Entrevista: Jadsa fala sobre seu disco de estreia, “Olho de Vidro”

entrevista por Renan Guerra

Desde seu EP “Godê”, lá em 2015, o nome de Jadsa era sempre aquele a se manter no radar: inquieta, criativa e interessante, a artista baiana nos deixou na expectativa e valeu muito a pena. Em 2021, chegou aos nossos ouvidos “Olho de Vidro”, seu disco de estreia, lançado pela Balaclava Records, um passeio por 14 canções que nos surpreendem para além das expectativas.

Jadsa é guitarra, é distorção, é experimentação, mas também é diálogo, carinho e aconchego. “Olho de Vidro” celebra nomes como Itamar Assumpção, Gal Costa, Tulipa Ruiz e Luiza Lian, tudo na mesma medida em que mira o futuro. Um futuro mais complexo e que não é simples de definir, assim como esse disco que ouvimos aqui. Rock? MPB? Outra coisa ainda sem nome? Difícil dizer, pois Jadsa parece mais interessada em criar experiências do que dar nomes a elas.

“Olho de Vidro” foi gravado em 2019 no Red Bull Studios, em São Paulo, e teve sua finalização patrocinada pelo Edital Natura Musical, por meio da lei estadual de incentivo à cultura da Bahia (FazCultura). Em um processo lento de maturação, Jadsa mexeu e remexeu em seu disco até chegar ao resultado final, lançado de forma virtual. Atualmente ela planeja os futuros shows e a expansão de “Olho de Vidro” no palco.

Jadsa conversou com o Scream & Yell de forma virtual, pelo Meets, em um papo que passou pela construção do disco recém-lançado, seu projeto Taxidermia (ao lado de João Milet Meirelles), suas inspirações em Itamar Assumpção e as muitas mulheres que cantam em sua cabeça, como Pitty, Gal, Tulipa, Lian, Josyara, entre outras. Confira o papo na íntegra abaixo:

Pra começar, a minha pergunta de praxe desde 2020 virou como você está? Como tem sido esse tempo para você?
Passo bem depois de muitos tropeços, né? Acredito que o ano passado foi um ano mais descuidado até, em que a gente vai tomando noção do que a gente está vivendo e do que a gente vai viver daqui pra frente, mas tô bem e você?

Tô bem na medida do possível. Como a gente não tem muita informação das coisas, parece que cada dia tem que ser o dia e não dá para a gente ficar criando planos para daqui muito pra frente.
Total!

Pra você, eu gostaria de saber como foi essa experiência de lançar o disco dessa forma distanciada, sem ter shows, sem poder ter esse contato direto com o público de forma mais real e menos virtual?
Ah, como foi o primeiro, eu não sei muito bem qual é o tamanho disso, de não estar próximo, lançando um conteúdo digital nesse caso. Porque, enfim, tem um lançamento do que está gravado e tem o lançamento do show, né? Do que está gravado como show. Isso ainda está na ideia. Mas está caminhando muito bem. Inclusive essa energia, o processo de maturação do disco pós-lançamento, nas plataformas digitais, como as pessoas estão escutando, a frequência que elas estão escutando também. Então acho que por um lado eu queria enfim já ter feito show de lançamento, mas por outro também é muito interessante de ficar nesse local e entender a potência do lançamento digital e tentar trabalhar ao máximo com isso nesse período.

Então você sente essa resposta do público de formas diversas nesse momento, né?
Sinto, sinto, isso está bem vivo.

Esse disco é um processo também de maturação, pois ele demorou bastante para chegar aos nossos ouvidos. E eu queria que você contasse um pouco sobre esse processo de entender e dizer “ok, agora eu tenho um disco e esse é o momento de colocá-lo pro mundo”.
Ele ia ser lançado em março do ano passado com outras fotos, com outra master final, o som dele tava diferente. E eu acho que esse processo de maturação que você falou foi uma atualização mesmo do disco, pois pra mim é como se fosse um TCC, eu que sou a compositora, eu que sou a pessoa que está assinando ali. Pra mim foi como um TCC onde eu contei com muita ajuda e colaboração e mentorias. E como é que ele está diferente e atualizado? A gente fez uma outra master pra poder atualizar o som pra 2021, reposicionou algumas faixas, pra que elas dessem mais potência, dependendo. E as fotos também foram outras; a gente utiliza as fotos que foram tiradas no ano passado, que é de João e Lia Cunha, no Teatro Vila Velha, só que na capa estão presentes fotos que foram tiradas em março desse ano, e enfim, a atualização é basicamente essa, da percepção visual e auditiva mesmo.

Sim, mas as composições já estavam todas finalizadas?
Todas. E todas gravadas em 2019 no Red Bull Station.

Aqui em São Paulo. Mas agora você está em Salvador né?
Isso, isso mesmo.

No caso, você assina todas as composições, mas tem duas que você tem parceria, uma com a Josyara e uma com a Raíssa Lopes, é isso? Como é pra você essa troca com elas, como é pra você compor de forma conjunta?
Todas são composições minhas, tudo, a letra fui eu que escrevi. Eu convidei Raíssa e Josyara para participar de duas faixas específicas, mas assim como eu também convidei Luiza Lian, Ana Frango Elétrico e Aline Falcão, que é instrumentista e participa de “Sem Edição”. Convidei Raíssa, que é uma amiga minha já de anos, ela é paulistana e convidei para ela cantar “Nada” comigo, a faixa, pois a gente sempre amou cantar juntas essa faixa. E Josyara eu convidei por que escutava o violão dela tocando em “Run Baby”, eu escutava muito a voz dela cantando “corre”, sabe? Então eu escuto as minhas músicas, as minhas criações com vozes outras, com instrumentos outros. Não tem como desfazer isso na minha cabeça. Se Josyara não pudesse tocar, eu ia colocar Josyara ali de alguma maneira.

Você falou dessa questão de ouvir os outros cantando a sua música. Às vezes você compõe pensando em outras pessoas, isso já vem natural, como funciona?
Já vem. Às vezes eu escuto, vamos supor, um disco, uma música, um single daquele artista e me vêm várias ideias assim: frases, refrões, riffs que me apontam muito para essa pessoa. Eu tento chegar até essa pessoa e falar “então, fiz uma canção aqui muito sua cara, se você quiser pode cantar aí, mas enfim, eu não vou conseguir cantar por que é a sua cara”.

Seria mais ou menos isso o que aconteceu com a faixa “Lian”, que você fez para a Luiza?
Seria, mas nesse caso Luiza, dentro de “Lian”, eu queria que ela respirasse dentro da faixa, sabe assim? Eu queria que ela estivesse no momento de gravação da faixa, ela participando é apoteótico, é uma coisa gigantesca. De início, a minha direção pra ela, no canto dela foi só dela respirar, aí ela perguntou “pô, Jadinha, só respirar, cê quer que eu faça o que?”, então eu falei “canta um pedaço de ‘Mira’, tira uma onda com a minha cara dizendo que a minha voz é boa, mas que quem canta é você”, aí ela deu uma risada assim e colocou um pedaço da faixa dela, composição dela.

Há nesse disco uma troca e também uma quase reverência sua a essas outras artistas jovens e também de sua geração. Tem a Luiza, você vai trazer várias vezes a Tulipa Ruiz, tem a troca com a Ana Frango Elétrico que você citou, com a Josyara. Eu queria entender como é pra você poder fazer parte e trocar com essas mulheres tão criativas?
Essas mulheres cantam o tempo inteiro na minha cabeça, a vida foi me mostrando e me apresentando elas de uma maneira muito fluida. O processo do disco foi de 10 dias em 2019, no final de julho pra agosto, eu tive essa oportunidade de gravar o disco lá e eu já cantava, já tinha escolhido essas composições e eu já tinha pensado nas participações. Aí eu cheguei pra cada uma que eu queria que participasse e falei assim “então, eu vou começar a gravar tal dia e eu gostaria muito que você aparecesse lá, pode aparecer qualquer dia, a gente vai tentar incluir a sua presença de alguma maneira” e todo mundo que participou do disco foi por intuição, foi por querer, apareceu no dia que podia. Lógico, alguns eu já tinha marcado o dia certinho assim e puderam chegar. Então, eu queria que fosse de espontânea vontade mesmo, que fosse natural, tipo “ah, tô passando aí perto, vou chegar aí”, sabe? Então as participações acontecerem bem assim no disco. Cantar com essas mulheres e compor para essas mulheres estarem presentes assim é como se fosse você escutando a minha cabeça. É como se a galera escutasse a minha cabeça mesmo, ouvisse esse quadro pincelado ali.

Outro nome que surge em vários momentos do disco é o Itamar Assumpção. É quase como se você conversasse com ele, queria entender qual é a influência dele na sua vida, na sua composição?
Demais! É sim, eu converso muito com o Itamar nesse disco. Acho que é a primeira pessoa, viu, Renan, que fala isso, da conversa, e eu abordo muito a conversa mesmo, dessa coisa primitiva que é trocar ideia. E Itamar faz isso no meu inconsciente, aqui dentro, ele me ajuda muito, como se fosse um guru mesmo. Enfim, eu acho que a influência de Itamar foi basicamente essa daí: da fala, da palavra, da importância dela, tornar um hábito a conversa, também a pergunta, estar sempre se perguntando se é isso mesmo ou se não é. Não é a toa que ele é o homenageado do disco, eu dedico o disco ao Itamar Assumpção.

Você falou dessa questão da palavra e da fala, mas também há um uso muito interessante da sua voz, como ela caminha entre o canto e a fala e eu queria entender como você construiu isso, se foi mais natural, se fluiu ou se há uma preparação específica?
Foi natural. O disco eu venho fazendo desde 2016, ali no final de 2016, e digo entre a composição e riffs e melodias, né? Venho criado o “Olho de Vidro” desde lá e ainda estou criando, por mais que eu lancei agora, como eu venho dizendo, o “Olho de Vidro” vocês estão ouvindo o disco, mas ele tem um show, então o show vai ser um outro lugar, um outro resultado. Como esse disco foi sendo construído em shows e tudo mais, junto com a banda Power 7, a minha voz foi chegando junto também. Eu às vezes cantava alguma frase, por exemplo, “Mangostão”, eu cantava “man-guuus-tão, mas-guuus-tão”, eu cantava bem assim, aí no meio de um ensaio, depois de já ter cantado várias vezes em show, eu falei para as meninas Marcela e Marina, que fazem segunda voz, assim: “galera, vamos cantar ‘mangostão’”, elas falaram “como assim? Mas mangustão é tão gostoso de falar”, eu falei “é gostoso, mas a palavra é com ‘ó’, então eu acho que a gente deveria trazer a gostosura para a palavra em si, real, não transformar a palavra para ela ficar gostosa”. Ela já é gostosa, já fala de uma fruta muito boa. Daí essa coisa de abrir pro “ó”, man-gooos-tão, foi bem de show, de vivência, de cantar várias vezes. Então a voz veio junto às melodias, rasgados, gritinhos, as partes sussurradas, elas vieram surgindo, por fazer mesmo.

No disco você tem a produção do João Milet Meirelles e vocês também trabalharam juntos no projeto Taxidermia. Eu queria saber como funciona esse processo criativo conjunto?
João eu conheci no teatro, em 2014, ele é filho de Márcio Meirelles, que é meu diretor teatral, e a gente já se conhecia fazendo música para teatro. A gente se deu muito bem e eu convidei ele para produzir o meu primeiro EP, junto do Ronei Jorge, e a gente já se deu muito bem lá. Nos demos tão bem que eu já cheguei pra ele e falei “então, vou atrás de gravar o meu primeiro disco e eu queria muito que você produzisse esse disco”, ele falou “tô dentro”. Aí em São Paulo eu consegui o edital Natura, consegui o Red Bull também, fiz o convite e ele já chegou diretão assim. A gente sempre trabalhou muito bem juntos, essa coisa da tradução que ele faz da minha cabeça pra parte musical é importantíssima assim pra mim, até para eu não ficar clicando na mesma teclinha. Então eu acho que ele resume e sintetiza muito – e literalmente, com sintetizadores – o som. E ele faz isso muito bem na banda, o Taxidermia. A gente lançou o “TAXIDERMIA vol. 1”, estamos pra lançar o “vol. 2”, já, já.

Ainda esse ano?
Ainda esse ano! Com certeza, não para não. E é muito bom trabalhar com ele assim, eu me sinto muito ativa e pesquisadora também, correndo atrás de muita referência pra gente poder trazer isso pra gente mesmo.

Sim. Você citou o Natural Musical e esse disco foi produzido com o apoio do Natura Musical e do Governo do Estado da Bahia, e eu queria entender como você enxerga a importância desse tipo de auxílio e gestão pública, pois a gente viu em 2020 e continua vendo o quanto isso é importante para a manutenção do setor cultural.
Com certeza. O disco foi gravado independente do edital, a gente gravou no Red Bull. A gente passou nessa seleção do Red Bull. Eu sempre falo “a gente”, sou eu Jadsa, mas a gente a banda inteira, junto com a produção e o selo Balaclava. A gente consegui passar aí nessa seleção, gravamos o disco em 10 dias e parte também do “TAXIDERMIA vol. 1”. Daí veio a notícia do edital do Natura para a finalização desse disco e para o lançamento e circulação. Então, a importância disso né? A importância de ter passado em uma seleção para a gravação do disco foi como se eu tivesse ganhado na Mega Sena e parece que eu ganhei mesmo viu, gente. E depois chegar a notícia do edital da Natura para poder finalizar o disco, que não é barato, que não é rápido e pra circular com o disco que é outra onda , a gente já vai entrando em vários momentinhos ali da empresa que seria o disco em si, então um apoio aí da Secretaria, da Natura, do Red Bull Station, das pessoas que trabalharam lá dentro, não tem como eu transformar isso em valor mesmo, sabe? É importantíssimo, a gente tem que correr atrás mesmo disso aí, nós artistas.

Sim, porque são muitas pessoas envolvidas nesse processo. As pessoas às vezes pensam que o artista termina de gravar o disco e ele está pronto, mas tem todo um processo posterior que envolve muita gente e que faz uma diferença danada para que o disco chegue nas pessoas, não é?
Muita gente, inclusive chegou no Red Bull, do nada, um amigo de João chamado Tiago Lima, que foi quem tirou todas as fotos que eu posto sobre o estúdio. Ele colou todos os dias simplesmente pra poder acompanhar esse processo, então você vai conhecendo e tentando administrar isso em importância quando você vai divulgando o seu trabalho, a gravação e tudo mais. É muita gente.

A gente falou um pouco dessas referências nacionais e desses outros artistas que te movimentam, mas eu queria saber também de outras coisas gringas, o que você escuta, o que te interessa?
Escuto muito o Alabama Shakes, muito mesmo, escuto o Band of Skulls, eu sou muito fã mesmo. O Warpaint eu escuto demais. Ah, não sei, umas coisas mais antigas, o Jimi, a Janis Joplin, escuto bastante, não é uma coisa que eu deixei de escutar, Peter Tosh, Bob Marley, é uma galera aí dos clássicos até os contemporâneos.

Uma coisa que você fala no release é sobre essa questão de ser da Bahia e fazer rock e de ser um estado que tem muitos nomes importantes do rock nacional, mas a primeira imagem que as pessoas têm é necessariamente o axé, mesmo com diferentes possibilidades de gêneros musicais que tem no estado. E eu queria que você falasse um pouco como você se enxerga nesse momento, quando a gente vê tantos outros artistas jovens que tem vindo e mostrado outros sons da Bahia.
Eu acho que aqui, na cidade de Salvador, a gente não mexe em time que está ganhando sabe? E o axé vem ganhando já tem muito tempo e, querendo ou não, pra gente que nasceu aqui, é reconhecimento mesmo, de você escutar um samba reggae e identificar que veio daqui. Você escuta em São Paulo o Olodum e fala “ah, é da minha cidade”, saca? Então acho que tem esse lance do pagode, do pagodão e do axé, que é não mexer em time que está ganhando. Mas que a gente tem muitas referências de outros gêneros musicais que se tem aqui. Mas também é muito importante a gente enxergar de fora, o que é que a gente tem. Então, eu aí em São Paulo, você está em São Paulo agora?

Sim, sim.
Então, eu aí em São Paulo conseguia enxergar muito melhor o que estava vindo daqui de Salvador, da Bahia em si, o que é que estava movimentando isso aqui. Enquanto a gente tá aqui dentro às vezes a gente nem ouve falar, mas quando a gente está num lugar para trabalhar que a gente realmente tem um tempo para enxergar isso, para poder fazer o planejamento, aí você vê que tem tanta influência, tanta gente que já passou, sabe? Eu estava falando nesse instante em um ao vivo aqui que eu fiz sobre Pitty, sobre os dois projetos que ela teve anterior a ser Pitty, o projeto solo. Um foi o Shes, que ela era bateria e backing vocal, e a banda era só de minas. She de ela, só que com s no final, elas. E o Inkoma, que ela era a frontwoman, então pra mim é muita referência até hoje, sabe?

E também tem o espaço de como a Pitty construiu uma carreira longeva né? Ela é uma artista que você olha pra carreira e se vê um processo bem construído, pois você olha e vê que ela passou por tantos espaços, ela conseguiu entrar em espaços muito grandes, sem que a gente nunca esqueça que é a Pitty, que é ela, que há uma figura interessante ali, acho isso muito legal.
Total, também, acho que ela consegue costurar a carreira dela aí e não perder o foco, não perder o fio da meada né?

Sim! E você falou que está trabalhando no “TAXIDERMIA vol. 2” e também no show do “Olho de Vidro”, então eu queria saber como você tem se organizado, como tem sido essa fase de trabalho pós-disco, pós o disco chegar ao mundo?
Ah, tá sendo massa. Assim, receber mensagens das pessoas, sobre como cada música está batendo nelas é importante para a formação da música pra mim, como é que eu vou passar ela num show, num ao vivo. Como é que eu passo ela em voz-guitarra, voz-guitarra-e-baixo, voz-guitarra-baixo-bateria, sabe? Como é que eu consigo, em cada formação, alcançar essa sensação. Vamos supor: quando você escuta “Mergulho”, que é a primeira faixa do disco, ela vem como um convite mesmo e, pra mim, na minha cabeça, ela é isso. Em que momento eu trago esse convite no show? Como primeira? Como última? Como meada ali? Como quebra do lado A e do lado B? Então está sendo muito importante escutar essas opiniões e sensações a partir disso. O “TAXIDERMIA vol. 2” está sendo construido baseado realmente no que eu estou sentindo dentro, que é essa coisa meio agitada, meio nervosa, querendo fazer. O “vol. 2” tá falando muito do interior, da parte interior. No “vol. 1” a gente falou muito da parte exterior e essa relação com o outro. No “vol. 2” é a relação consigo mesmo. O que é que a gente pode fazer e como a gente está se sentindo dentro. Então estão sendo dois processos bem similares assim: como é que eu posso cantar essas músicas e que elas saiam de mim com tanta potência? Que saia de mim sem perder potência, no caso. Como é que eu consigo chegar? Está sendo um processo bem legal.

Você falou desse processo de construir um show e de levar as músicas para esse espaço do ao vivo e para conversar com o público. E é interessante que no disco você tem muito forte também a referência do “Fa-Tal”, da Gal Costa, que é um show e um disco muito forte e muito emblemático.Como que você se referencia desse show e da figura da Gal?
Ah, sempre achei Gal muito radical nas atitudes e nas ideias dos shows. Nossa! E o “Fa-Tal” é muito isso, é ao vivaço, sem medo de errar, sem medo de desafinar, sem medo de afinar. Sem medo de voltar atrás. Essa questão de você realmente olhar pra frente, que é o que simboliza muito a frase “olho de vidro” pra mim, que é você enxergar lá na frente, você enxergar através do real, através do que está ali. Então o “Fa-Tal” é muito isso pra mim, é fatal, não tem para onde você correr. O palco ele pode ser um local de desespero para algumas pessoas, pra mim é um local de experimentação, pra mim é um local de troca. Então assistindo, vendo, escutando o “Fa-Tal” de Gal Costa, influencia no show propriamente dito do “Olho de Vidro”, mais até do que no disco. Eu cito ela ali por que a influência real de Gal “Fa-Tal” é no show, sabe? Então me dá esse gás e me dá essa radicalidade de “vou fazer e vai ser do meu jeito, mas vamos nessa que vai ser incrível”.

E é surreal pensar que esse show está fazendo 50 anos em 2021. E ele continua asustadoramente atual e ainda tão forte, né?
Muito, em timbre, em história, é muito doido.

Acredito que você deva estar também ansiosa para poder levar o seu show para o palco e poder voltar para esse espaço de encontro, não é?
Pô, tô demais, demais! A minha vida é em cima do palco, eu gosto muito. Saudades!
Eu acredito que com essa saudade que a gente encerra a entrevista.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz. A foto que abre é de João Milet Meirelles

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