódios 5 e 8) explicando suas origens, caem no inverossímil, tamanha a falta de limites físicos para as regras de influência de ambos. A subjetividade e a metáfora, que poderiam servir como base para muitas das situações propostas, acabam não sendo tão assertivas.

Com a maioria dos personagens enlouquecendo aos poucos, não sabemos ao certo se algumas sequências são sonhos, ilusão ou realidade. Se por um lado, a falta de certeza sobre o que estamos vendo de fato contribui para um clima desconfortável de pesadelo constante que permeia toda a série, por outro lado não podemos ignorar as facilidades e muletas narrativas usadas em momentos cruciais, o que infelizmente acaba tirando um pouco o mérito de toda a esmerada produção.

– Eduardo Juliano é administrador e cinéfilo. Também escreve no Urge :: A Arte nos conforta

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