Entrevista: Chico Felitti

entrevista por Leonardo Vinhas 

Chico Felitti é um nome de destaque no restrito universo dos que praticam jornalismo literário no país. Suas investigações jornalísticas podem penetrar tanto o universo familiar das vítimas de Covid-19 como vasculhar a história esquecida e ignorada de um dos nomes mais importantes do entretenimento brasileiro: o que importa é “entender a história inteira” para colocá-la “em seu lugar”, como ele mesmo contou ao Scream & Yell.

Nos últimos três anos, esse paulista natural de Jundiaí entregou três livros notáveis: “A casa — A história aterradora da seita de João de Deus”, “Ricardo e Vânia — O maquiador, a garota de programa, o silicone e uma história de amor” (ambos pela editora Todavia) e o audiolivro “Mulher Maravilha”, uma biografia de Elke Maravilha. Além deles, é responsável também pelo podcast Muitas Vidas, no qual relata a vida de pessoas que perderam a vida para o coronavírus a partir de relatos de pessoas próximas a elas – o programa está disponível exclusivamente no app Orelo.

Todas essas obras, bem como muitas de suas reportagens e podcasts pregressos, trazem histórias ricas e contundentes, mesmo lidando com universos muito distintos. A complexa teia de omissões, conivências e crimes que permitiam que o autoproclamado João de Deus abusasse impunemente de centenas de mulheres nada tem a ver com as jornadas pessoais de Ricardo Corrêa da Silva (que ficou conhecido pelo infame e pejorativo apelido “Fofão da Augusta”) e da garota de programa Vânia. Porém, a apuração extensa e rigorosa, a elegância das palavras e a sensibilidade de trazer emoções a partir de fatos está presente em todos eles.

Seus livros trazem extensas investigações jornalísticas. Em um cenário como o que hoje vivemos, onde tudo é nicho e não interessam os fatos, e sim quem consegue gritar mais alto, quem se interessa por essas investigações?
As pessoas que não se satisfazem só com opinião o tempo inteiro. As redes sociais e mesmo os veículos de comunicação surgidos nas últimas décadas privilegiam muito a opinião, a polêmica, o que vai ser compartilhado porque vai levantar ânimos e paixões. E no fim do dia, você falou mal de 18 pessoas de quem você não gosta, xingou muito o presidente… Qual o estofo disso? Qual a história? O que você tem de mais longevo, além da tocha e do tridente que você carrega todo dia, inflamado pelo ódio? Que universo você conheceu que você não conhecia, que mundo que você desconhecia e visitou e ficou maravilhada ou maravilhado ou assustado e saiu carregando pra vida? É muito pouco o que a gente carrega hoje. Opinião é super necessária, claro, análises são necessárias, mas não dá para viver só de opinião e análise. A gente precisa de novidade, se surpreender com a realidade. Esse é o papel de uma grande reportagem. Pra mim, a frase é “isso está acontecendo”. É mostrar algo para o leitor ou para a leitora, mostrar que isso está acontecendo, e ele falar “não acredito” de tão inconcebível que é – por ser muito bonito, ou muito exótico, ou muito revoltante. Essa reportagem que a agência Pública fez sobre o Samuel Klein, eu fiquei uma hora sem conseguir sair do telefone porque conheci um universo que eu não conhecia, e dias depois ainda estou carregando-o e acho que vou carregar pro resto da vida. A agência foi lá e me mostrou essa fatia do mundo que eu não conhecia. Acho que esse é o meu trabalho também. A estrutura do poder de João de Deus: como esse zé mané semianalfabeto virou um dos maiores gurus do mundo, como ele transformou uma cidade, o que a cidade fez com ele. É o tipo de coisa que eu não saberia se não tivesse passado um ano por lá, e o leitor e a leitora também não saberiam. De verdade, é só mostrar um pedaço do mundo e apontar uma lanterna pra ele. Mesma coisa a vida da Vânia: ela vai pra Europa sem nunca ter entrado em um avião, desembarca em um país cuja língua ela não fala, revoluciona o mercado do sexo pago… É mostrar esse pedaço do mundo que as pessoas não conheciam, e a opinião não faz isso. Opinião mostra um pedaço dentro de você que os outros não conheciam – ou conheciam e têm esse mesmo pedaço dentro dele (ri). A reportagem é uma lufada de ar fresco, e a gente está em um mundo de ar tóxico, tanto literal quanto metaforicamente.

Qual o impacto que um livro como “A Casa”, ou outras grandes investigações, pode trazer para a sociedade?
Um impacto enorme, sem dúvida. “Ricardo e Vânia” vendeu bem e fez sucesso em círculos muito próximos à minha vida. Já “A Casa” é uma loucura, porque vendeu e eu não vi. Eu não conheço as pessoas que leram! E quando essas pessoas vêm me procurar, eu descubro que são donas de casa de Goiânia, advogadas de Manaus, pessoas que de fato tinham interesse por aquele universo, mas o desconheciam. O livro foi a possibilidade de conhecer aquela história. Elas dizem que o livro foi o que permitiu que elas entendessem o que foi Abadiânia, porque até então só tinham acesso a versões picadas, informações que eram mais marketing do que a história tal qual aconteceu. Teve gente que foi quase foi abusada e veio me agradecer pelo livro; também gente que foi abusada e contando que agora entendeu como tudo aconteceu; gente agradecendo por não ter ido agora que entende o que era… Eu mesmo tive uma doença anos atrás e meu pai queria me levar para Abadiânia. Era meio natural no Brasil, ninguém questionava o que era aquilo, de onde tinha vindo. Se você estava desenganado, a resposta não era “vamos fazer quimioterapia”, e sim “vamos para Abadiânia”. Era uma instituição brasileira, e entender a história inteira é dar a devida importância, colocar aquilo no lugar.

Em dado momento de “A Casa”, você diz preferir escrever sobre pessoas que admira, o que obviamente não era o caso do médium. Você acaba de falar sobre esse apreço pelo novo, e entendo que ele possa estar presente no caso do João de Deus, mas também tem um lado denso na história, que envolve informações e sensações desagradáveis, mesmo em histórias de quem você admira. Como é lidar com isso?
Eu elaboro muito pouco as coisas. Eu sou muito torpe, e isso não é fazer tipo, é autoanálise mesmo. Eu não sei mapear meus sentimentos e minhas sensações, então tudo que eu faço é muito orgânico e instintivo, e demorei muito para identificar que eu só me aproximava de pedreiras (risos), de histórias muito pesadas. Era tudo sem consciência! (risos) Demorou muito tempo para entender que eu gostava de uma melancolia, de universos mais soturnos, mais pesados. Eu vejo mais a beleza desses universos do que tudo de ruim e de trágico e de horrível que os cerca. Claro, tem um peso emocional, mas para mim isso é natural. Acho natural chorar trabalhando, hoje em dia nem sei como seria de outro jeito (risos). Já tive muitos momentos de ter que parar por dois dias só para ficar fazendo coisas menos desesperadoras para conseguir seguir adiante. Isso rola muito. Mas até nos trabalhos que parecem ser super solares, como foi o caso da Elke, no fim têm um lado obscuro. Então talvez seja onde meu olho pouse sem eu ter controle. A Elke morreu à míngua em um apartamento cheio de lixo, e foi uma pessoa que revolucionou o entretenimento. Acho que talvez eu tenha um pendor para ir em direção a coisas não bonitas.

Você se definiu como “torpe”, no sentido que não analisa sobre aquilo que escreve…
(interrompendo) Sou tipo um cachorro, vou fazendo.

… mas não tem só o lado pesado. Tem o lado bom, que também é intenso. É notável sua paixão pela Elke, assim como seu amor pelo Ricardo e pela Vânia.
Super.

E se você me permite, é notável também o amor pela sua mãe, que tem grande destaque no livro.
(ri muito) Sim, ela é protagonista. Pra mim, o título do livro é “Ricardo, Vânia e Isabel”. Eu tô só de espectador.

Bem, digo tudo isso porque os manuais de redação defendem uma separação entre jornalista e personagem que a gente sabe ser inviável na prática. Essa separação é mais um ponto de referência que algo exequível. Mas não chega uma hora onde fica difícil escrever sobre essas figuras justamente por ter esse afeto envolvido?
Seria super um problema, se eu tivesse que biografar alguém que eu admirasse muito e essa pessoa estivesse viva e se envolvesse no processo. Nesse caso, não “daria bom” (risos). Não seria legal, não. Mas no caso da Elke, como ela já tinha morrido, já tinha um distanciamento. Eu já tinha tido um contato com ela em vida, porque minha ideia era ter feito uma biografia dela como trabalho de conclusão de curso na faculdade. Mas já tinha um distanciamento. Eu não estava lá para agradar a Elke, e acho que mesmo com ela viva eu não me importaria. Isso é algo que trago dos meus 10 anos de Folha de São Paulo. Ali tem um manual, como você disse, com a premissa de impessoalidade e objetividade. O repórter nunca é a notícia, a mãe do repórter menos ainda (ri). Essas padronizações são importantes e funcionam para muitos tipos de trabalho, mas não para todos. Um livro como o “Ricardo e Vânia” teria sido inviabilizado. É que, quando você vai para um trabalho de mais fôlego, que exige mais envolvimento, acho ingenuidade achar que você vai conseguir se distanciar. Eu convivia com as pessoas que sobreviveram aos crimes dentro da casa da Dom Inácio de Loyola, nos encontramos umas 20 vezes, trocávamos mensagens. Mesmo em um perfil longo que eu fiz sobre a Ana Luiza dos Anjos Garcez, uma corredora de rua conhecida como Animal – foi para o Buzzfeed, não chegou a virar livro nem nada – ela se tornou minha amiga até hoje. Ela foi ao meu casamento! A Vânia veio [de Paris] para o lançamento do livro porque a gente (Chico e sua mãe) trouxe. É o caminho que encontrei. Não sei se é o caminho aconselhado ou aconselhável (ri), mas é o que eu encontrei. Porque eu não precisava bater continência para ninguém, sabe? Podia relatar tudo como aconteceu, inclusive meus sentimentos. Porque, se eles eclodem, é meu dever de ofício relatá-los. Mas eu acho que não daria certo se eu tivesse que fazer sobre alguém por quem tenho uma admiração de entrega, de vida. Se bem que esse é um grupo de tão poucas pessoas… (hesita) Não sei, Lygia Fagundes Telles, talvez? Se eu fosse fazer uma biografia dela hoje, talvez eu não conseguisse ser o repórter que eu precisaria ser, porque gosto muito dela e talvez quisesse preservar sua imagem. Por outro lado, ter uma personalidade curiosa é ter uma personalidade desatenta, ao menos um pouco. Nada prende minha atenção por muito tempo. Meu foco está ali por um ano, e depois vai mudar, porque vai vir algo novo. É natural. Claro, você vai levar aprendizados e pessoas daquilo tudo para o resto da vida, mas não vai viver em função daquilo. Não consigo me imaginar passando anos me dedicando à história da Carmen Miranda, aí fazendo uma biografia de 700 páginas sobre ela e me tornar “o biógrafo da Carmen Miranda” para o resto da vida. Eu acho que tenho uma necessidade de passagem, de novidade, que me impedem de ser esse especialista. Eu acho maravilhoso quem faz isso, mas para mim não daria, não.

E histórias correlatas semelhantes às que você já cobriu, te interessariam? Vamos fazer um exercício de hipótese: você se animaria a fazer uma investigação sobre o Prem Baba ou o Deva Nishok, outros dois “gurus” acusados de assédio sexual? Claro que a história de cada um deles tem sua particularidade, mas em essência, é a mesma “premissa” do João de Deus.
Me interessaria, sim! Porque são outras pessoas, e isso muda o contexto totalmente. Não que eu vá virar setorista de abusos em ambientes místicos e religiosos, por mais que eu ache que isso é um grande tema desses tempos em que a gente vive, então precisamos desses setoristas (risos). Mas sei lá… Estou fazendo outra história sobre Centro de São Paulo marginalizado, sobre a qual não posso adiantar muito ainda. Mas já concluí o livro, e foi uma investigação que passou por várias coisas inacreditáveis. “Ricardo e Vânia” também é uma história de um Centro de SP marginalizado, anos 70, 80, 90. Vale para esse livro que eu terminei agora. Depois de muito tempo, eu consegui entender que as histórias [desses dois livros] são diferentes. Se a história é boa e é autônoma, vale fazer um novo livro, não tem porque ficar à espera de um tema totalmente novo e diverso do livro anterior. É um preconceito achar o contrário. Claro, dá um medo de virar uma pessoa de uma tecla só, mas esse medo vem de um preconceito de achar que esses universos são restritos. Na verdade, eles guaram um milhão de histórias boas. Acho que estou nesse momento de libertação, de entender que se aparecer mais uma história desse universo LGBTQA+ marginalizado que tenha se passado em São Paulo, eu vou fazer.

Você sempre se apresentou, assumidamente, como um jornalista e uma pessoa do universo LGBTQA+. Porém, não encontrei em nenhum dos seus textos o recorte de uma microrrepresentatividade. O [historiador e escritor inglês] Tony Judt defendia que as representações públicas de minoras foram perdendo o caráter coletivo para se tornarem microidentitárias, e com isso criavam “casinhas” onde, em vez de propor soluções de união e respeito, acabava criando mais diferenças. É algo que você tende a concordar? E como você cuida para que seus textos não resvalem para esse lado?
Acho que vem muito do recorte. Eu só consigo contar os acontecimentos como eles são ou como eles foram, e a realidade não é microssegmentada e hiperdividida. A realidade é um bololô, né? (ri) É uma loucura, ela está muito além da nossa capacidade de divisão e descrição. Pegando um exemplo literal: eu escrevi nesse último livro sobre uma travesti que nasceu socialmente considerada menino, transicionou para a mulher que era, fez outra transição para homem e depois transicionou novamente para mulher. Olha como isso é complexo! Em que gavetinha você vai colocar isso? Talvez eu me atraia pelas histórias que são mais difíceis de classificar mesmo, e que por isso gerem um contexto maior. Permite ver mais da realidade. O mundo é muito mais complexo, não dá para falar de uma causa só, são muitas forças operando, as incoerências se mostram na prática. Eu entendo a necessidade de uma militância mais teórica, mas a realidade são outros quinhentos. O mundo é um sarapatel maluco de tudo o que existe, e é muito difícil de botar em gavetinhas. Por isso, idealmente prefiro mostrar o que foi.

O Brasil tem uma escola própria de jornalismo literário, ou ainda somos muito devedores ao modelo do new journalism? Ou, mais ainda, nossa produção é tão pequena que não dá nem para identificar um padrão? (risos)
Acho que tem muita gente que faz muita coisa boa, autoral, autêntica. O problema é que, para ter uma escola, tanto estilística quanto institucionalmente, precisaríamos ter meios. Precisaríamos ter gente ganhando dinheiro para produzir, ter uma possibilidade de carreira com isso. E tão poucas pessoas conseguem viver da escrita de não-ficção. Tanta gente boa, e mesmo assim dificilmente conseguem viver disso, quanto mais ter um volume de trabalho para fazer uma escola. A impressão que dá é que são duas dúzias de gatos pingados. É gente que eu venero, que manda muito bem, com um trabalho que não faria vergonha em lugar algum, mas que é um rolé. Tá todo mundo lutando. Você pega outros países, com imprensa mais estabelecida e um mercado editorial mais sólido e capilarizado, as pessoas conseguem viver disso, conseguem tocar grandes projetos. Acho difícil analisar nossa produção de jornalismo literário sem deixar de levar em conta os meios de produção. Como o maluco vai fazer um livro que vai consumir dois anos de trabalho se ele vai ser pago no máximo o equivalente a três meses de salário para isso? O cara não vai conseguir comer! Conheço muitos livros ótimos que não foram escritos por causa disso.

Trabalhos como o seu trazem essa atitude de olhar para o diferente com acolhimento, não com julgamento ou condescendência. Estamos em um momento onde estamos propensos a ouvir que as diferenças não importam tanto, ou estamos tão cegos de ódio que nossos ouvidos estão fechados para isso?
Primeiro, a versão “copo meio vazio”: o alcance de um trabalho desse é limitadíssimo. Tende a chegar apenas a pessoas que pensam mais ou menos parecido, pessoas que têm noções humanistas e acreditam em coisas abstratas como direitos humanos. A versão “copo meio cheio” é achar que o ódio está tão ferrenho, a falta de aceitação tá tão intensa, que vai haver um movimento contrário para repelir isso. Acreditar que muita gente vai se distanciar disso nos próximos anos quando entender que o ódio é nocivo, que a segregação de qualquer forma é nociva. Que a escolha de um grupo para ser superior é a base dos maiores erros que a humanidade já cometeu. Muita gente vai descer desse barco porque a história é cíclica. Estamos em um momento de horror, de muita escuridão, e em um momento essa esfenoide vai começar a subir. A gente está entendendo aos poucos.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

 

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