Entrevista: Claudia Manzo, do Chile para BH e ao BaianaSystem

entrevista por Bruno Lisboa

Natural do Chile, Claudia Manzo é compositora e instrumentista. Radicada em Belo Horizonte há quase 10 anos, a artista tem trabalhado com música e teatro, estabelecendo fortes laços com a cena local através de parcerias com artistas como a Orquestra Atípica de Lhamas (na faixa “Yo No Soy Gringa”) e a cantora Mariana Cavanellas (Rosa Neon), com a qual lançará o single “Vacilão”.

Claudia lançou seu primeiro álbum em 2017, “América por uma Mirada Feminina”, e está finalizando o próximo. Ainda em 2021, a cantautora lançou o single “Re-volta” (que você ouve logo abaixo), onde tece críticas ao capitalismo e ao silenciamento das minorias, e participou do último álbum do Baianasystem, o recém lançado do “OXEAXEEXU” (2021), em duas faixas: “Pachamama” e “Capucha”.

Na entrevista abaixo, Claudia fala sobre as agruras da pandemia, a sua formação política, o seu apreço por questões ligadas a América Latina, a parceria com o Baianasystem, a sua aproximação com a cena artística belo-horizontina, o papel da arte como instrumento de mobilização social, a necessidade de aproximação cultural de países latinos, sua formação musical, planos futuros e muito mais. Confira.

A pandemia tem sido um período de grandes desafios e agruras para todos nós. E com a classe artística não tem sido diferente, pois ela tem sofrido duramente durante este período de confinamento. Nesse sentido como tem sido este momento para você?
Sem dúvida, um momento difícil, mas minha dificuldade tem a ver com não poder ver minha família (que está no Chile) e não poder encontrar os amigos. A situação em que tantas famílias no Brasil se encontram também me dói, mas eu felizmente tenho trabalho e artisticamente sigo produzindo constantemente. Lancei trabalhos e continuo focada nisso, mas a parte ruim e difícil é de não poder fazer shows, ter aquele contato com o público e os colegas. Eu tenho respeitado totalmente as medidas de isolamento e continuo em casa desde o início da pandemia.

Sua trajetória pessoal é marcada pela militância ligada a causas relacionadas ao feminismo e a política latino-americana. Como se deu a sua aproximação a estas questões pontuais?
Eu não me sinto militante, não me enxergo assim e entendo o compromisso de quem é. Vejo que o machismo mata. Eu sou mulher e artista, então, sinto que preciso falar disso. O mesmo acontece com a questão da política latino-americana. Mais do que falar de política como tal, eu acho importante ficarmos atentos aos nossos direitos como cidadãos do mundo. Moro na América Latina, aqui os problemas são bem diferentes dos problemas da Europa. A gente não tem nem os direitos básicos garantidos. Para mim é importante ter consciência disso e entender que nosso valor é maior. Como cidadã, trabalhadora que enxerga a desigualdade e é consciente disso, preciso falar, exigir e manifestar pelo que nos afeta. Eu venho de um país que foi muito marcado por uma ditadura. Desde que nasci escuto falar bem ou mal, favor ou contra, dessa ferida. Isso me fez ter desde pequena uma consciência social. Quando entendi a situação do nosso país, já adulta, estudando a história, consegui me posicionar. Antes da minha carreira artística profissional, já cantava grandes artistas da América Latina que foram vítimas de perseguição ou foram exilados por defender seu povo. Então não sei dizer quando ao certo, mas essas pautas sempre foram presentes na minha vida.

Acredito que o seu interesse relacionado a pautas ligadas a defesa e a união dos países / povos latinos tenha servido como referência para a sua aproximação com a banda BaianaSystem. Como foi o convite para a participação no novo disco do grupo (“OXEAXEEXU”)?
Eu sinto muito orgulho de ser desta região. Observo nossas riquezas e sinto que somos capazes de mais. Precisamos entender que poderíamos viver sem as regras que ditam os grandes impérios do presente. E viver melhor resgatando o que nossos povos Ameríndios queriam para nós; respeito à terra, viver em comunidade, desenvolver tecnologias. Defendo a gente se unir, se entender, se amar como continente. O convite para tocar com BaianaSystem foi muito especial. Eu estava muito tocada pelas manifestações que estavam acontecendo no Chile em outubro de 2019. Foi quando contatei Russo (Passapusso) pelo Instagram com a esperança dele, primeiro, me responder e, segundo, divulgar o que ninguém estava divulgando: pessoas morrendo, uma situação muito terrível (como a que a Colômbia está vivendo atualmente). A questão é que Russo respondeu e me convidou para cantar sem saber da minha história. No caminho ele e a banda foram conhecendo minhas ideias sobre a América Latina, minha pesquisa musical, e assim, fui entrando no disco. A ideia inicial era apenas cantar uma música, mas no fim das contas, acabei participando de duas músicas e do processo de outras. Uma alegria total.

Das duas faixas que você participou sei que “Pachamama” tem um significado especial para você. Qual é a relação estabelecida com a faixa?
As duas têm um grande significado para mim. Mas em “Pachamama” toquei o Cuatro e misturamos esse instrumento com um berimbau, que foi algo muito especial. Nesta música também existe uma reza. Pachamama é nossa mãe terra e na reza eu peço para que cuide e guarde nossos defuntos, que os transforme em semente e em vida. Depois de fazer a reza eu entendi que precisava dizer isso e chorar este momento.

Seu single mais recente, “Re-volta”, promove uma crítica ao capitalismo, ao silenciamento das minorias e a necessidade de nos movermos contra ao reacionarismo. Em tempo de enfraquecimento da cultura, qual a importância de fazer de sua arte um instrumento de mobilização social?
Eu sinto que como artista tenho uma responsabilidade social. Também retrato momentos e chamo para o diálogo. Não sei se no Brasil minha presença na música mobiliza, mas sei que pelo menos gera uma dúvida: Mulher? Imigrante? América Latina? Não é gringa? Revolta? Isso me faz feliz, porque parece que a ideia de quem nos governa é que a cada dia a gente tenha menos dúvidas. Acho importante sempre ter abertura para mudanças. A dúvida ajuda a refletir e assim podem vir mudanças significativas para melhores caminhos.

Há alguns anos você estabeleceu residência em Belo Horizonte e desde então tem solidificado parcerias com diversos artistas. Então pergunto: Como você vê o momento atual da cena local? E ainda: qual é o critério que você estabelece para levar a sua voz para o trabalho de outrem?
A cena de BH é muito diversa e muito rica. Do carnaval ao rap, do instrumental ao pop. Acho que agora a gente está reaprendendo a levar nossa arte pro resto do Brasil e do mundo. Nomes como Djonga, Lagum, Rosa Neon estão cada vez ganhando mais espaço e naturalmente impulsionam outros artistas. É claro que existe uma bolha e tem gente muito boa que ainda não ouvimos falar por aí. Mas sinto que o momento é bom e estamos aproveitando. Meu critério para escolher participações geralmente passa pelo gosto, pelo afeto, e claro pelo que está sendo dito, se faz sentido para mim. É algo que tem mais a ver como eu me sinto, se me desafia musicalmente ou se me diverte ritmicamente. Não tenho muitas regras, geralmente estou aberta a experimentar. Sou bem eclética e diversa. Já fiz e tenho feito várias participações em discos de colegas de Belo Horizonte e em shows. Eu adoro e aprendo demais.

Voltando os holofotes para a música produzida na América Latina, é visível que o interesse do público por essa música tem crescido de maneira exponencial graças a, por exemplo, iniciativas como a série documental “Quebra tudo“. Mas apesar deste crescimento, a aproximação e o diálogo entre artistas brasileiros e latinos ainda é escasso ou não tem a visibilidade devida. Na sua opinião o que é necessário fazer para que a necessária união aconteça?
É um trabalho de formiguinha. Moro há quase 10 anos no Brasil e falo em todo lugar que vou: somos latino-americanos, que é preciso nos reconhecer como hermanas e hermanos, e que somos lindos, cheios de histórias incríveis. Isso tem aberto espaços e hoje sinto que existe mais lugar para mim. Além disso, temos que falar sobre como fomos acostumados a olhar mais e com melhores olhos para nossos colonizadores. A gente se identifica com Estados Unidos e Europa. Isso é muito louco, né? Porque nossa cultura é totalmente diferente. Sabemos citar três cidades dos EUA sem pesquisar no Google. E do Chile? Do Uruguai? Isso me perturba. Sinto que vários artistas brasileiros tentaram e seguem tentando nos aproximar da América Latina, desde Caetano Veloso a Baiana System. Mas sinto que temos que tornar a América Latina um lugar mais acessível, para que haja essa identificação. Até porque nosso jeito de viver não é nada diferente. Temos as mesmas dificuldades, temos o churrasco no domingo, temos o reggaeton que é parecido com o funk, a cumbia ao carimbó, o candombe do candomblé. E isso vai rolar aos poucos. Acho que esse é um caminho que pelos menos funciona para mim.

Sua musicalidade inclusive promove uma miscelânea de ritmos latinos diversos, que estão evidenciados no seu disco de estreia, “América por una Mirada Feminina”. Então eu gostaria de saber como se deu a relação com a música e como essa imersão resultou no seu fazer artístico?
Eu canto desde sempre, pelo menos é o que me lembro. Meus tios, minha família inteira cantava, e eu achava que isso era normal em todas as famílias e lugares. Então, a música faz parte da minha vida desde sempre. Eu nasci numa transição política muito importante para meu país. Nasci em uma ditadura e cresci na tão esperada “democracia”. Foram 27 anos de ditadura, toque de recolher. Meus pais viveram momentos difíceis. Na família havia opiniões políticas divididas. No repertório também, mas mesmo assim cantavam juntos. Desde o repertorio latino-americano proibido na época, canto nuevo chileno, nuevo cancionero argentino, trova cubana, até Abba, música italiana, rock argentino, Pink Floyd, etc. Mas o que mais me conquistou foi que muitos dos hinos da América Latina que eles cantavam tem vozes lindas, ritmos divertidos e muito sentimento. Eu me reconhecia nisso. Sempre fui curiosa e entusiasta. O Chile teve muitos músicos exilados. E quando eles voltaram tinham feito uma troca interessante com músicos latino-americanos também exilados, isso trouxe mais proximidade com nossa América Latina. Quando me formei em música, o diretor da minha escola era Horacio Salinas, músico muito importante para o Chile e integrante e fundador do Inti-Illimani. Lembro que na época ele me disse que estava conversando com Chico Buarque. Já cantei músicas de todo lugar, mas quando fui pesquisando nossa cultura não consigo me separar. Pesquiso mais, coloco elementos da música do mundo inteiro nas minhas composições, mas nossa cultura me inspira demais. Gosto muito dos instrumentos latinos e de compor neles, como o cuatro venezuelano, o cajon peruano. No meu primeiro disco, gravamos esses instrumentos e outras sonoridades brasileiras e assim também vem minhas próximas composições, cheias de detalhes da nossa América Latina.

Por fim, 2021, apesar de todos os pesares, tem sido um ano de realizações para você. Quais são os seus planos futuros?
Apesar de los pesares, tem sido um ano de realizações sim. Lancei duas músicas com BaianaSystem, isso é uma tremenda conquista em todo sentido. Lancei meu single “Re-volta”, que abriu caminho prum novo momento musical. Agora em maio vou lançar mais um single e estou na etapa de finalização do meu próximo disco. No momento mais louco, eu estou conseguindo essas realizações. Tenho muito a agradecer, muita gente morrendo, muita gente em situação difícil e eu estou bem, com saúde e conseguindo criar. Não tem shows, não tem esse encontro precioso com o público, mas pelo menos consigo resistir como artista. Então, disco novo ainda no primeiro semestre 2021, feats potentes, vídeos. Em breve pretendo lançar a lojinha da Claudia Manzo. Também estou pensando numa comemoração dos meus 10 anos no Brasil para fim de ano ou começo do outro, e o coração está chamando pra fazer mais um disco, vamos ver!

– Bruno Lisboa  é redator/colunista do O Poder do Resumão. Escreve no Scream & Yell desde 2014.

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